23 setembro 2018

UMA CHÁVENA ESPECIAL

UMA CHÁVENA ESPECIAL

Chávena almoçadeira da Comunhão Solene 

No segundo domingo a seguir à Páscoa, na cidade de Penafiel, realiza-se a Comunhão Solene.

Os meninos e as meninas que iam fazer esta Profissão de Fé, ainda manhã cedo se dirigiam para a Igreja Matriz em jejum, acompanhados dos pais e padrinhos do baptismo. Iam em jejum, porque naqueles tempos idos não se podia receber a hóstia consagrada a não ser nesse estado de alma, e a mesma tinha que ser amolecida na boca e engolida sem ser trincada, pois era pecado trincar a mesma, embora os textos sagrados digam “tomai e comei”.

Nos dias que correm, tanto o jejum como o mastigar a hóstia, foram abolidos da categoria dos pecados.


Um menino e uma menina escolhidos entre os demais, subiam ao púlpito e deitavam faladura, Eram os discursos da comunhão que serviam para agradecer aos pais, aos padrinhos, aos catequistas e ao Sr. Abade, todo este percurso cristão desde o baptismo, até ao dia da Primeira Comunhão e da Comunhão Solene, fortalecendo a Fé que nos guiará, até ás portas do céu.

Enquanto na Igreja Matriz se desenrolavam estas cerimónias religiosas, no átrio frente ao hospital, eram montadas mesas e bancos corridos, para aí se sentarem os meninos e meninas da comunhão para lhes ser servido um pequeno-almoço.



Pelas 10,30h, os comungantes saíam em procissão da Igreja Matriz guiados pelo Sr. Abade que no tempos de muitos penafidelenses foi o Padre Albano (já que esteve 40 anos à frente da Paróquia de Penafiel), percorrendo a Rua Mário de Oliveira e indo desaguar no Largo do Hospital, acompanhados por uma banda de música. 

 
Aí era servido o pequeno-almoço neste tipo de chávena almoçadeira (igual à da foto), que constava de chá ou café com leite, acompanhado de pão-de-ló, vários tipos de bolos e bolachas sortidas. 



Entretanto muitos penafidelenses desciam a Av. Araújo e Silva para verem com o seu ar de curiosos como iam vestidos os meninos e as meninas do comunhão, já que para muitos aquilo não passava de uma feira de vaidades, para mais tarde comentarem.



Em quanto isso os mais novos iam-se chegando para a beira de alguns amigos conhecidos que faziam a comunhão, para ver se estes lhes davam à socapa algumas daquelas iguarias. 

 
Outros seguravam as pautas aos músicos que iam abrilhantando com o seu reportório, esta encantadora festa, que é sempre de grande júbilo para as crianças.



No final formavam em procissão que subiam a Av. Araújo e Silva até à barbearia do Sr. Afonso (Pirola), virando aí para a Rua Direita que os levaria de volta à Igreja Matriz, para a cerimónia da oferta de flores à Virgem Nossa Senhora, Padroeira de Portugal.

Depois de algumas fotos tiradas pelos fotógrafos cá do burgo no interior da Igreja Matriz, a pedido dos pais ou padrinhos dos comungantes, era o regresso a casa, onde os esperava um almoço melhorado, na companhia de familiares e amigos.

Hoje já não se realiza este pequeno-almoço convívio na cerca do antigo Hospital da Santa Casa da Misericórdia, tendo a Comunhão Solene de Penafiel, perdido esta tradição, já que a Fé, essa continua como dantes, e nestas coisas, por muito que nos custe, é o mais importante.

18 setembro 2018

CINE - TEATRO S. MARTINHO DA ABERTURA À INAUGURAÇÃO

CINE - TEATRO S. MARTINHO

DA ABERTURA À INAUGURAÇÃO



Devido à acção desenvolvida pelo Sr. Presidente da Câmara, Afonso Henrique de Sobral Mendes, que conseguiu interessar o Sr. Fernando Santos da “Sonoro Filmes”, de Lisboa a investir em Penafiel com cerca de mil e quinhentos contos, na construção de uma casa de espectáculos.

Ao mesmo tempo que a construção ia ganhando forma os penafidelenses avançavam três nomes para o seu baptismo.



Para uns devia ser CineTeatro Egas Moniz.



Português que foi encarregado por D. Tereza de dirigir a educação do nosso primeiro Rei D. Afonso Henriques, e encontra-se sepultado no Mosteiro de Paço de Sousa.



Para outros Cine Teatro José Júlio, poeta penafidelense.



E ainda havia quem avançasse o nome de CineTeatro S. Mamede.



