14 março 2019

O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

NA IGREJA DAS FREIRAS



No dia 20 de Junho de 1881, foi distribuído na cidade de Penafiel e publicado nos jornais da terra, um panfleto, com o seguinte teor:

Festividade do Sagrado Coração de Jesus

Os abaixo assinados, tendo resolvido inaugurar nesta cidade na igreja da arquiconfraria do Santíssimo Coração de Maria, o culto de uma nova imagem do Sagrado Coração de Jesus com grande solenidade no dia 24 de Junho de 1881, em que haverá bênção solene da Imagem e em seguida missa solene com o Santíssimo Sacramento exposto, e de tarde Te-Deum e procissão, tendo havido nos três dias anteriores um Triudo de orações, preces e cânticos, a desejando dar a este acto o maior esplendor, pedem e rogam a todos os habitantes desta cidade para iluminarem as suas casas na noite do referido dia 24, em que a frontaria da referida igreja estará também iluminada.

Penafiel, 20 de Junho de 1881

Padre António Ferreira de Souza
Padre António Luíz de Magalhães
Miguel de Souza Vinhós 

 

Os directores da devota associação da Guarda de Honra ao Sagrado Coração de Jesus, canonicamente estabelecida na Igreja do Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, vulgarmente chamada de Igreja das Freiras, para excitar e estender mais entre os fieis, a devoção e o culto ao mesmo Coração de Jesus, mandaram esculturar na cidade de Braga uma imagem para expor à veneração pública, e resolveram fazê-la benzer solenemente e dedicar-lhe uma soleníssima festividade no dia 24 de Junho de 1881, procedida de um Triduo e seguida de Te-Deum e de uma procissão, com a referida Sagrada Imagem pelas ruas da cidade, fazendo nesse dia uma consagração pública e solene da cidade ao Sagrado Coração de Jesus. 

 

Tem-se trabalhado há vários dias no adorno interno e externo da Igreja. Os negociantes da Rua Formosa (hoje Av. Egas Moniz e Av. Sacadura Cabral), vizinhos da igreja, encarregaram-se do adorno externo e da iluminação da fachada e torre da Igreja, e foram incansáveis para que tudo corresponda à grande solenidade.


Começou na terça-feira o Triudo com o Santíssimo Sacramento exposto, que se iniciava ás 16 horas, havendo sempre sermão pelo reverendo Bernardino de Mendonça, de Romariz. É de realçar, que a afluência de fiéis ao templo durante estes três dias, foi sempre muito elevada. 

 

Na sexta-feira dia 24, as cerimónias religiosas foram presididas pelo cónego da Sé do Porto Alves Mendes, que foi orador tanto da parte de manhã como de tarde.

O padre de seu nome completo, António Alves Mendes da Silva Ribeiro, era um pregador sobejamente conhecido pela elevação dos seus discursos e fascinação do seu estilo. A sua fama de orador sagrado firmou-se principalmente desde que, em Lisboa pronunciou a oração fúnebre de Alexandre Herculano, por ocasião da transladação dos restos mortais do grande historiador para os Jerónimos. Uma das suas orações mais notáveis foi pronunciada no Mosteiro da Batalha, quando para ali se fez a transladação dos restos mortais do príncipe de Avis.
Como escritor e orador sagrado, Alves Mendes foi um burilador de frases e um joalheiro de linguagem.

Efectivamente, ás 11 horas do dia 24, teve lugar a bênção solene da imagem, seguindo-se a exposição do Santíssimo Sacramento e missa cantada, e acompanhada pela capela do Sr. Albano de Vila Boa de Quires, e que tomou parte, como cantora sua sobrinha.

Na ocasião competente, estando presentes os senhores, Rodrigo Telles de Menezes, administrador do concelho, Dr. Coriolano de Freitas Beça, Presidente da Câmara, o Juiz do Distrito, representante da força militar do RI 6, presidente da Junta da Paróquia, Juiz da Paz e representantes das diversas confrarias, subiu ao púlpito o excelentíssimo cónego Alves Mendes, e todas as pessoas que pejavam o templo, convergiram para a tribuna sagrada, aguardando ansiosas a autorizada palavra deste orador.

Concluído o sermão e a missa, subiu ao púlpito o nosso conterrâneo o reverendo Padre António Ferreira de Sousa, principal promotor desta festividade, e leu um pretexto da Fé e dedicação à imagem do Coração de Jesus, consagrado a esta cidade.

