12 julho 2018

ASSOCIAÇÃO FÚNEBRE FAMILIAR PENAFIDELENSE DE SOCORROS MÚTUOS

FUNDAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO
FÚNEBRE FAMILIAR 
PENAFIDELENSE
DE SOCORROS MÚTUOS 



No dia 6 de Outubro de 1907, a Banda de Música do Albaninho, percorreu de manhã todas as ruas da cidade de Penafiel, a incitar os penafidelenses a comparecerem ás 16,30 h, na sede da Associação Artística, situada na Rua do Paço, para se inscreverem como sócios e dar o seu apoio à fundação da Associação Fúnebre Familiar Penafidelense de Socorros Mútuos.

No estrado estava a Comissão Iniciadora constituída pelos senhores: Gregório Nogueira Soares, Manuel José Ferreira, Victorino Henrique da Silva e António de Souza Reis. Igualmente estava o Administrador do Concelho, o Pároco da cidade e individualidades de grande destaque do meio penafidelense.

Abriu a sessão o membro da Comissão Iniciadora sr. António de Souza Reis, que num longo discurso demonstrou as grandes vantagens que o operário penafidelense ia auferir com a fundação desta Associação, solicitando que era vergonhoso a maneira como eram feitos os funerais dos indivíduos da classe proletariada.

Terminou por propor para presidir o sr. professor Belmiro Nogueira Xavier (Inspector Primário aposentado), cujo nome foi muito aclamado.

Tomando o respectivo lugar, principiou por agradecer tal homenagem, e num desenvolvido discurso, mostrou o quanto era necessário uma associação como a que se iria fundar.

Orgulhava-se que dentro da florescente Associação Artística se assentavam as bases para outra, incutiu no animo da grande assistência a inscreverem-se como sócios, que era a sua providência no futuro.

A seguir propôs para secretariar os srs. Miranda Veiga (proprietário do jornal “Comércio de Penafiel”), e Francisco de Queirós (dono de Casa de Pasto).

Fizeram depois uso da palavra, Maravilhas Pereira, José António Soares de Aguiar e José Francisco de Queiroz, propagandistas do mutualismos, incitando os operários penafidelenses a levarem avante a fundação desta associação, que lhes prestará valiosos benefícios para o futuro. Os oradores foram muito aplaudidos. No átrio no fim de cada discurso, a Banda de Música tocava trechos do seu belo reportório.

A inscrição de sócios fundadores, atingiu o número de 316.

No final foi eleita a Comissão Administrativa que ficou assim constituída:

Efectivos

Presidente - Joaquim da C. Tomé
Vice-Presidente – Manuel José Ferreira
Tesoureiro – António José de Freitas Guimarães
Secretários – Augusto Joaquim da Silva Mendes e António de Souza Reis.

Suplentes – Gregório Nogueira Soares, António Fortunato da Silva e Victorino Henriques da Silva.

Depois da criação da Associação Artística e Fúnebre Penafidelense, e com o decorrer dos anos, muitos penafidelenses se dedicavam de alma e coração ao problema do mutualismo, mas haviam dois que se destacavam tal eram as suas entregas ás causas, que em todas as assembleias usavam da palavra para discutir e debater os problemas.



Eram eles o Sr. António de Souza Reis (Pai do Reis Livreiro que conhecemos na Rua do Paço, e que nos deliciava com a cascata do S. João), e o José Alves, mais conhecido na urbe pelo Alves Latoeiro.

António Souza Reis e José Alves, deixaram os seus nomes ligados ao mutualismo penafidelense, ajudando a construir uma obra que será sempre lembrada e louvada tal os benefícios usufruídos pelos respectivos associados que, mediante uma pequena mensalidade, têm direito a médico, remédios, subsídios por doença, enterro e subsídio de luto para os seus familiares, desaparecendo assim os sérios inconvenientes que geralmente apareciam quando as fatalidades batiam à porta das classes menos abastadas.

Eram bons companheiros, mas sempre que surgia qualquer problema de maior importância para o mutualismo, colocavam-se geralmente em campos opostos estabelecendo uma “oposição” amiga e só provocada por amor à causa, que era explorada pelos associados que se dividiam em dois grupos por eles capitaneados.

