01 julho 2020

7 Maravilhas da Cultura Popular

7 Maravilhas da Cultura Popular



Devido à pandemia que se instalou por cá, este ano não se realizou a tradicional Festa do Corpo de Deus, em Penafiel.



Por tal motivo, à primeira vista, não descortinei a razão de se espalhar bandeiras nas janelas, cartazes gigantes pelos passeios da cidade e posters nas montras de alguns estabelecimentos comerciais com temas alusivos ás Festas da Cidade.



Nas bandeiras em pano que enfeitam as varandas, para além do tal “Sentir Penafiel”, aparece a legenda “Corpo de Deus – Tradição com Memória”. Nelas estão estampadas as imagens do S. Jorge, da Figura da Cidade, do Santuário de Nossa Senhora da Piedade e Santos Passos, o Baile dos Ferreiros e sua excelência A Serpe.



Já nos cartazes,assim como nos posters aparecem bailes que se exibem nas ruas da urbe por altura do Corpo de Deus, o Carneirinho, a Serpe, a procissão e a Missa de Festa com a respectiva explicação alusiva à foto.



Pensando cá com os meus botões, então uma câmara que não tem uma verba para retirar do chão os nomes dos seus filhos que tombaram na Guerra do Ultramar, anda a gastar dinheiro (e não deve ser pouco), nestas coisas? 

 


Talvez estes gastos, estejam relacionados com o Concurso levado a efeito pela RTP1, “7 Maravilhas da Cultura Popular”, onde Penafiel chegou para já à final regional do respectivo concurso, na categoria “Rituais e Costumes”, com os Bailes e a Cavalhada do Corpo de Deus.



De seguida fui à página da C.M. De Penafiel, na internet, e à secção dos Bailes, onde reparei que nem uma foto do Baile dos Pretos, nem a letra do mesmo lá aparece. Também observei que no placar referente aos Bailes já não é mencionado o respectivo Baile.

 


Lá encontramos as letras do Baile das Floreiras, do Baile dos Ferreiros, do Baile dos Pauzinhos, do Baile dos Pedreiros e do Baile dos Turcos.





Nos cartazes o Baile dos Pretos ainda aparece num, de uma maneira envergonhada, sem qualquer direito a uma explicação como todos os outros. 

 


Afinal de contas, vocês sabem, nós sabemos, que a sua letra se torna inconveniente, neste tempo em que o racismo anda por aí assanhado, e como tal, ficou propositadamente de fora deste pacote cultural das 7 Maravilhas.



Apesar de tudo, espero que Penafiel vença o Concurso das 7 Maravilhas da Cultura Popular, quanto mais não seja para justificar tais gastos, mesmo com o Baile dos Pretos escamoteado.

Fernando Oliveira – Furriel de Junho

20 junho 2020

O POSTAL

O POSTAL



Mal rompe o dia, o barulho das camionetas invade a cidade.

Da carreira vinda do lado da Ribeira, que estacionou na paragem perto do município, saiu um homem com ar de macambúzio, e veio numa passada lenta passeio fora em minha direcção.


- Bom dia! (fazendo uma pequena vénia).

Retorqui o cumprimento à moda covidiana, ou seja com uma cotovelada. 

Por entre a máscara lá me perguntou:

- O senhor sabe-me informar onde me devo dirigir?


Li o postal e indiquei-lhe o melhor caminho para lá chegar.

- Sabe, quem costuma tratar desta papelada é o meu filho, mas quê, ele agora emigrou para a Alemanha, e eu que não sei ler uma letra do tamanho de um camião, tenho que meter os pés ao caminho.

O nosso homem lá foi colocar-se na cauda da fila que já era longa, mantendo a distância física, à porta da repartição.


Ás nove horas em ponto o contínuo escancarou a porta da entrada. As pessoas entraram e subiram a escadaria que as levou ao primeiro andar formando novamente a fila à boca do guichet de atendimento.

Bastava olhar para a cara dela, para ver que a funcionária vinha mal disposta, falando num tom agressivo. Se a cabeça da fila ia diminuindo a cauda por sua vez ia engrossando.

Quando chegou a minha vez de ser atendido, a nossa amiga virou costas e desapareceu.
- Pois é! Foi tomar café e quando veio esteve mais de um quarto de hora a palrar com duas colegas, e a malta toda à espera que sua excelência se dignasse vir-nos atender.

- Enfim...