Também foi lida a acta em que se expunham os considerandos da consagração. Esta acta foi assinada pelo Administrador do Concelho Dr. Rodrigo Telles de Menezes, Presidente da Câmara Dr. Coriolano de Freitas Beça, Juiz de Direito, Juízes das Confrarias e Clérigos presentes.



Pelas 18 horas, saiu da Igreja do Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, a procissão, com a imagem do Sagrado Coração de Jesus, sendo prelector da nova imagem o Sr. Padre António Ferreira de Souza, acompanhada por diversas confrarias, pela banda do Regimento de Infantaria N.º 6 e 60 praças do mesmo regimento e pela banda de música do Sr. Albano. Levava 12 anjinhos, primorosamente vestidos, percorrendo o seguinte itinerário: 

Antigo Largo das Chãs, actual Praça do Município
 
Rua Formosa (hoje Av. Sacadura Cabral e Av. Egas Moniz), Largo das Chãs (actual Praça do Município), Rua Nova (agora Rua Joaquim Cotta), Largo da Ajuda, Subindo e descendo a Rua Cimo de Vila (que tem actualmente o nome de Rua Alfredo Pereira), Rua Direita, Subindo a Rua do Poço (agora Rua do Sacramento), Rua da Piedade de Baixo (hoje Rua do Bom Retiro), Rua do Recolhimento ou Rampa das Freiras como também era conhecida (agora Rua Conde Ferreira), recolhendo a procissão no templo de onde tinha saído, vulgarmente chamado pelo nossa povo de Igreja das Freiras.

Av. Sacadura Cabral antiga Rua Formosa


À noite esteve iluminada toda a cidade, o frontispício e torre da igreja de Nossa Senhora da Conceição, e área circunvizinha, onde tocaram aquelas duas bandas de música.



À meia-noite houve foguetório, terminando esta festa com um leilão de prendas, que durou até há uma hora da madrugada.

Nunca é de mais lembrar que foram incansáveis os promotores desta festa, os directores da Guarda de Honra ao Sagrado Coração de Jesus, os srs. Padre António Ferreira de Souza, Padre António Luíz de Magalhães e Miguel de Souza Vinhós 

 

E pronto, ficamos a saber que foi no dia de S. João, no ano remoto de 1881, que Penafiel recebeu a imagem do Sagrado Coração de Jesus, que ainda hoje pode ser vista e venerada, na Igreja do Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, vulgarmente chamada pelos penafidelenses por Igreja das Freiras.

26 fevereiro 2019

AFONSO COSTA EM PENAFIEL

AFONSO COSTA EM PENAFIEL



Já se começam a ouvir os motores das máquinas partidárias, para percorrer o país nesta maratona eleitoral que se aproxima.

Já estou vacinado para não acreditar nas suas promessas eleitorais, de termos bacalhau a pataco e o céu na Terra, para nos conquistarem o voto.

Sempre que há eleições, para além de tudo isso, os penafidelenses ainda têm como “prato do dia” a IC35, que em vez de se transformar numa reivindicação sentida por todos, tornou-se em arremesso político partidário, este ano até com direito a uma manifestação “espontânea”, como se a gente nascesse ontem e acreditasse naquela encenação, com direito a cartazes e cruzes plantadas na EN 106.

Mas nem sempre foi assim.

Tempos houveram que cada partido tinham a sua ideologia, debatiam os seus ideais, e a política era uma acção nobre. Infelizmente nos tempos que correm tudo isto é a excepção, e a maioria serve-se em vez de servir o país.



Hoje vou falar da vinda a Penafiel de um grande estadista e chefe do Partido Republicano Português, de seu nome Afonso Augusto da Costa, mais conhecido por Dr. Afonso Costa.

Assim, na quinta-feira, de 6 de Maio de 1915, Afonso Costa foi alvo de uma ovação sincera a quando da sua chegada a Penafiel, por parte dos seus amigos e correlegionários deste concelho, demonstrando que a sua orientação política ia conquistando novas simpatias e a sua fé republicana conferindo crescentes demonstrações de regozijo.