Realizavam-se assembleias gerais muito agitadas ali na Rua do Paço, na sede das duas associações Artística e Fúnebre, lá estando sempre o António de Souza Reis e o José Alves, de papel e lápis na mão para debaterem as suas opiniões, as suas ideias, com aplausos das massas torcedoras que vibravam com os acontecimentos.

Houve também algumas sessões solenes de homenagem a benfeitores desses organismos descerrando-se por vezes as suas fotografias que iam enriquecer a galeria já ali existente e deveras apreciada.

É precisamente de uma dessas sessões solenes que vou falar hoje, relatando uma engraçada cena.



Tinha lugar naquela noite uma sessão solene para homenagear um velho servidor da Associação o cobrador Augusto Rebelo.

O Reis Livreiro, fazendo uso da palavra procurou tecer-lhe os mais rasgados elogios dizendo que era tão cuidadoso no seu trabalho de cobrança que logo de manhãzinha, mal rompia o dia, aparecia aos associados para efectuar a cobrança de cotas nas suas residências, algumas bem distantes.
E o Sr. Reis louvando sempre o Rebelo comparava-o ao melro que, logo de manhã surge nos campos com o seu trinar muito cedo como que a dar os bons dias ás populações.

Nesta comparação entre o Rebelo e o melro, a dada altura o Sr. Reis virou-se para a assistência e disse:

  • Se algum de vós ouvir um dia bater, muito cedo, à porta, sabeis quem é?

Ora estava a assistir a esta sessão soleneum sócio que nunca faltava a estes actos e que quase sempre se sentava nas primeiras filas de bancos e por vezes bem animado, o Zé Pereira, morador em S. Roque, que se dedicava à colocação e reparação de bombas de água, e que ao ouvir a pergunta do Sr. Reis, levantou a cabeça e respondeu em voz alta:

-É o melro!

Todos desataram à gargalhada de tal maneira, que nem o orador teve coragem para continuar o seu discurso, dando a sessão por terminada.



Infelizmente hoje esta Associação vai sobrevivendo sem a pujança de antigamente, mas agonizando numa morte lenta, ligada à máquina do desinteresse. Afinal de contas, como diz a sabedoria popular, “ Os tempos são outros”.

21 junho 2018

FLOCOS DE NEVE

FLOCOS DE NEVE



Claro está, que estes flocos de neve, nada têm que ver com a meteorologia, mas sim com uma revista popular em 2 actos e 10 quadros, levada à cena no Cine Club no dia 18 de Maio de 1940, por um grupo de alunos e alunas do Colégio de Nossa Senhora do Carmo, desta cidade de Penafiel, com a colaboração da distinta amadora Mimi Iglésias, sendo a revista escrita pelo Sr. Arnaldo Passos.

Leves e graciosos os números foram-se sucedendo, deixando bem disposta a plateia, que no final do espectáculo aplaudiu de pé.

O desempenho foi soberbo, visto que algumas das gentis actrizes já tinham pisado o palco em espectáculos no Recreatório Infantil, embora outras fosse a primeira vez que o faziam, mas todas e todos actuaram com responsabilidade dando boa conta de si.

Sem melindres, mas Vergínia Machado, especialmente no papel de “Ermelinda”, a endiabrada Maria de Lourdes e a Silvana Coelho, foram admiráveis.

António C. Pinto sobressaiu no “Sonho do Amor” e ainda na “Aldeia”, tendo cantado com muita naturalidade.

Maria Zé Teles cantando “Saudade”, Antonieta Viana, “Um belo craveiro” e as outras Aurora Santana, Manuela Viana, Maria Moreira e Augusta Campos, todas elas actuando com graça e frescura.

Mimi Iglésias encantou com a sua admirável e linda voz em tudo que disse e cantou.

Casimiro Nogueira foi um bom animador e estava seguro do ingrato papel.

Evaristo Pereira, Rui Barbosa, Joaquim Nunes e Fernando Coelho, desempenharam bem os seus papeis dançando e cantando bem.

Fernando Baptista, foi bem no “Antiquário” e soberbo em “Lobo do Mar”.

O ponto esteve a cargo de João Pinto Matos que disse baixinho toda a revista.