Isto porque no local onde foi construído existiu uma capela denominada de S. Mamede.



Mas a escolha acabou por cair no padroeiro cá da terra, e assim ficou como Cine -Teatro S. Martinho.




A sua exploração foi confiada a um grupo de penafidelenses constituída arrendatária com o nome de Oliveira & C.ª, tendo como sócios os irmãos Fernando e Rodrigo Oliveira, Joaquim Amaro Coelho Jorge e Manuel da Silva Almeida.





O Cine - Teatro S. Martinho, era uma linda e moderna sala de espectáculos, que comportava oitocentos lugares distribuídos por: Plateia, Tribuna e Balcão.

Embora ainda faltassem alguns acabamentos, o Cine - Teatro S. Martinho abriu as suas portas no sábado 1 de Dezembro de 1951, com a exibição do filme de aventuras “O Corsário Lafitte”, tendo os espectadores esgotado a sua lotação.





O Cine - Teatro S. Martinho veio contribuir para o engrandecimento e desenvolvimento de Penafiel, atraindo nos dias de cinema ou teatro, muita gente dos concelhos vizinhos de Paredes e Lousada.



Aqui vou deixar a lista dos primeiros filmes exibidos neste Cine - Teatro S. Martinho em Penafiel.



Para além do filme de estreia, O Corsário de Lafitt, seguiram-se Raízes Fortes; Quando os Sinos Dobram; O Caso Paradine; Companheiros na Glória (No dia de Natal); terminando o ano com o filme Intermezz; tendo no primeiro dia do ano de 1952 exibido o filme Tripoli e nos dias 5. 6 e 7 Nossa Senhora de Fátima, sempre com lotações esgotadas, no dia 10, O Leão de Amalfi, no dia 13 Rebeca, no dia 17 Brasa Viva, no dia 20 Sapatos Vermelhos, dia 24 Saloios que envenenam, dia 27 Coktail de Sogras, e dia 31Carta de Uma Desconhecida. 

 



Mas a inauguração oficial do Cine – Teatro S. Martinho, apenas se vai realizar na terça-feira dia 5 de Fevereiro de 1952, aproveitando a vinda a Penafiel da Companhia Vasco Santana, que representou a comédia “Sua Excelência o Bebé”.

Vasco Santana



Esteve presente à inauguração o Governador Civil do Porto, Doutor Domingos Braga da Cruz, que a convite do Sr. Presidente da Câmara de Penafiel, Afonso Henrique de Sobral Mendes, veio a esta cidade propositadamente para este efeito, tomando lugar na Tribuna acompanhado do referido magistrado administrativo e das demais autoridades civis e militares do concelho.



Com o Cine - Teatro S. Martinho repleto de espectadores, quer desta cidade quer dos concelhos vizinhos, que se não cansaram de rir e aplaudir com satisfação ante as variadas cenas da comédia, primorosamente representada por aquele genial artista Vasco Santana e restantes elementos da Companhia, Maria Helena Matos, Elvira Velez, Alberto Chira, Henrique Santana, Rosa Silvestre e Maria Alberta.




No intervalo do primeiro acto, Vasco Santana, disse algumas palavras de entusiasmo por ver inaugurada e em funcionamento mais uma casa de trabalho para os artistas de teatro, aproveitando a oportunidade para saudar os Excelentíssimos Senhores Governador Civil do Porto, Presidente da Câmara e demais entidades. 

 


Abrilhantou o espectáculo, que decorreu cheio de animação, um quinteto do Sindicato Nacional dos Músicos do Porto, que tocou vários números musicais que foram muito aplaudidos.



Ao chefe do Distrito e autoridades que assistiram ao espectáculo foi no final no Salão Nobre da Câmara Municipal de Penafiel e em ambiente de inteira amizade, oferecido um copo de água pela Empresa exploradora do Cine -Teatro S. Martinho, tendo-se trocado saudações entre os Ex.mos Senhores Governador Civil, Presidente da Câmara e Francisco da Silva Mendes, representante nesta cidade do Sr. Fernando Santos, proprietário da nova casa de espectáculos.
 
Salão Nobre da Câmara Municipal de Penafiel




Aqui fica o discurso proferido pelo Sr. Presidente da Câmara de Penafiel, Afonso Henrique de Sobral Mendes, neste acto:



Excelentíssimo Senhor

Governador Civil



É com verdadeira satisfação que tenho a honra de apresentar a Vossa Excelência as respeitosas e sinceras homenagens deste concelho, ás quais junto os meus cumprimentos pessoais e o meu preito de admiração pelas excepcionais qualidades de Vossa Excelência.