Das dez horas em diante várias pessoas começaram a afluir ao Centro Democrático, situado na Praça Municipal, vendo-se também, nas suas proximidades, diversos agrupamentos. Uma banda de música estacionada defronte do edifício, aguardando a sua vinda. Seriam pouco mais de doze horas, quando o eminente parlamentar Dr. Afonso Costa, chegou a esta cidade, acompanhado dos seguintes senhores:

Dr. António Tudela, seu secretário particular, Dr. Souza Júnior, ex-ministro da Instrução Pública, Dr. Pereira Osório, Dr. Leão de Meireles, senador, José Lelo, antigo governador civil, Elísio de Melo, vereador da câmara, Francisco Luiz Peixoto, membro da Junta Geral do Distrito, Francisco António Borges, da casa bancária Borges & Irmão, Manoel Pinto de Azevedo, Manoel Valente, Manoel Neto de Freitas e Vasconcelos, António Costa, Dr. Alberto Cruz, Ernesto Canavarro e António Augusto de Almeida.

Ao aproximar-se da sede do Centro, o entusiasmo parecia tocar as raias do delírio e o contentamento fazia insuflar, com mais força, no espírito de todos os circunstantes, aquele ardor, aquela crença inabalável, aquela firmeza de princípios que servem de pedestal indestrutível ao Partido Republicano Português.

Os vivas contínuos, as saudações constantes a Sua Excelência, perdiam-se no meio de uma agitação febril, duma ânsia extraordinária.

Deixando o automóvel e, depois de haver cumprimentado os seus amigos, entrou no Centro Democrático que estava repleto de gente e onde o Sr, Dr. Joaquim Peixoto num breve, mas eloquente e patriótico discurso, lhe apresentou em nome do Centro Democrático os cumprimentos mais afetuosos e os agradecimentos mais sinceros pela sua estimada e valorosa visita. 

 
Depois de nova aclamação toma a palavra o Sr. Dr. Afonso Costa. Afirma naquela linguagem cativante e ao mesmo tempo sublime que não podia deixar, embora precipitadamente, de abraçar os seus correligionários de Penafiel, nesta hora tão amarga para a República.

Folgo imenso em ver a solidariedade que os estreita, a fé que os arrebata, a esperança que os anima.

Referindo-se, depois, com verdadeiros rasgos demosténicos, ás próximas eleições manifesta o propósito reconhecido, a ideia vingadora de que está possuído o ditador Pimenta de Castro para, nessa ocasião e com decretos anti-constitucionais, ferir o seu partido, diminuir a sua força. Alargando-se em várias considerações relativas ao sufrágio, acentua a necessidade de todos os republicanos, irem à urna. Mais do que nunca é, agora, indispensável o cumprimento desse dever. O seu discurso, de que, apenas, foi por várias vezes, interrompido com apoiados, obtendo no final uma aclamação estrondosa.

Hotel Avenida onde hoje funciona o Banco Millenium

Em seguida dirigiu-se o Sr. Dr. Afonso Costa para o Hotel Avenida, em companhia de grande número de partidários, que lhe ofereceram um magnífico e variado almoço a que assistiram, além das pessoas que acompanhavam o ilustre estadista, muitas outras desta cidade e concelho. Quando entrou na sala o capitão médico, Sr. Dr. António Guedes Pereira, foi-lhe feita uma manifestação imponente.

Levantou, em primeiro lugar, a sua taça de champanhe o nosso bom amigo Sr. Dr. Joaquim Cotta, espraiando-se por largo tempo e com todo o brilho literário, em observações categóricas com argumentos seguros sobre a vitalidade do Partido Democrático, conseguindo mostrar, claramente, que a vida desse partido é a vida da República, é a alavanca poderosa, o sustentáculo prodigioso das nossas instituições. Termina, saudando o Sr. Dr. Afonso Costa e pedindo a todos os seus amigos que, com o seu brinde terminassem todas as saudações, em virtude de Sua Excelência se não poder demorar. Grandes aplausos.

O Dr. Afonso Costa agradece as referências feitas à sua pessoa e passa, depois, a falar sobre a guerra europeia, frisando o nosso dever a cumprir para com a Inglaterra.

Exalta, com buriladas frases, o patriotismo da Bélgica e as ideias liberais da França. Condena asperamente o procedimento deste governo, asseverando ser germanofilo e, por conseguinte, admirador dessa nação odiada por quase toda a raça latina, a Alemanha.