A música original e adaptada aos números e ás vozes, foram dos srs. Padre Oliveira Manarte, Eduardo Liz e Joaquim Serrano, tendo a orquestra sido dirigida pelo sr. Eduardo Ferraz Liz.

O bonito libreto e os cenários um primor, foram de autoria de German Iglésias, que mais uma vez mostrou a sua arte, seu bom gosto e saber.

Pepe Iglésias na complicada engrenagem da maquinaria dos bastidores.

O guarda-roupa foi executado por Zulmira Iglésias.



Os alunos e alunas que fizeram parte destes Flocos de Neve, não só honraram o nome do Colégio de Nossa Senhora do Carmo, como o da cidade de Penafiel, já que todos estes cultivadores da arte de Talma, eram seus filhos.

O êxito foi tal, que no dia 26 de Maio de 1940, a revista Flocos de Neve subiu novamente à cena do Cine Club, tendo o pianista Eduardo Liz executado ao piano dois novos trechos musicais que deliciaram a assistência, assim como um novo número intitulado “Viva Portugal”que foi muito aplaudido.

Desta vez o produto desta récita reverteu totalmente a favor do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel.



O bairrismo dos penafidelenses não se fez rogado, e encheu por completo o Cine Club para assim generosamente auxiliar o nosso primeiro estabelecimento de assistência que tanto enobreceu Penafiel, pelos serviços que prestou ás classes pobres.

Assim, ficamos a saber, que em tempos que já lá vão, a par dos estudos, alunos e alunas do Colégio de Nossa Senhora do Carmo, tinham como passatempo extra curricular, a arte de representar para proporcionarem algumas alegrias, no meio das agruras da vida estudantil.

25 maio 2018

O RELÓGIO DA IGREJA DE DUAS IGREJAS

O RELÓGIO DA IGREJA DE 
DUAS IGREJAS



Tempos houveram que a vida era tão dura e difícil por estas bandas, que muitos patrícios resolveram emigrar para o Brasil.



É que a emigração também tem os seus tempos e destinos. Se nos anos 60 o rumo era a França e Alemanha, muito tempos atrás eram as Terras de Santa Cruz.



A muitos a vida sorriu-lhe de tal maneira nestas paragens, que resolveram fazer algo para bem de todos na sua terra Natal. 

 
É o caso do casal Sr. Joaquim Pereira Coelho e da sua esposa D.na Maria da Conceição Pereira Coelho, que resolveram oferecer em 1959 um bom relógio, para a torre da Igreja de Santo Adrião de Duas Igrejas, completando assim um pensamento dos autores da sua construção, o que só foi levado a efeito 86 anos depois visto que a Igreja Matriz de Duas Igrejas, freguesia de Penafiel, ter sido construída em 1873.

Pelas festas em Honra de Nossa Senhora do Rosário, que se realizam no 1.º domingo do mês de Outubro em Duas Igrejas, vulgarmente conhecida pela festa da sopa seca, e que neste ano de 1959, se realizaram no dia 4 de Outubro.

O benemérito casal que nesta ridente terra viu pela primeira vez a luz do dia, nela se baptizou, comungou, casou e viu também nascer os frutos do seu amor, embora que partisse através do Oceano,, onde preveniu que o pesado fardo da vida lhe pudesse ser mais suave, a verdade é que nunca se esqueceram da terra que os viu nascer.

Eram cerca das 17 horas, do dia 4 de Outubro de 1959, quando um cortejo com o casal benemérito à frente ladeado das pessoas mais representativas da terra, seguiu desde o entroncamento da estrada Penafiel – Abragão até ao adro da Igreja, acompanhado por uma banda de música, ao mesmo tempo que no ar estoiravam muitos estrondosos foguetes.

Depois de inaugurado e benzido o relógio para contentamento de todos, o casal dirigiu-se para a sacristia onde foram descerradas as fotografias daqueles beneméritos.



De seguida dirigiram-se para a residência paroquial, onde se encontravam grandes mesas bem recheadas de diversas guloseimas.

O Reverendo Padre António da Rocha Reis, agradeceu a oferta do relógio, desejando ao benemérito casal muitos anos de vida repletos de felicidades.