Comecei a ficar bravo como só o mar quando rebenta nos rochedos a sua fúria.

A malta começou toda a protestar e como eu não sou nenhum santo tive que explodir:

- Isto é uma grandessíssima pouca vergonha! Ao mesmo tempo que tilintava com uma moeda no patamar do guichet.

- Ó minha senhora, então ninguém vem atender?


A confraria dos mangas de alpaca entrincheirada em resmas de papéis, apenas olhou de soslaio e continuou pávida e serena como até ali.

- Quem é o chefe disto que eu vou já falar com ele? Isto não pode ser!

Um funcionário dirigiu-se calmamente ao guichet.

- O senhor não vê que está a perturbar quem trabalha!

- Se estou a atrapalhar o trabalho a culpa é dos senhores, se não já me tinham vindo atender.

- Vamos lá e baixe a voz que eu ouço bem, e tenho mais que fazer.

- Bem, passe para cá o bilhete-postal.


Lá foi com o papel na mão para a secretária. Aí reuniram os mangas de alpaca. Todos murmuravam, encolhiam os ombros e gesticulavam. Por fim, um homem aparentando uns cinquenta e muitos anos surgiu diante da minha pessoa, com o postal na mão, limpando vagarosamente os óculos.

- O senhor é que é o Etelvino da Costa?

- Sim senhor.

- Você ainda o mês passado cá esteve a requerer uma licença para obras, mas acontece que lhe falta preencher uma simples coisa mas sem isso como deve compreender o seu requerimento não podia seguir os trâmites legais.

- Nós precisamos de saber, qual é a sua naturalidade?


Etelvino soltou uma gargalhada deixando ver, a sua falta de dentes.

- Essa é boa! Aonde havia de ser, senão na minha terra.


Ao descer a escadaria que o levava novamente à rua trauteava baixinho algo mais ou menos parecido com isto:

Se toda a cera que vemos
Se pudesse transformar
Certos locais de trabalho
Seriam mais um altar 

- Então está tudo resolvido?

- Até ver!... - Até ver!...

Nota:
Caro(a) Leitor(a)
Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência.

Fernando Oliveira – Furriel de Junho

10 junho 2020

QUANDO A TROPA DAVA VIDA À CIDADE

QUANDO A TROPA
DAVA VIDA À CIDADE



Milhares de homens passaram pelo quartel militar de Penafiel.

Não só davam vida à cidade como interagiam com ela.

Para além da instrução militar que lhes era dada, desenvolviam paralelamente outras actividades culturais.


Em tempos que já lá vão, mal vinha o Verão, nas tardes de domingo davam concertos musicais no coreto construído no jardim público Egas Moniz, aos penafidelenses.

Também criaram uma companhia de teatro que baptizaram de “Marte”, para a qual foram recrutadas algumas meninas na urbe para o elenco, pois nessa altura a tropa era só para homens.

O Sport Club de Penafiel, também teve colaboração musical a quando da formação da sua Orquestra Jazz Albardófila de alguns militares músicos.

Muitas donzelas casaram com militares que por aí passaram, e no tempo em que os batalhões partiam e regressavam da Guerra Colonial muitas meninas eram convidadas a serem madrinhas de guerra.

Jorge Sena, escritor português, passou também por cá em 1941, retratando a sua passagem por este quartel no seu livro “Os Grão-Capitães”, no capítulo “ As Ites e o Regulamento”.

O 2.º Comandante do CICA 1, Tenente Coronel Olavo Rocha, elaborou a História do Quartel de Penafiel, que publicou em crónicas na revista do próprio quartel “O Calhambeque”. 

 

Para a miudagem da época, que hoje deve rondar os 70 anos de idade, era uma alegria ver a Fanfarra que todas as quintas-feiras percorria as ruas da cidade até à Praça Municipal, onde tocava virada para o Monumento ao Mortos da Grande Guerra, regressando de seguida ao quartel.

Sendo Maio, por excelência o mês das Novenas a Maria, devido à primeira aparição da Virgem em Fátima aos pastorinhos, se ter dado a 13 de Maio.

Até nestas coisas os militares faziam questão de participar e colaborar com a cidade de Penafiel.



Estávamos no ano de 1956, e na Igreja do Calvário, junto ao altar de Nossa Senhora da Conceição, durante o mês de Maio decorriam as novenas de Maria, que tinham o condão de atrair muitos fiéis.