Conclui agradecendo todas as demonstrações de simpatia que acabaria de receber.

Em triunfo, no meio das mais vivas aclamações, despediu-se do povo de Penafiel, seguindo para o vizinho concelho de Lousada.

Afonso Costa assina a Lei da Separação do Estado das Igrejas.

Foi um político muito activo e polémico, e como tal, amado por uns e odiado por outros, sendo de realçar entre outras coisas, o esforço empreendido por Afonso Costa pela laicização do Estado durante a Primeira República, dando origem à aprovação da Lei da Separação do Estado das Igrejas, aprovado por decreto em 20 de Abril de 1911. Como resposta, a Santa Sé corta relações diplomáticas com Portugal.


Também representou o governo português na Assinatura da Paz na Sala dos Espelhos, Versalhes, no dia 28 de Junho de 1919. Afonso Costa é um dos políticos retratados (de pé, segundo à esquerda).

Se por uns era apoiado, por outros era odiado, e dois penafidelenses tomaram-se de razões, não se ficando pela retórica, mas acabando a mesma aos tiros. Aconteceu, que no dia 16 de Maio de 1915, cerca das 14 horas, o estimado republicano Sr. José Aires Gomes, foi agredido com dois tiros de revolver por Américo Pinheiro de Moraes, indivíduo que em Penafiel era tido e havido pelo que vale.

O agressor insultava os republicanos de Penafiel e provocou o agredido, que, preparando-se para repelir os insultos recebidos, foi alvejado pelo Moraes.

Tendo José Aires Gomes, sido levado e assistido no hospital, verificou-se que felizmente os ferimentos não foram de extrema gravidade, ao mesmo tempo que o agressor Américo Moraes dava entrada na cadeia da comarca.

Ainda bem que não fez escola toda esta agressividade política, mas em contra partida, está tão desacreditada, que muitos nem sequer gastam as solas dos sapatos para depositarem o seu voto.


É que ser enganado tantas vezes também cansa … Porra!

01 fevereiro 2019

AINDA O BAILE DOS PRETOS

AINDA O BAILE DOS PRETOS

Na Rua do Paço em Penafiel


Este baile ou dança como lhe queiram chamar, foi trazido pelos portugueses que regressaram do Brasil, e trouxeram consigo resquícios da cultura brasileira, espalhando-a pelo país, fazendo deles involuntariamente, agentes culturais.

O Baile dos Pretos, que se sabe ter sido característica em Maceió, no estado de Alagoas, e em vários locais da Amazónia brasileira, nomeadamente em Manaus, é um desses exemplos.

Esta manifestação popular foi introduzida em vários pontos do país, como: Moncorvo; Carviçais; Arcozelo da Serra, na diocese da Guarda; Açores; Leomil; Cabaços no concelho de Moimenta da Beira e como não podia deixar de ser, em Penafiel, adaptando-a cada terra à sua maneira.


Os Pretos tentam impedir escalador de subir ao mastro


A manifestação etno-folclórica na Amazónia Brasileira, mais propriamente no Baixo Tapajós, região estudada por Emilie Stoll, era designada de “brincadeira dos pretos”.

Acontecia, e ainda acontece, bem cedo, por volta das 7 ou 8 horas do último dia da novena (um domingo), no processo designado de derrubada do mastro, encerrando as festividades religiosas de Nossa Senhora de Fátima.

Não foi por acaso que a data escolhida fosse 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, dia comemorativo da abolição da escravatura no Brasil.


Numa casa ao abrigo de olhares indiscretos, mulheres preparavam seis homens (quatro adultos e duas crianças) em seus trajes e maquilhagem de cena: vestiam-lhes uns trapos velhos e pintavam todas as partes visíveis dos seus corpos de preto. Prontos, os Pretos davam a imagem de uma família composta por três pares ou casais de faixas etárias diferentes (infância, adolescência e idade adulta). As três personagens femininas eram representadas por homens. O “pai” dos Pretos tinha duas ferramentas: um machado (para a derrubada final do mastro) e um instrumento de medida (pesos). A “mãe” exibia uma barriga grande de fim de gravidez. A “menina” carregava uma cestinha. Além desses acessórios, cada um dos Pretos estava armado de um galho encharcado de tinta preta, que se destinava à parte mais interativa do ritual: os Pretos perseguiam os espectadores tentando sujá-los. 