Sentimo-nos extremamente honrados pela presença do Sr. Governador Civil na inauguração que acabamos de assistir.



Desvanece-nos e alegra-nos a participação do primeiro magistrado do Distrito num acto que, embora modesto, significa mais um progresso da nossa cidade.



Digne-se, pois Vossa Excelência receber os sinceros agradecimentos de Penafiel pelo modo amável como se dignou aceder ao nosso convite.



A Cidade e o Concelho devem sentir-se satisfeitos por possuírem uma sala de espectáculos que não os desonra.



É claro que as realizações deste género não se fazem sem trabalho e sem sacrifícios.



Frequentemente, a maior parte deste trabalho é consumido na luta contra a incompreensão de muitos.



Tínhamos um velho Cinema que nada servia. A sua demolição foi considerada como um acto de temeridade ou, talvez mesmo, de violência.

.


Mas os factos neste momento mostram como tal clareza que o caminho seguido foi o mais conveniente, e aquele que nos levou aos melhores frutos.



Com contemporizações teríamos conseguido apenas, soluções medianas.






Com firmeza obtivemos resultados que não nos envergonham. Será também de toda a justiça endereçar desde já as minhas homenagens ao sr. Fernando Santos que tornou possível, com a sua preciosa colaboração que o Cine-Teatro S. Martinho se tornasse uma realidade.



Que a inauguração a que hoje procedemos sirva de exemplo e incentivo. Há muita gente que entende que precipitação é sinónimo de rapidez, ou que andar devagar mas seguramente, significa estar parado.



As obras camarárias ir-se-ão fazendo devagar, mas bem, porque não queremos obras, apenas para ver, mas sim para ficar.



De qualquer maneira, todos nós comungamos no mesmo ideal que se resume no progresso de Penafiel.



Por isso todos rejubilamos com a inauguração da Sala de Espectáculos. E o voto que formulo para terminar estas breves palavras, é que possamos, num curto prazo festejar, de novo mais um acto que nos engrandeça e satisfaça. 

 



Actualmente Penafiel não tem uma Casa de Espectáculos digna desse nome.



Ouço dizer que vão recuperar o velhinho Recreatório Paroquial, o que não é mau diga-se de passagem, mas é pensar muito pequenino se julgam que o problema da falta de uma Sala de Espectáculos se resolve com este restauro. 



- Será que Penafiel não está a precisar de um Pavilhão Multiusos?



Porque não dirão alguns, para quê dirão outros, pois se até sem uma Sala de Espactáculos, o “Zé Pagode” continua a apregoar aos quatro ventos que “Penafiel é a terra melhor do mundo”.



Haja decência, já que forrobodó, é coisa que não falta por aí, para alimentar este bairrismo bacoco e captar votos nas ditas cujas.

09 agosto 2018

DEUS MARTE DO SANTUÁRIO AO MUSEU

DEUS MARTE
DO SANTUÁRIO AO MUSEU



No início do século passado, a quando se procedia à abertura dos alicerces, para a construção do Santuário de Nossa Senhora da Piedade e Santos Passos, que fica situado no alto da cidade de Penafiel, foi encontrado a estatueta de Deus Marte pelos operários que aí trabalhavam, os quais tiveram imediatamente o cuidado de a limar nas pernas para ver se a mesma era de ouro, seu único interesse.



Dada a desilusão ambiciosa, passou a estatueta para a mão de um capataz do referido trabalho, que, por sua vez, a mostrou na taberna da Espadela, da Rua Alfredo Pereira, a Albino Teixeira, latoeiro de profissão.

Este adquiriu-a e levou-a ao Conselheiro de Casais, a quem, por ser devedor de finezas sem conta, lhe levava tudo o que de velho podia arranjar e que lhe parecia ser aproveitável para as belas colecções da ilustre Casa de Casais Novos.



Certo dia, Abílio Miranda, foi visitar o amigo, Dr. Joaquim de Vasconcelos Mendes Guedes de Carvalho, vulgarmente conhecido por Conselheiro de Casais, e reparou que no vão de uma janela, perto do fogão de sala, se encontrava uma estatueta de bronze, que pelo seu aspecto fortemente oxidado lhe chamou a atenção.

Examinando-a, rapidamente verificou que se tratava de um lindo objecto romano, a que lhe tinha sido adaptado uma pequena peanha de madeira torneada para a manter em posição vertical.

Foi tanto o interesse que a estátuazinha despertou em Abílio Miranda, que o Sr. Joaquim de Vasconcelos lha ofereceu.