Falou ainda o sr. Francisco José Moreira Fernandes e o seminarista Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes que em nome das crianças de quem é instrutor, agradecendo ao Sr. Joaquim Pereira Coelho e esposa a oferta tão valiosa e útil de que esta freguesia de Duas Igrejas fica dotada.



Teve também palavras de gratidão para o Sr. António Luís da Rocha, cunhado do sr. Joaquim Pereira Coelho, que custeou as despesas da Festa em Honra de Nossa Senhora do Rosário.



Também é de realçar que a D.na Irene Coelho Marques (filha deste casal benemérito) e marido, ofereceram 900$00, para serem distribuídos pelos mais pobres da terra.



E pronto aqui fica mais um naco de história que relata que a partir do dia 4 de Outubro de 1959, do cimo da torre da Igreja Mãe de Duas Igrejas se começaram a ouvir o bater das horas.





Aquele jovem seminarista Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes, que tomou a palavra em nome das crianças a quem ele ensinava a catequese agradecendo a dádiva deste relógio, nasceu a 27 de Junho de 1941, em Duas Igrejas, freguesia de Penafiel, e foi ordenado padre a 26 de Março de 1966 pelo então Cardeal Patriarca, Manuel Cerejeira, em Lisboa.

A sua primeira missa também chamada de Missa Nova celebrada pelo Padre Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes, na sua terra natal ou seja na Igreja de Duas Igrejas, foi no dia 11 de Abril de 1966, pelas 19 horas, na segunda-feira seguinte ao Domingo de Páscoa, ou seja, no dia da Senhora da Saúde em Bustelo.

Em Duas Igrejas a população fez um lindo tapete com flores, o qual foi percorrido pelo Padre Manuel Vitorino acompanhado pelo Prior da Amadora.

No final da missa houve o tradicional beija mão a centenas de pessoas.

O jovem sacerdote agradeceu comovidamente todos os sacrifícios que para ele foram feitos pela gente da sua terra.

No final seguiram para a Casa da Fonte, onde foi servido um lauto banquete a dezenas de convidados.



1966 a 1969, o sacerdote foi coadjutor na paróquia da Amadora.


1969 a 1984, foi pároco de Vidais e São Gregório de Fanadia, nas Caldas da Rainha.


1985 a 2007 O padre Manuel Fernandes foi também coadjutor de Benfica


2007 a 2010 Foi pároco de Cruz Quebrada-Dafundo.


Desde 13 de Julho de 2010 que era pároco do Beato, em Lisboa.




2016 - Na festa do seu jubileu sacerdotal, que assinalou os 50 anos do seu sacerdócio, a missa foi presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, em que marcaram presença os Bombeiros do Beato e os Bombeiros do Dafundo, com quem o padre Manuel Fernandes mantinha uma estreita ligação, o presidente da Junta da Freguesia do Beato sr. Hugo Xambre Pereira, marcou presença, ladeado pelos seus vogais e pelo autarca de Marvila, Belarmino Silva, assim como o seu amigo pessoal Rão Kyao, que fez ecoar o magnífico som das suas flautas de bambu pela nave da igreja num concerto intimista.
 





No dia 20 de Março de 2018, partiu para os braços do Senhor, Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes, pároco do Beato, em Lisboa, com 76 anos de idade.



Encontra-se sepultado no cemitério do Eiró em Duas Igrejas, sua terra natal.



Embora esta parte final não fizesse parte da história que nos trouxe aqui, é nosso dever lembrar todos aqueles que desinteressadamente contribuíram para o bem de todos, agora e sempre.



12 maio 2018

AO GRANDE COMANDANTE

AO GRANDE COMANDANTE
JOSÉ DE MAGALHÃES



Volta e meia, vemos espalhados pela cidade de Penafiel, antigos carros dos bombeiros, dando mais cor e beleza à urbe.



Ainda nos dias 5, 6 e 7 de Maio de 2018, a quando da IX edição dos Sabores & Flores, lá marcaram mais uma vez presença.



Como os penafidelenses e não só, já devem ter reparado, há uma viatura pertencente à Corporação dos Bombeiros Voluntários de Entre-os-Rios, que marca sempre presença, e onde se pode ler Comandante José Magalhães.