As novenas eram presididas pelo Padre Superior Reverendo Nascimento Fontes, auxiliado por Frei José Martinho e Frei Manuel Guimarães.



Abrilhantavam estas cerimónias religiosas, ao órgão a Sr.ª Dona Otília Mendes Leal e um grupo coral formado por elementos do Regimento de Artilharia Ligeira N.º 5 (R.A.L. 5), orientados pelo padre Franciscano, Reverendo Polidório de Oliveira.

O grupo de militares vindos do RAL 5, que fizeram parte do coro que animavam com a perfeita afinação das suas vozes estas novenas, e que eram alvo dos maiores elogios eram os seguintes:



Manuel Silva, Luís de Sousa, Júlio Alexandre Alves Ferreira, Constantino Costeira, Gonçalo Amorim Varejão, José Fernandes, Joaquim Alberto de Oliveira de Sousa, Júlio Gomes de Sousa Varejão, José Faria Tenedorio, Manuel João P. da Silva, Emílio Pereira, Manuel Moreira Pinto, José P. Araújo, Manuel José Sérgio, Nestor Rio Tinto Costa, Joaquim de Matos Alves, Albino Lourenço Fernandes, Luís Barros Esteves, Domingos Dias Meira, Jorge Fernandes de Sousa, António Rodrigues da Fonseca, José Loureiro Pinto, Manuel Marinho, António S. Ribeiro, Arménio Gouveia e António Lopes das Neves, soldado do RAL 5 que prendia a atenção de todos durante os seus solos, tão apreciados pela assistência.

E pronto, aqui fica relatada mais uma intervenção dos militares na vida desta cidade, que muitos penafidelenses por certo desconheciam.

Hoje, nas velhas calçadas da cidade de Penafiel, já não vemos “magalas”, mas pavoneia-se outra “tropa”, que apenas trata da sua vidinha, destruindo por vezes o nosso passado, desrespeitando os nossos melhores filhos que deram a vida pela pátria, e ainda nos dizem com aquele ar de entendidos, que tudo isto é feito em prol de um tal progresso... do deles é claro.

Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 junho 2020

LOAS

LOAS
NOSSA SENHORA DA SAÚDE
 


No meio do verde de montes e campos, lá está imponente o mosteiro e o convento Beneditino. Já lá vão os tempos em que os cânticos gregorianos dos monges faziam eco nas penedias.

Se o patrono é S. Miguel o que lhe dá fama, é sem dúvida a Nossa Senhora da Saúde.


Segunda-feira a seguir ao Domingo de Páscoa a cidade de Penafiel, fecha as suas portas e lá vai com o seu farnel, muita das vezes feito das sobras do dia anterior rumo a Bustelo.

O que hoje se faz geralmente de carro, em tempos que já lá vão, as camionetas da firma Alberto Pinto num vai bem constante lá iam transportando pessoal de Penafiel, para a festa da Senhora da Saúde em Bustelo.


Os pagadores de promessas fazem este percurso a pé. É nesta condição que aparecem as novenas. São pessoas em número de cinco, sete ou nove entrelaçadas umas ás outras pelos braços, entoando loas à Senhora da Saúde, enquanto caminham.

Com o aparecimento da televisão, não só cada vez se vê menos novenas, pois é mais fácil ver uma telenovela do que transmitir esta cultura popular como era apanágio nos velhos serãos, de geração a geração.

Hoje tanto a cidade como a aldeia mais remota estão a ser standarizada e absorvida pelos meios de “progresso”, que pouco preserva de seu, culturalmente falando.

A última novena que vi, já lá vão mais de trinta anos, era formada por moças da freguesia de Duas Igrejas, do concelho de Penafiel.

Eis alguns versos cantados por elas:

Nossa Senhora da Saúde
Livrai os homens da guerra (bis)
Nós somos de Duas Igrejas
Viva, viva a nossa terra (bis)

Nossa Senhora da Saúde
Vota fitas a voar (bis)
Vota uma, vota duas
Todas vão cair ao mar (bis)

Nossa Senhora da Saúde
Nós já fomos e viemos (bis)
Vimos vos pedir perdão
Dos pecados que fizemos (bis)

Nossa Senhora da Saúde
As costas vos vou virar (bis)
Dai-me vida e saúde
Para o ano cá voltar (bis)

Nossa Senhora da Saúde
Nós cá estamos a chegar (bis)
Deite o arroz p'rá caçarola
Sopa seca pró alguidar

Nossa Senhora da Saúde
Eu pró ano lá hei-de ir (bis)
Ou casada ou solteira
Ou criada de servir (bis)



Foi esta última quadra que me chamou atenção, pois ouvi-a na Galiza apenas modificando o 1.º verso ficando assim:

Orense que és da raia”
Eu pró ano lá hei-de ir (bis)
Ou casada ou solteira
Ou criada de servir (bis)

Daí ter concluído que o povo acomoda a letra a qualquer santo ou santinha ou terra que vão visitar.