Volvidos tempos, o primo de Abílio Miranda, José Pinho, de Amarante, distintíssimo arqueólogo, ao visitar a sua casa de Abílio Miranda, situada na Rua Alfredo Pereira em Penafiel, ao ver a estatueta pediu que lha confiasse pois desejava fazer-lhe um cuidado estudo.

Levando-a para Amarante, devolveu-a algum tempo depois, juntamente com os apontamentos que se seguem, escritos em folhas de papel almaço:



« A estátuazinha, que, na sua maior altura, mede 210 milímetros e pesa 570 gramas logo à primeira vista nos dá a idéa dum militar romano, cujo marcial aspecto se nos apresenta da seguinte forma:

Tem a cabeça erguida, levemente inclinada para a direita, olha em frente, com a face inteiramente a descoberto, ficando-lhe o capacete de tal forma erguido que a parte superior da viseira é quási perpendicular à normal e paralela à linha que vai ter ao bardo inferior do cobre-nuca. 

 

A barba é anelada como o cabelo; este cai-lhe em tufos a todo o redor do capacete e só o bigode é corredio, pendendo em madeixas aos cantos da bôca.

As sobrancelhas são salientes; os olhos bastante encovados, tem pequenas cavidades a indicar as pupilas; a bóca está mal delineada e faltam-lhe as orelhas, encobertas totalmente pelos anéis do cabelo e barba.

O pescoço está em parte coberto pela gola ou da lorica ou da túnica.

O capacete (gálea), a-pesar-de se poder considerar um capacete de aparato, não tem bucculae — peças de metal que defendiam a face —nem correias ou barbela a segurá-lo por baixo do queixo.

A viseira termina, à altura das orelhas, por volutas vulgares, espécie de charneira sobre-posta ao guarda-nuca, onde deviam articular as bucculae, se, por acaso as tivesse e só nela há de invulgar o ser dobrada à frente, em forma de mineira de telhado, tendo ao meio uns ornatos ou pequena carranca que a erosão produzida pelos séculos não deixa determinar. O que, porém, no capacete se destaca e me leva a chamar-lhe uma inça de aparato, é o imponente penacho (crista), imitando os feitos de penas e aberto em V, que seguro apenas no apex, por sinal fóra do seu lugar próprio e mais deslocado para a frente, em bem lançada curva, magestoso abarca não só leda a copa do capacete (cudo), mas inflete ainda, tocando o bordo infererior do guarda-nuca, e adelgaçando sucessivamente até atingir o terço médio das costas. E desta forma se afasta bastante dos empenachados capacetes dos soldados romanos da época republicana, mesmo dos centuriões de Trajano, sendo, todavia, uma verdadeira réplica dalguns capacetes gregos dos tempos homéricos, daqueles que, em geral, cobrem a cabeça de Minerva e especialmente as das entidades militares de hierarquia superior. 

 

Patenteia o tronco coberto pela vulgar túnica de manga curta, que, sendo de costume atar com um pequeno cordão ou cinto na altura dos rins, nunca passa além do terço médio da coixa, e sobre ela é que ajusta a lorica ou couraça.

Esta, da mais antiga época grega, é a principal arma defensiva do soldado de então. No caso presente compõi-se dum corselet metálico, moldado ao corpo e Feito de duas peças, resguardando uma, pela frente, o peito e a parte superior do abdómen, e cobrindo a outra, na parte superior, as costas, desde o pescoço aos rins, dela saindo ainda, para defesa dos membros superiores, uma manga curta que não chega a cobrir a da túnica, e para resguardo da cinta e membros inferiores um pequeno saial adivinhando-se ser feito, tanto aquela como este, de tiras de couro, dispostas como as penas de uma ave, pois cuidadosamente se lhe imitou a forma. E a natural junção das duas peças metálicas, nos ombros e a ligação, com o pescoço são formadas ainda por tiras que, sem dúvida, também de couro deviam ser. 

 

Completam ainda a armadura do guerreiro que, incontestavelmente, a nossa estatueta representa, caneleiras metálicas (ocreae), modeladas pelas próprias pernas da personagem, cuja parte anterior lhe defendiam, desde o tornozelo até acima dos joelhos, devendo atar com correias para trás, como no nosso interessante bronze ainda se chega a descortinar.

E como a figura se patenteia descalça, eram estas, enfim, a única protecção das pernas.

Vejamos agora qual a sua atitude:

O braço direito avança para o lado, se-guindo a linha dos ombros; o ante-braço, formando com aquele ângulo obtuso, inclina-se ainda para cima e para a frente; e a mão, flectida no pulso, erguida ao nível da parte superior da cabeça e fechada ainda, fazendo menção de abarcar uma alta háste, dá-nos a ideia nítida que o guerreiro se apoiava a uma lança.