Ao som da música, os Pretos dirigiam-se então, em procissão, ao mastro, de maneira desajeitada (pernas bambas, arcadas, braços balançando), provocando a gargalhada dos moradores. Encenavam um terror visivelmente exagerado atirando-se ao chão como animais acuados. Atrás deles, os foliões que participavam na festa, não trajados, cantavam e tocavam. O ambiente que se pretendia, com sucesso, era o de balbúrdia e confusão.

Já perto da igreja, os Pretos tentavam acertar com o galho em quem se aproximava. A euforia eclodia no ar e os espectadores entravam no jogo carnavalesco de provocação. 
 

Entretanto, uma disputa acontecia. Um elemento do público tentava subir ao mastro, ao passo que os Pretos se posicionavam para o impedir de apanhar as frutas (em regra bananas e abacaxis). Ao conseguir apanhá-las lançava-as ao público entre muitas risadas. Enquanto isso, fora do centro das atenções, o “pai” dos Pretos embrenhava-se noutra cena. Deitado no chão, amarrava um barbante entre os dedos do pé, estendia a perna e na outra ponta do barbante, o peso pendia, esticando o barbante ao longo da sua perna. Fazia que tirava a medida.

Os espectadores pareciam muito absorvidos na distribuição das frutas do mastro mas conheciam bem a sequência do ritual, apercebendo-se que as cenas se realizavam simultaneamente. Sucedia-se depois o momento em que a “mãe” dos Pretos começava a ter as dores do parto. Deitada ao pé do mastro, encenava então o nascimento de um bebé, colocado posteriormente na cestinha da “menina”, que ficaria responsável por guardá-lo. 

 
Homens do público procurariam raptar o recém-nascido ou, noutras versões, raptar a própria “menina” com a cestinha. Nessa ocasião já as frutas tinham sido distribuídas e o rapaz tinha chegado ao topo do mastro lançando mão da garrafa de cachaça e da bandeira da santa.

Após descer derrubava-se o mastro. O juiz empunhava a bandeira e os mordomos davam golpes de machado ao mastro até o arriar. Estes cargos eram rotativos, e anualmente distribuídos nesta ocasião, no decurso do ritual. Cantava-se então, ao mesmo tempo que se varria o chão em torno do mastro. Já derrubado, o tronco era transportado pelos Pretos e juntamente pelo jovem que o escalara, até um barracão.


Em cima dele ia sentada a menina. Era então que acontecia a “dança dos Pretos”, também chamada “forró dos Pretos”. Os três casais de homens dançavam, diante dos outros moradores, balançando ao ritmo da melodia.

Toda esta teatralização do ritual, com riso, sátira, deboche, durava cerca de uma hora. A alegoria da fertilidade, a sátira burlesca da condição social e étnica dos pretos, e a encenação da relação de indiferença, cooperação e enfrentamento entre diferentes etnias, estava presente.


Já em Moncorvo a dança dos pretos era realizada no dia de Reis (ou véspera), e era composta por vários indivíduos de cara pintada de preto, e que andavam pelas ruas da vila, tocando e dançando, pedindo para o Deus Menino. Era a "dança dos pretos", que teve lugar pela última vez, em Moncorvo, no ano de 1935, conforme regista o Professor Santos Júnior, que a estudou e que, inclusivamente, a promoveu, em 1930. Por esta altura (anos 30), a dança já estava algo decadente, ou seja, não se realizava todos os anos.

É nossa convicção que originalmente devia ter sido executada mesmo por negros e que, depois, à falta destes, fossem sendo substituídos por brancos com a cara enfarruscada. Ora sabemos que, antes da independência do Brasil, houve bastantes negros que foram trazidos para Portugal, mesmo para terras tão remotas como Moncorvo, por funcionários da administração colonial, nobres ou ricos mercadores. Seria comum as casas ricas possuírem escravos ou criados africanos, que normalmente viriam por via do Brasil, tal como se mostrou num excelente documentário produzido pela RTP, com realização de Anabela de Saint-Maurice, em que se foca bem o caso de Moncorvo e da sua Dança dos Pretos. Esta dança era aqui promovida pela confraria de Senhora do Rosário, que, à semelhança do que se passava em Lisboa, Porto, Brasil ou Cabo Verde, e eventualmente em outras partes do império português, tinha por missão o enquadramento religioso dos "homens pretos".
Ainda quanto à "Dança dos Pretos" no nosso concelho, diz Santos Júnior (in
"Coreografia Popular Transmontana", obra publicada em parceria com o Padre Mourinho e editada pela Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, em 1980, págs. 18 e seguintes) que também se realizava em Carviçais, onde apurou que se tinha efectuado nos anos de 1881, 1896, 1909 e 1935. É de supor que a dança de Carviçais fosse já uma imitação da de Moncorvo, vila onde poderia radicar no séc. XVIII, época em tal dança (em geral) teria sido criada, pois como afirma Santos Júnior, a sua "coreografia enquadra-se nas danças de composição paralela ou de coluna, muito do gosto dos séculos XVII e XVIII, que proliferaram por toda a parte, principalmente nas confrarias de mesteirais..."