- Será que estes cânticos foram trazidos pelos romanos no período da romanização até nós?

Mas outra hipótese se me levanta na mente se não seriam os peregrinos que calcorreando os Caminhos de Santiago até Compostela os foram transmitindo de pais para filhos a netos até aos nossos dias.

Destas maneiras ou de outras, é caso para dizer:

Se todos os caminhos vão dar a Roma ou a Santiago, também não é menos verdade, que todos os caminhos vão dar à nossa terra, assim como estas Loas.


Fernando Oliveira – Furriel de Julho

10 maio 2020

UM JOGO CÉLEBRE

UM JOGO CÉLEBRE
Assina "Um Verde"



Nos anos 30 e 40 do século passado, em Penafiel, existiam dois clubes de futebol, sendo um Sport Clube de Penafiel e o outro a União Desportiva Penafidelense.




Ambos os clubes tinham a sua orquestra, que actuavam em vários locais da cidade, principalmente no tempo do cantar das Janeiras e dos Reis.

Orquestra Jazz Albardófila

A do Sport que nasceu com o nome de Orquestra Jazz Sport, com o decorrer dos anos, vai dar lugar à Orquestra Jazz Albardófila, enquanto a do União manteve o seu nome desde o seu nascimento até ao seu fim, como Orquestra Jazz União.

Orquestra Jazz União


Geralmente as letras das canções eram referentes aos acontecimentos desportivos, mostrando é claro a sua rivalidade, sendo a letra colada em cima de uma música ou fado conhecido.


Como estamos em quarentena lá fiz umas arrumações e qual não é o meu espanto ao encontrar estes papelinhos com esta letra que retrata a actuação do árbitro, cantada com a música da “Margarida vai à Fonte ou Fado Nova Avenida.


O mais engraçado é que sendo o meu pai, atleta do Sport, estes versos são do União.

I
O tal combate de Leiras
Entre os grupos de primeiras
Do Sport e União
Foi um combate valente
Foi uma luta imponente
Cheia de brilho e emoção

II
Um jogo duro e violento,
O Sport marcou um tento
Pois levou ao outro a palma
Porém em combinação
Foi superior a União
Jogou mais e com mais alma

III
O Carlinhos do apito
Apesar de tanto grito
Foi um pimpão consumado
Com empurrões e rasteiras
Tudo consentiu em Leiras
Sem temer o delegado.

IV
Isto de jogar com doze
É melhor do que catorze
Quando o outro anda de apito
Não é justo nem decente
Mas, há por aí muita gente
Que acha airoso e bonito

V
Não é esta a vez primeira
Que o Sport, de tal maneira
Consegue vencer rivais
Há muito que a história o diz
Bateu o Egas Moniz
Só pelo apito e nada mais

VI
No trinta e quatro passado
Foi o União derrotado
Por causa duma traição
O Sport que tudo puxa
Puxou para lá o “Ras” Guxa
Das fileiras do União.

VII
Entre as cenas mais chistosas
Dessas tardes gloriosas
Do jogo do pé na bola
O que mais me deu no goto
Foi aquela do maroto
Que puxou pela pistola

VIII
Confesso que até fez pena
Vê-lo, faces de açucena
No meio da multidão
Receando o bom povinho
Temendo que o capachinho
Lhe rolasse pelo chão

IX
E foi assim desta vez
Que o Sport venceu por três
Depois de muito jogar
Na União Desportiva
Continua sempre viva
A vontade de lutar

X
Ninguém ria do vizinho
Que o seu mal vem pelo caminho
Diz o antigo rifão
Valongo tirou o pio
Ao grupo que d' assobio
Derrotou o União

XI
Na sede do União
Há beiça fresca, a tostão
Quem a não poder comprar
Para menos embaraço
Gastai antes da do Paço
Não se vende é só pra dar

XII
Os verdes cheios de brio
Em constante desafio
Com a manha do rival
Mantêm-se firmes no posto
Sempre a trabalhar com gosto
Num combate triunfal.