E visto que a perna do mesmo lado está firme, assentando no chão toda a palma do pé e o tronco sobre ela faz peso, vergando mesmo um pouco para a direita, era sobre a lança que o guerreiro unicamente se firmava.

O braço esquerdo descido e um pouco afastado do corpo, fazendo ângulo recto com o ante-braço, que se dirige para a frente e torce um pouco para a esquerda, embora esteja mutilada na altura do punho, dá-nos a ideia precisa que a personagem qualquer objecto segurava com essa mão.

Enfim, a perna esquerda afasta-se também um pouco da direita e avança em frente, flectindo-se depois no joelho, para no chão apenas ao de leve tocar com a ponta do pé.

  • Será possível imaginar o que a figura devia segurar na mão esquerda?

Provavelmente um qualquer dos atributos que lhe faltam para completar a sua indumentária guerreira: a clâmide, a espada curta ou o escudo - quando não tossem mesmo todos esses três objectos, como se nos mostra um guerreiro do altar d'Ahenobarbus, figurando no tomo II, a pág. 314, do Mamute! d'Archéologie Pontearia de R. Cognot e Chapot.

Posto isto, que interpretação se há-de dar a tão interessante e por todos os títulos valiosa peça arqueológica, sem paralelo ainda nos nossos Museus, onde a colecção dos bronzes é relativamente limitada?

Quanto a mim está-se em presença dum típico exemplar de estatuária romana de feição severamente cultural e com este fim transportado de Roma para este canto remoto da Calarcia.

E, como pelo seu aspecto, a esta conclusão sou levado a chegar, é para mim fora de dúvida que se trata do deus Marte que deveria ter figurado num fanum e, como perto do lugar da sua descoberta temos conhecimento dum castro, era ai, naturalmente, que a referida divindade foi venerada ».

Com o aparecimento da Biblioteca Museu Municipal de Penafiel, Abílio Miranda ofereceu o seu espólio particular à mesmo, incluindo o deus Marte, que ainda hoje permanece no Museu Municipal de Penafiel, que poderia ou deveria muito bem chamar-se:


Museu Municipal Abílio Miranda.

12 julho 2018

ASSOCIAÇÃO FÚNEBRE FAMILIAR PENAFIDELENSE DE SOCORROS MÚTUOS

FUNDAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO
FÚNEBRE FAMILIAR 
PENAFIDELENSE
DE SOCORROS MÚTUOS 



No dia 6 de Outubro de 1907, a Banda de Música do Albaninho, percorreu de manhã todas as ruas da cidade de Penafiel, a incitar os penafidelenses a comparecerem ás 16,30 h, na sede da Associação Artística, situada na Rua do Paço, para se inscreverem como sócios e dar o seu apoio à fundação da Associação Fúnebre Familiar Penafidelense de Socorros Mútuos.

No estrado estava a Comissão Iniciadora constituída pelos senhores: Gregório Nogueira Soares, Manuel José Ferreira, Victorino Henrique da Silva e António de Souza Reis. Igualmente estava o Administrador do Concelho, o Pároco da cidade e individualidades de grande destaque do meio penafidelense.

Abriu a sessão o membro da Comissão Iniciadora sr. António de Souza Reis, que num longo discurso demonstrou as grandes vantagens que o operário penafidelense ia auferir com a fundação desta Associação, solicitando que era vergonhoso a maneira como eram feitos os funerais dos indivíduos da classe proletariada.

Terminou por propor para presidir o sr. professor Belmiro Nogueira Xavier (Inspector Primário aposentado), cujo nome foi muito aclamado.

Tomando o respectivo lugar, principiou por agradecer tal homenagem, e num desenvolvido discurso, mostrou o quanto era necessário uma associação como a que se iria fundar.

Orgulhava-se que dentro da florescente Associação Artística se assentavam as bases para outra, incutiu no animo da grande assistência a inscreverem-se como sócios, que era a sua providência no futuro.

A seguir propôs para secretariar os srs. Miranda Veiga (proprietário do jornal “Comércio de Penafiel”), e Francisco de Queirós (dono de Casa de Pasto).

Fizeram depois uso da palavra, Maravilhas Pereira, José António Soares de Aguiar e José Francisco de Queiroz, propagandistas do mutualismos, incitando os operários penafidelenses a levarem avante a fundação desta associação, que lhes prestará valiosos benefícios para o futuro. Os oradores foram muito aplaudidos. No átrio no fim de cada discurso, a Banda de Música tocava trechos do seu belo reportório.