O facto de se realizar em Torre de Moncorvo, salienta o precoce carácter urbano da nossa vila, pois só uma estrutura económica e social diversificada (não exclusivamente rural), justificaria esta multi etnicidade, a que não é alheia a forte ligação que desde o séc. XVIII haveria com o Brasil e, certamente, com África, uma vez passado o ciclo do Oriente.

Interrogando-nos ainda sobre o porquê da realização da referida dança nesta data, julgamos poder encontrar justificação no facto de um dos reis magos ser negro - o S. Baltazar - além de os restantes serem cada qual de sua nação. Ou seja, não há data mais apropriada para salientar o ecumenismo da religião católica, em que todos os povos da Terra deveriam vir adorar o Menino-Deus nascido em Belém.

Aqui ficam algumas quadras da Dança dos Pretos de Moncorvo (recolhidas por Santos Júnior):


Boas novas moncorvenses
Dar a vós os preta (sic) vem;
Que nasceu o Redentor
que nasceu o Redentor.

Belém terra de Judá
Onde o Redentor nasceu
Sua Mãe imaculada
Que tormentos padeceu.

Eu não posso compreender
Que Jesus , tão santo e nobre,
Tivesse o seu nascimento
Num lugar assim tão pobre!





Dito isto, e para terminar que a conversa já vai longa, parece-me que se devia mudar a versalhada exibida pelo Baile dos Pretos em Penafiel, devido ao seu teor racista contido na mesma como: Trabalhai pretos cachorros e outros “mimos” que por lá são cantados, embora a sua dança seja muito bem conseguida, entrelaçando as fitas no mastro, construindo uma trança multi-colorida. 
 
Este baile é exibido em Penafiel, nas ruas da cidade no dia do Corpo de Deus.


Posto isto, e como o racismo anda aí na berlinda de novo, para rematar, só queria dizer o seguinte:

Agora que temos a Jamaica aqui tão perto, e teve que vir um africano feito qual “Vasco da Gama”, avençado pelos Betinhos da Esquina, dizer-nos que aqui havia racismo, como se isso fosse algo que já não se soubesse há muito tempo.

O que ele não sabe, é que nós sabemos, que no país dele não podemos chamar bosta à bófia, sem sofrermos danos colaterais.

Apesar de tudo, nós sabemos que eles gostam mais de viverem cá que nos países deles.

- Eles lá sabem porquê!... E nós também!

23 janeiro 2019

MUSEU SOBRAL MENDES

MUSEU MUNICIPAL DE PENAFIEL
TEM OU TINHA O NOME DE
SOBRAL MENDES



Na reunião de Câmara do dia 17 de Abril de 1948, estando presente o SR. Presidente Afonso Henrique de Sobral Mendes,o Vice-presidente, o Tenente António de Carvalho Sampaio e os vereadores os Srs. Dr. Adriano Pinto Lopes, José Adelino Carneiro Geraldes de Noronha e Menezes, António Pinto Lopes de Amorim e Manuel Barbosa Rodrigues Moreira.

A proposta apresentada pelo Sr. Presidente da Câmara e aprovada por unanimidade, para a criação do Museu Municipal de Penafiel, dizia o seguinte:

Proposta
Atendendo a que considero da máxima utilidade a existência junto da Biblioteca de um museu de arte, arqueologia e etnografia, venho propor para que a Comissão Municipal de Cultura, seja autorizada a proceder à sua criação.