Ora, José de Magalhães, foi o primeiro comandante da Corporação dos Bombeiros Voluntários de Entre-os-Rios, fundada a 16 de Junho de 1923.

Nasceu na cidade do Porto, no dia 8 de Outubro de 1901, na Rua Heróis de Chaves.

Junto à casa onde nasceu, havia um quartel de Bombeiros Municipais, e daí, da convivência com os praças, veio-lhe o grande amor que tinha às bombas.

Graças ao seu esforço e dedicação à causa dos bombeiros, organizou e fundou a Corporação de Bombeiros de Entre-os-Rios.


Adquiriu o primeiro Pronto de Socorro, um bom carro, e afora isto, subsidiou larga e generosamente a Corporação.

Pelas 17 horas do dia 19 de Abril de 1928, na estrada que une Penafiel a Entre-os-Rios, na altura da Ponte Nova, devido a uma derrapagem, o ilustre Comandante dos Bombeiros Voluntários de Entre-os-Rios, sr. José de Magalhães, foi cuspido do automóvel que conduzia, a grande distância, sofrendo graves lesões internas, pelo que recolheu imediatamente ao Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel, onde veio a falecer pouco depois de ali dar entrada.

No funeral do Comandante José de Magalhães, que se realizou no sábado, dia 21 de Abril de 1928, fizeram-se representar todas as Corporações dos Bombeiros do Norte.

Esta é a minha singela homenagem a este Grande Benemérito e Comandante que foi José de Magalhães.

03 maio 2018

COISAS EM VIAS DE EXTINÇÃO

COISAS EM VIAS DE EXTINÇÃO



Quando entrei no mundo do trabalho, os empregados eram conhecidos pelo seu nome e quanto muito adicionavam-lhe algum apelido familiar, da terra ou outra coisa qualquer.

Para além do local de trabalho convivíamos nos cafés, íamos à bola, festejávamos anos, fazíamos excursões, etc..

Com o decorrer do tempo, dei por mim a passar de empregado a colaborador, e em vez do nome passei a ser um número.

Deixei de ter rosto e passei a ser um algarismo e como tal podendo ser subtraído a qualquer momento, embora sempre a vestir a camisola da empresa, mas por mais que eu me esforçasse, o certo e sabido é que já não tinha alma nem nome próprio.

É neste contexto que o mundo gira, tornando-se cada vez mais difícil criar amizades no local de trabalho como antigamente.



Reparem bem nesta homenagem prestada ao ilustre chefe da estação da CP de Novelas – Penafiel, Sr. Amadeu Alves da Silva, no dia 22 de Janeiro de 1935.

Em virtude de ontem (segunda-feira, 21 de Janeiro de 1935), o sr. Amadeu Alves da Silva, ter deixado de chefiar a estação ferroviária desta cidade, por ter de seguir no dia 23 para Lisboa a fim de fazer provas para inspector de fiscalização, foi-lhe oferecido na tarde de terça feira dia 22, pelos funcionários da estação, um artístico relógio de mesa e um tinteiro de prata seguido de um porto de honra ao qual assistiram não só todos os funcionários da estação como grande número de pessoas de Novelas e serviu para o fiel Monteiro, num burilado discurso, pôr em foco as altas qualidades do Sr. Amadeu Alves da Silva, quer como homem quer como funcionário honesto, zeloso, correcto e inteligente.

O homenageado agradeceu visivelmente comovido e afirmou a todos os seus antigos subordinados a sua grande estima e amizade, pois neles sempre encontrara a maior lealdade e os mais activos e inteligentes cooperadores durante os oito anos que chefiou a estação de Penafiel, despedindo-se de todos com a maior saudade. 

 

Se o sonho comanda a vida e o mundo pula e avança como diz o poeta, com estas coisas em vias de extinção, facilmente podemos concluir que nem sempre pula e avança para o lado certo da vida.

28 abril 2018

SPORT CAMPEÃO REGIONAL

O SPORT CLUB DE PENAFIEL
NO CAMPEONATO DE PROMOÇÃO




No tempo do arroz de quinze, em que o futebol era um desporto que se jogava com amor à camisola do clube e o povo vibrava e aplaudia a sua equipa, enchendo os campos da bola, ao contrário dos dias de hoje na nossa terra, o Sport Club de Penafiel sagrava-se campeão regional, no ano de 1931.