A inscrição de sócios fundadores, atingiu o número de 316.

No final foi eleita a Comissão Administrativa que ficou assim constituída:

Efectivos

Presidente - Joaquim da C. Tomé
Vice-Presidente – Manuel José Ferreira
Tesoureiro – António José de Freitas Guimarães
Secretários – Augusto Joaquim da Silva Mendes e António de Souza Reis.

Suplentes – Gregório Nogueira Soares, António Fortunato da Silva e Victorino Henriques da Silva.

Depois da criação da Associação Artística e Fúnebre Penafidelense, e com o decorrer dos anos, muitos penafidelenses se dedicavam de alma e coração ao problema do mutualismo, mas haviam dois que se destacavam tal eram as suas entregas ás causas, que em todas as assembleias usavam da palavra para discutir e debater os problemas.



Eram eles o Sr. António de Souza Reis (Pai do Reis Livreiro que conhecemos na Rua do Paço, e que nos deliciava com a cascata do S. João), e o José Alves, mais conhecido na urbe pelo Alves Latoeiro.

António Souza Reis e José Alves, deixaram os seus nomes ligados ao mutualismo penafidelense, ajudando a construir uma obra que será sempre lembrada e louvada tal os benefícios usufruídos pelos respectivos associados que, mediante uma pequena mensalidade, têm direito a médico, remédios, subsídios por doença, enterro e subsídio de luto para os seus familiares, desaparecendo assim os sérios inconvenientes que geralmente apareciam quando as fatalidades batiam à porta das classes menos abastadas.

Eram bons companheiros, mas sempre que surgia qualquer problema de maior importância para o mutualismo, colocavam-se geralmente em campos opostos estabelecendo uma “oposição” amiga e só provocada por amor à causa, que era explorada pelos associados que se dividiam em dois grupos por eles capitaneados.

Realizavam-se assembleias gerais muito agitadas ali na Rua do Paço, na sede das duas associações Artística e Fúnebre, lá estando sempre o António de Souza Reis e o José Alves, de papel e lápis na mão para debaterem as suas opiniões, as suas ideias, com aplausos das massas torcedoras que vibravam com os acontecimentos.

Houve também algumas sessões solenes de homenagem a benfeitores desses organismos descerrando-se por vezes as suas fotografias que iam enriquecer a galeria já ali existente e deveras apreciada.

É precisamente de uma dessas sessões solenes que vou falar hoje, relatando uma engraçada cena.



Tinha lugar naquela noite uma sessão solene para homenagear um velho servidor da Associação o cobrador Augusto Rebelo.

O Reis Livreiro, fazendo uso da palavra procurou tecer-lhe os mais rasgados elogios dizendo que era tão cuidadoso no seu trabalho de cobrança que logo de manhãzinha, mal rompia o dia, aparecia aos associados para efectuar a cobrança de cotas nas suas residências, algumas bem distantes.
E o Sr. Reis louvando sempre o Rebelo comparava-o ao melro que, logo de manhã surge nos campos com o seu trinar muito cedo como que a dar os bons dias ás populações.

Nesta comparação entre o Rebelo e o melro, a dada altura o Sr. Reis virou-se para a assistência e disse:

  • Se algum de vós ouvir um dia bater, muito cedo, à porta, sabeis quem é?

Ora estava a assistir a esta sessão soleneum sócio que nunca faltava a estes actos e que quase sempre se sentava nas primeiras filas de bancos e por vezes bem animado, o Zé Pereira, morador em S. Roque, que se dedicava à colocação e reparação de bombas de água, e que ao ouvir a pergunta do Sr. Reis, levantou a cabeça e respondeu em voz alta:

-É o melro!

Todos desataram à gargalhada de tal maneira, que nem o orador teve coragem para continuar o seu discurso, dando a sessão por terminada.



Infelizmente hoje esta Associação vai sobrevivendo sem a pujança de antigamente, mas agonizando numa morte lenta, ligada à máquina do desinteresse. Afinal de contas, como diz a sabedoria popular, “ Os tempos são outros”.

21 junho 2018

FLOCOS DE NEVE

FLOCOS DE NEVE



Claro está, que estes flocos de neve, nada têm que ver com a meteorologia, mas sim com uma revista popular em 2 actos e 10 quadros, levada à cena no Cine Club no dia 18 de Maio de 1940, por um grupo de alunos e alunas do Colégio de Nossa Senhora do Carmo, desta cidade de Penafiel, com a colaboração da distinta amadora Mimi Iglésias, sendo a revista escrita pelo Sr. Arnaldo Passos.