Consultando a Acta da reunião da Comissão Municipal da Cultura, realizada no dia 30 de Março de 1949, verifiquei que o secretário da mesma Abílio Pinto Soares de Miranda propôs o nome de Sobral Mendes para o Museu, o que foi aceite por unanimidade. 

Abílio Miranda no Museu Sobral Mendes


A intervenção de Abílio Miranda é tão importante para os penafidelenses compreenderem como vieram parar as peças por ele coleccionadas ao nosso museu, que não resisti em publicá-la.

Vejamos:

Aos 30 dias do mês de Março de 1949, sob a presidência da Ex.ma Senhora D. Maria Luísa Sobral Mendes de Araújo, estando presentes todos os seus membros excepto o Ex.mo Senhor Presidente efectivo por se encontrar doente, reuniu na Biblioteca Pública, a Comissão Municipal de Cultura, que entrando a tratar dos assuntos que lhe são inerentes, deliberou o seguinte:

a) Autorizar o bibliotecário a contratar, com a gratificação que entender, como auxiliar dos serviços da Biblioteca, o sr. António Carlos Moreira.

b) Pelo secretário (Abílio Miranda) da referida comissão foi dito:

“Meus Ex.mos Confrades.
Desde bastante novo que trabalho para a organização de um Museu de Etnografia e História, que, estabelecido aqui, na cidade, ficaria sendo o repositório de valores a testemunhar de maneira inequívoca o nobre e venerando o passado de toda a terra de Penafiel. Para tal fim, fui arrecadando em minha casa variadas achegas, algumas de grande valor arqueológico.

Perdida a esperança da criação do museu penafidelense, principiava a inquietar-me a ideia de que à minha morte iria aniquilar tão apreciável património histórico, o que constituiria uma falta grave para o engrandecimento tradicional da terra que guardou como extremosa Mãe no seu seio, durante milénios e séculos, tão valiosos elementos da sua vida de nobre antanho.

Convidado para fazer parte, da comissão organizadora do museu Provincial de Etnografia e História, aí depositei todos os objectos que possuía e alguns mais, que, nessa ocasião, consegui obter, objectos que foram conseguidos com a máxima honestidade.

Agora, como o Ex.mo Presidente da Câmara deu início ao museu referido, por sua proposta em sessão camarária de 17 de Abril de 1948, é com grande júbilo para a minha alma de Penafidelense que ofereço ao município todos os objectos depositados em meu nome, no Museu Provincial de Etnografia e História, com sede no Porto.

Ponho, porém, a condição destes objectos só regressarem a Penafiel, quando deixar de ser director efectivo do alusivo museu da Província o Ex.mo Senhor Dr. Augusto César Pires de Lima, porque desejo, assim, prestar homenagem de respeito ao inteligente esforço deste querido amigo e companheiro de trabalho no arroteamento da história da Sagrada Vinha Pátria!

No meio em que a nossa terra assenta na região mais rica das acções do passado ancestral, com a boa vontade da nossa Comissão e de todos os Penafidelenses, depressa tomará apreciável vulto o nosso museu, de modo a honrar o concelho e o município que o criou e que continuará como uma necessidade perdurável.” 

 
c) Pelo mesmo secretário foi proposto que o museu criado por deliberação camarária de 17 de Abril de 1948 ficasse a chamar-se “Museu Sobral Mendes”, proposta esta entusiasticamente aprovada por unanimidade.

d) O referido secretário propôs ainda o seguinte:

Atendendo à necessidade que há de um nosso representante perante o município, que seja nomeado Presidente desta Comissão Municipal de Cultura, o Ex.mo Senhor Dr. Francisco da Silva Mendes, nosso inteligente e valioso confrade, enquanto durar o impedimento do respectivo Presidente titular, o Ex-mo Senhor Dr. Pinto Lopes, o que foi igualmente aprovado por unanimidade.

Não havendo mais nada a tratar a Ex.ma Senhora Presidente deu por encerrada a sessão, e eu, Abílio Pinto Soares de Miranda, secretário da Comissão Municipal da Cultura, lavrei esta acta que também vou assinar.

(seguem-se as assinaturas)


A lista dos objectos pertença de Abílio Miranda que se encontravam à guarda no Museu Provincial de Etnografia e História, com sede no Porto.