Reparem bem que a equipa era formada por rapaziada cá do burgo, fazendo parte: Augusto Silva, Manuel Rodrigues, Gervásio Coelho, Altino Dias, A. Vieira, A. Pinto (Suplente), António Nunes, José Lopes, José Maria Guedes, António Reis, Pedro Couto e Bernardino Oliveira (capitão).

Depois desta façanha, era preciso ir à cidade do Porto, disputar o Campeonato da Promoção.

Acontece que o Sport não tinha verbas para suportar a deslocação à cidade Invicta, mas o engenho e arte destas gentes de então, resolveu a questão socorrendo-se do Cine Parque, que projectava cinema ao ar livre na antiga Praça do Mercado.

Assim, pela cidade apelava-se em cartazes para todos irem ver o filme “A Ilha do Amor”, cujo produto dessa sessão destinava-se a custear as despesas feitas e a fazer com o deslocamento ao Porto da equipa do Sport em disputa para o Campeonato de Promoção.



Nestes seis jogos que disputou, o Sport Club de Penafiel, ganhou quatro, empatou um e perdeu outro, fazendo 19 golos e sofrendo 10.

O desfecho dos jogos foi o seguinte:

Sport Club de Penafiel 6 - 0 Club Desportivo de Portugal

Sport Club de Penafiel 3 – 1 Varzim

Sport Club de Penafiel 2 – 4 Luso Atlético Club

Sport Club de Penafiel 2 – 1 Padroense

Sport Club de Penafiel 4 – 2 Magestic

Sport Club de Penafiel 2 – 2 Avintes


Ficando no final a seguinte Classificação:

1.º – Luso Atlético Club

2.º – Spor Club de Penafiel

3.º – Varzim

4.º – Avintes

5.º – Club Desportivo de Portugal

6.º – Padroense

7.º - Magestic




No final do mesmo, Bernardino, o guarda redes do Sport foi abordado pelo Académico Futebol Clube do Porto para ir jogar para o Estádio do Lima, o qual ainda cheguei a conhecer.



Acontece que o amor à camisola rubro negra falou mais alto, e no fundo do coração, não podia deixar o Sport do tio Nogueira.

Este era um mundo desportivo, onde não entravam toupeiras, nem era atrapalhado por emails, os jogadores não eram meninos mimados, e os árbitros nunca usaram apitos dourados.



18 abril 2018

NOSSA SENHORA DO AMPARO

PROCISSÃO EM HONRA DE

NOSSA SENHORA DO AMPARO



Em tempos do antigamente, ainda o Largo da Misericórdia (hoje Largo Padre Américo) era em terra batida, já Nossa Senhora do Amparo, da sua janela me via passar para a missa das 11h, celebrada pelo Sr. Reitor.



Engraçado, que só me lembra de ter visto uma única vez, a Senhora do Amparo, descer do seu trono e ser levada aos ombros pelos homens em cima de um florido andor em procissão, até à Igreja dos Capuchos no dia 13 de Junho de 1963.



Acontece que em reunião extraordinária da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel, datada de 4 de Maio de 1963, foi deliberado colaborar de forma activa nas Festas do Corpo de Deus de Penafiel, das quais é organizador um dos Membros da Mesa, o Sr. Manuel Afonso.

O Provedor Professor Doutor Sousa Pereira, propôs que se efectue na manhã do dia 13 uma modesta mas significativa cerimónia religiosa, para que os doentes internados no Hospital da Misericórdia de Penafiel, que não pudessem nesse dia tomar parte activa nas Festas da Cidade, a Mesa da Santa Casa na companhia dos Irmãos, Corpo Clínico, Irmãs, e todos que se dignem dar-lhes a honra de os acompanhar, levareis a Padroeira da Misericórdia de Penafiel, Nossa Senhora do Amparo, em romagem à Igreja doa Capuchos anexa ao Hospital da Santa Casa onde se reunirão os doentes para a receberem.