Leves e graciosos os números foram-se sucedendo, deixando bem disposta a plateia, que no final do espectáculo aplaudiu de pé.

O desempenho foi soberbo, visto que algumas das gentis actrizes já tinham pisado o palco em espectáculos no Recreatório Infantil, embora outras fosse a primeira vez que o faziam, mas todas e todos actuaram com responsabilidade dando boa conta de si.

Sem melindres, mas Vergínia Machado, especialmente no papel de “Ermelinda”, a endiabrada Maria de Lourdes e a Silvana Coelho, foram admiráveis.

António C. Pinto sobressaiu no “Sonho do Amor” e ainda na “Aldeia”, tendo cantado com muita naturalidade.

Maria Zé Teles cantando “Saudade”, Antonieta Viana, “Um belo craveiro” e as outras Aurora Santana, Manuela Viana, Maria Moreira e Augusta Campos, todas elas actuando com graça e frescura.

Mimi Iglésias encantou com a sua admirável e linda voz em tudo que disse e cantou.

Casimiro Nogueira foi um bom animador e estava seguro do ingrato papel.

Evaristo Pereira, Rui Barbosa, Joaquim Nunes e Fernando Coelho, desempenharam bem os seus papeis dançando e cantando bem.

Fernando Baptista, foi bem no “Antiquário” e soberbo em “Lobo do Mar”.

O ponto esteve a cargo de João Pinto Matos que disse baixinho toda a revista.

A música original e adaptada aos números e ás vozes, foram dos srs. Padre Oliveira Manarte, Eduardo Liz e Joaquim Serrano, tendo a orquestra sido dirigida pelo sr. Eduardo Ferraz Liz.

O bonito libreto e os cenários um primor, foram de autoria de German Iglésias, que mais uma vez mostrou a sua arte, seu bom gosto e saber.

Pepe Iglésias na complicada engrenagem da maquinaria dos bastidores.

O guarda-roupa foi executado por Zulmira Iglésias.



Os alunos e alunas que fizeram parte destes Flocos de Neve, não só honraram o nome do Colégio de Nossa Senhora do Carmo, como o da cidade de Penafiel, já que todos estes cultivadores da arte de Talma, eram seus filhos.

O êxito foi tal, que no dia 26 de Maio de 1940, a revista Flocos de Neve subiu novamente à cena do Cine Club, tendo o pianista Eduardo Liz executado ao piano dois novos trechos musicais que deliciaram a assistência, assim como um novo número intitulado “Viva Portugal”que foi muito aplaudido.

Desta vez o produto desta récita reverteu totalmente a favor do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel.



O bairrismo dos penafidelenses não se fez rogado, e encheu por completo o Cine Club para assim generosamente auxiliar o nosso primeiro estabelecimento de assistência que tanto enobreceu Penafiel, pelos serviços que prestou ás classes pobres.

Assim, ficamos a saber, que em tempos que já lá vão, a par dos estudos, alunos e alunas do Colégio de Nossa Senhora do Carmo, tinham como passatempo extra curricular, a arte de representar para proporcionarem algumas alegrias, no meio das agruras da vida estudantil.

25 maio 2018

O RELÓGIO DA IGREJA DE DUAS IGREJAS

O RELÓGIO DA IGREJA DE 
DUAS IGREJAS



Tempos houveram que a vida era tão dura e difícil por estas bandas, que muitos patrícios resolveram emigrar para o Brasil.



É que a emigração também tem os seus tempos e destinos. Se nos anos 60 o rumo era a França e Alemanha, muito tempos atrás eram as Terras de Santa Cruz.



A muitos a vida sorriu-lhe de tal maneira nestas paragens, que resolveram fazer algo para bem de todos na sua terra Natal. 

 
É o caso do casal Sr. Joaquim Pereira Coelho e da sua esposa D.na Maria da Conceição Pereira Coelho, que resolveram oferecer em 1959 um bom relógio, para a torre da Igreja de Santo Adrião de Duas Igrejas, completando assim um pensamento dos autores da sua construção, o que só foi levado a efeito 86 anos depois visto que a Igreja Matriz de Duas Igrejas, freguesia de Penafiel, ter sido construída em 1873.

Pelas festas em Honra de Nossa Senhora do Rosário, que se realizam no 1.º domingo do mês de Outubro em Duas Igrejas, vulgarmente conhecida pela festa da sopa seca, e que neste ano de 1959, se realizaram no dia 4 de Outubro.