Fotografia do antigo «Mosteiro de Paço de Sousa»
Um anel de fíbula, romano
Folheto do «Privilégio concedido aos Boticários de Portugal» (D. Afonso III)
Um exemplar da Pharmacopeia Tubalense Chimico - Ga lenica
Um anel de bronze com duas caras gravadas (romano)
Um anel de azeviche (romano)
Um estilo de bronze, (romano)
Uma estatueta romana, de bronze, de «Deus Marte»
Dois cestos de ferro (fachos)
Uma lucerna romana de barro
Fragmento de vidro de um vaso (romano)
Nove vasos romanos de diversos formatos e tamanhos
Um fragmento de vaso romano
Um vaso de barro
Cinco vasos de barro (romano)
Um fragmento de ampula (romano)
Duas ampulas de barro (romano)
Um tinteiro de terra sigilata (romano)
Um prato de terra sigilata (romano)
Duas olas de barro—uma grande com asas e a pequena com uma asa (romanas)
Um prato de barro (romano)
Fragmento de prato, romano (terra sigilata)
Urna ampula (romana)
Uma ampula
Duas regras de S. Bento, encadernadas em carneira, metidas numa saca de chita
Carta de cirurgião em pergaminho, passada a Teodoro Gonçalves, do lugar da Matança, freguesia de Mugueia, Comarca de Lamego —1791
Peso de tear procedente do •Monte Mózinho», Penafiel (romano)
Peso de tear, de barro, procedente do «Monte Mózinho• Peso de tear de barro procedente do »Monte Mózinho• (romano)
Lucerna romana com legenda, procedente do «Monte Mózinho»
Redução de peça de olaria romana, procedente do «Monte Mózinho»
Pedra trabalhada (arte castreja) procedente do «Monte Mózinho»
Pedra trabalhada (arte castreja) procedente do «Monte Mózinho»
Pedra de Gonzo trabalhada . (arte castreja) procedente do «Monte Mózinho»
Frasco de vidro romano, (mutilado) procedente do «Monte Mózinho.
Um almofariz de farmácia, de marfim, sem pisão.
Um batente (aldraba) representando um cão
Padieira castreja, procedente de Mesão Frio «Monte Mózinho.-Penafiel
Pedra com decoração castreja, procedente do «Monte Mózinho »-Penafiel
Padieira de Janela castreja, procedente do «Monte Mózinho»-Penafiel
Pedra com decoração castreja, procedente do «Monte Mózinho•-Penafiel»
Amforeta de barro, procedente da Necrópole de Mesão Frio «Monte Mózinho
Mó manual procedente de Novelas-Penafiel
Alfinete de bronze romano, procedente da Cidade Morta Anel de fibula, romano, procedente da Cidade Morta
Fibula incompleta, em bronze romana, procedente da Cidade Morta-Penafiel
Azulejo Hispano, Árabe, procedente de Santa Marta—Penafiel
Peso de pedra, romano, procedente da freguesia de Croca—Penafiel
Peso de pedra romano, procedente da freguesia de Croca Penaftel
Peso de pedra, ornamentado com diversos motivos decorativos e uma Cruz
Fíbula romana? Procedente de Penafiel (está partida)
Marco de pedra com cruz e outros sinais, procedente de Penafiel.
Um prato de barro partido e mais três fragmentos (romano) Um prato de barro partido e mais dois fragmentos (romanos)
Um prato de barro, colado no rebordo
Um prato de barro incompleto
Dois pratos de barro colados, um partido em 2 bocados e o outro 1 (romano)
Um prato de barro de irregular concavidade (Partido) (romano)
Dois pratos de barro iguais (romano)
Um vaso romano de barro, (mutilado)
Um vaso campaniforme
Um vaso de barro, pintado de negro, (tipo etrusco) mutilado
Uma ampula com grafito (romano)
Uma ampula (romana)
Um vaso de barro negro com asa (romano)
Uma ampula (romana)
Um vaso romano de barro canelado, (Mutilado)
Uma ampula, (Mutilada) (romana)
Um vaso de barro (Mutilado), (romano)
Uma ampula (romana)
Fragmento de prato (romano)
Um prato de barro (romano)
Fragmento de prato (romano) 

 
Hoje francamente não sei se o Museu Municipal de Penafiel se continua a chamar Sobral Mendes, ou se os arrumadores da história já o safaram da história local, à espera de um iluminado qualquer, que o venha baptizar de qualquer coisa