Assim, pelas 9 horas, enquanto as bandas de músicas de Lagares, Rio de Moinhos, Rio Mau e Paço de Sousa percorriam as ruas da cidade de Penafiel, na Igreja da Misericórdia celebrava missa o Ex.mo e Rev.mo D. Gabriel de Sousa, Abade de Singeverga, em Acção de Graças por todos os amigos, benfeitores e colaboradores da Santa Casa da Misericórdia. 

 

Na capela-mor, nos antigos cadeirões sentaram-se os senhores Presidente da Câmara, Coronel Cipriano Fontes, o Comandante do R.A.L. 5, Coronel Ferreira, o Governador Civil do Distrito do Porto, Engenheiro João de Brito e Cunha, o Cônsul do Brasil no Porto, Dr. Navarro da Costa, o Director da Faculdade de Medicina do Porto, Dr. Gonçalves de Azevedo, o Provedor da Misericórdia do Porto, Dr. João Rodrigues, O Provedor do Hospital do S. João do Porto, Dr. Álvaro Rodrigues, Dr. Frazão Nazareth, Dr. Hernâni Monteiro, o Presidente da União Nacional, Dr. António Pedro Pinto de Mesquita, e os deputados Dr.s Simeão Pinto de Mesquita, Alberto Meireles Melo Adrião, Elísio Pimenta e Santos Cunha. 

 

Na tribuna, situada na lateral ao fundo da igreja o Provedor Professor Doutor Sousa Pereira, o Director Clínico do Hospital, Dr. Joaquim da Rocha Reis, o antigo Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel, Roberto Guedes e alguns mesários.

Foto cedida por Sérgio Dias



Os restantes médicos do hospital, os irmãos e outros convidados situavam-se logo a seguir ao arco da capela-mor.



À homilia, o Abade de Singeverga pronunciou uma oração alusiva a esta significativa homenagem. 

 

A vasta igreja estava repleta e as diversas representações da cidade e concelho davam ao acto um aspecto solene deveras admirável.



No final da missa, saiu em procissão a imagem da Padroeira da Santa Casa da Misericórdia, Nossa Senhora do Amparo, rumo à Igreja dos Capuchos, que fica colada ao antigo Hospital da Santa Casa da Misericórdia, onde se encontravam alguns doentes para receberem a Padroeira, a qual ficou exposta à devoção dos fiéis durante todo o dia.

Foto de Sérgio Dias

Seguidamente no Salão Nobre do Hospital, teve lugar uma homenagem a todos os amigos, benfeitores e colaboradores do Hospital, com descerramento do retrato a óleo do último Provedor Sr. Roberto Guedes.




Falou em primeiro lugar o Provedor Prof. Dr. Sousa Pereira, que saudou as autoridades e as pessoas que se tinham ali deslocado do Porto e de Lisboa para se associarem a esta singela mas significativa festa no hospital. Tal atitude constitui como um incentivo para os que trabalham nesta casa. Apelou aos médicos do hospital no sentido duma cada vez maior humanização cristã da sua actuação perante a tendência de utilização em excesso dos meios mecânicos que a medicina proporciona. Saudou por fim, o homenageado, Sr. Roberto Guedes, de quem enalteceu as qualidades de devoção à causa dos que sofrem e necessitam de auxílio.

Brito e Cunha Governador Civil do Porto


Falou a seguir, o Sr. Governador Civil, Sr. Eng.º Brito e Cunha, que começou por felicitar a Mesa da Santa Casa, pela ideia de prestar homenagem ao antigo Provedor sr. Roberto Guedes, enaltecendo o homenageado reconhecendo a extraordinária dedicação à sua terra.



Por fim o homenageado agradeceu as palavras do Sr. Governador Civil e desejou que o mandato do Professor Dr. António de Sousa Pereira passasse depressa, que era para ser reeleito de novo, e para que, nessa altura, o seu retrato fosse descerrado também naquela sala.

Professor Dr. António de Sousa Pereira

Aos convidados foi oferecido pelas 12,30 horas, um almoço volante na Casa de Segade, propriedade do Sr. Professor Doutor António de Sousa Pereira, reitor da Universidade do Porto, desde Setembro de 1969 deixando o cargo por limite de idade a 14 de Abril de 1974.