O benemérito casal que nesta ridente terra viu pela primeira vez a luz do dia, nela se baptizou, comungou, casou e viu também nascer os frutos do seu amor, embora que partisse através do Oceano,, onde preveniu que o pesado fardo da vida lhe pudesse ser mais suave, a verdade é que nunca se esqueceram da terra que os viu nascer.

Eram cerca das 17 horas, do dia 4 de Outubro de 1959, quando um cortejo com o casal benemérito à frente ladeado das pessoas mais representativas da terra, seguiu desde o entroncamento da estrada Penafiel – Abragão até ao adro da Igreja, acompanhado por uma banda de música, ao mesmo tempo que no ar estoiravam muitos estrondosos foguetes.

Depois de inaugurado e benzido o relógio para contentamento de todos, o casal dirigiu-se para a sacristia onde foram descerradas as fotografias daqueles beneméritos.



De seguida dirigiram-se para a residência paroquial, onde se encontravam grandes mesas bem recheadas de diversas guloseimas.

O Reverendo Padre António da Rocha Reis, agradeceu a oferta do relógio, desejando ao benemérito casal muitos anos de vida repletos de felicidades.



Falou ainda o sr. Francisco José Moreira Fernandes e o seminarista Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes que em nome das crianças de quem é instrutor, agradecendo ao Sr. Joaquim Pereira Coelho e esposa a oferta tão valiosa e útil de que esta freguesia de Duas Igrejas fica dotada.



Teve também palavras de gratidão para o Sr. António Luís da Rocha, cunhado do sr. Joaquim Pereira Coelho, que custeou as despesas da Festa em Honra de Nossa Senhora do Rosário.



Também é de realçar que a D.na Irene Coelho Marques (filha deste casal benemérito) e marido, ofereceram 900$00, para serem distribuídos pelos mais pobres da terra.



E pronto aqui fica mais um naco de história que relata que a partir do dia 4 de Outubro de 1959, do cimo da torre da Igreja Mãe de Duas Igrejas se começaram a ouvir o bater das horas.





Aquele jovem seminarista Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes, que tomou a palavra em nome das crianças a quem ele ensinava a catequese agradecendo a dádiva deste relógio, nasceu a 27 de Junho de 1941, em Duas Igrejas, freguesia de Penafiel, e foi ordenado padre a 26 de Março de 1966 pelo então Cardeal Patriarca, Manuel Cerejeira, em Lisboa.

A sua primeira missa também chamada de Missa Nova celebrada pelo Padre Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes, na sua terra natal ou seja na Igreja de Duas Igrejas, foi no dia 11 de Abril de 1966, pelas 19 horas, na segunda-feira seguinte ao Domingo de Páscoa, ou seja, no dia da Senhora da Saúde em Bustelo.

Em Duas Igrejas a população fez um lindo tapete com flores, o qual foi percorrido pelo Padre Manuel Vitorino acompanhado pelo Prior da Amadora.

No final da missa houve o tradicional beija mão a centenas de pessoas.

O jovem sacerdote agradeceu comovidamente todos os sacrifícios que para ele foram feitos pela gente da sua terra.

No final seguiram para a Casa da Fonte, onde foi servido um lauto banquete a dezenas de convidados.



1966 a 1969, o sacerdote foi coadjutor na paróquia da Amadora.


1969 a 1984, foi pároco de Vidais e São Gregório de Fanadia, nas Caldas da Rainha.


1985 a 2007 O padre Manuel Fernandes foi também coadjutor de Benfica


2007 a 2010 Foi pároco de Cruz Quebrada-Dafundo.


Desde 13 de Julho de 2010 que era pároco do Beato, em Lisboa.




2016 - Na festa do seu jubileu sacerdotal, que assinalou os 50 anos do seu sacerdócio, a missa foi presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, em que marcaram presença os Bombeiros do Beato e os Bombeiros do Dafundo, com quem o padre Manuel Fernandes mantinha uma estreita ligação, o presidente da Junta da Freguesia do Beato sr. Hugo Xambre Pereira, marcou presença, ladeado pelos seus vogais e pelo autarca de Marvila, Belarmino Silva, assim como o seu amigo pessoal Rão Kyao, que fez ecoar o magnífico som das suas flautas de bambu pela nave da igreja num concerto intimista.
 





No dia 20 de Março de 2018, partiu para os braços do Senhor, Manuel Vitorino da Silva Moreira Fernandes, pároco do Beato, em Lisboa, com 76 anos de idade.



Encontra-se sepultado no cemitério do Eiró em Duas Igrejas, sua terra natal.



Embora esta parte final não fizesse parte da história que nos trouxe aqui, é nosso dever lembrar todos aqueles que desinteressadamente contribuíram para o bem de todos, agora e sempre.