Devido ás cores das camisolas, os adeptos do Sport eram conhecidos pelos vermelhos, e os do União eram chamados de Verdes. O autor destes versos assina-se, "Um Verde", o que se facilmente se deduz que se trata de um apoiante da União Desportiva Penafidelense.  


E pronto, se no passado, as rivalidades futeboleiras eram tocadas e cantadas para animação dos seus apoiantes que se divertiam com isso, nos dias que correm as coisas atingiram tais proporções que vão desde o insulto gratuito, a cânticos racistas e ao ajuste de contas, organizado em claques.

O futebol, que na maioria dos clubes sobrevive à base de dinheiros públicos, ou muda rapidamente de carril, ou a continuar assim, o fim da linha está próximo, pois basta fechar a torneira, para o clube encerrar portas.

Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 maio 2020

MOINHOS ABERTOS AO TEMPO

MOINHOS ABERTOS 
AO TEMPO






No dia 7 de Abril, celebrou-se o Dia Nacional dos Moinhos Abertos.



No rio que nasce e morre no Concelho de Penafiel, e que dá pelo nome de Cavalum, não faltam moinhos abertos durante todo o ano.




Desde a nascente à foz, muitos são os moinhos que já não têm porta nem telhado, estando por assim dizer abertos ao tempo.



Deles apenas restam as paredes, como memórias de um tempo passado, em que ali viveu uma multidão de pessoas na labuta incessante de dominar as águas, obrigando-as a rodar as mós, que por sua vez faziam mover a pedra que transformava os grãos de milho em farinha, que muita dela chegava em forma de broa ou em pão de cada dia, à mesa do rico e do pobre. 

 


Os moleiros todos empoeirados, lá vinham conduzindo à arreata os burros carregados de sacos de farinha, por íngremes caminhos que ligavam o rio ao povoado.



Para além do seu nome de baptismo, os moleiros eram conhecidos por alcunhas.




Assim vou assinalar algumas delas, tanto no Cavalum como no Rio Sousa, pois são os dois rios que atravessam a freguesia de Penafiel, depois da tal junção de freguesias, que de democrática nada teve.




Rio Cavalum:

O Príncipe - Moinhos das Lages

O Gago – Moinhos da Ponte

O Beato – Moinhos da Ponte

O Marrão – Moinhos do Cavalum

O Magalhaça – Moinhos do Cavalum

O Barão – Moinhos da Bouça




Rio Sousa

O Tambor – Moinho da Ponte das Continhas

O Bichoila ou Pichoila – Moinho do Ledo

O Sardinha – Moinho do Ledo

O Rabicho – Moinho de Monchique

O Borga – Moinho de Monchique

O Carqueijeiro – Moinho de Monchique

O Luiz de Cavalum ou o Lírio – Moinho de Monchique

O Capitão sem C... - Moinho de Monchique

O África - Moinho de Monchique

O Olho Vivo - Moinho de Monchique

O Fidalguinho - Moinho de Monchique

Ponte dos Moleiros - Rio Sousa


O Linha Fina - Moinho do Campo

O Francisco Grande - Moinho do Campo

O Fanado - Moinho do Couto

O Pisca - Moinho do Couto

O Rato - Moinho de Calvos

O Joaquim Tolo - Moinho de Azevedo

O Rapelha - Moinho de Azevedos

O Seramago - Moinho da Ponte do Caminho de Ferro.

O Travanca - Moinho da Ponte do Caminho de Ferro

O João Cochicho - Moinho de Pias

O Manuel Cochicho - Moinho de Paredes

O Joaquim Cochicho - Moinho de Paredes

O Manuel Lobo – Moinho de Novelas

O Meigo – Moinho do Sidoiro

O Mendarelha – Moinho de Macieira



O nosso povo chama por vezes ao Rio Cavalum de Cavalão, e para ele (povo), significa valente, rapagão inquieto, mas não passa de uma adaptação popular.




Pois, segundo o historiador da nossa terra Abílio Miranda, o nome Cavalum se deve encontrar em cavalo, e não em palavra de outro significado.



As inquirições do reino de D. Afonso III sempre dão o nome Cavalum ao ribeiro, assim como o mesmo se lê em outros documentos medievais, ou sejo, por exemplo, numa doação de Mendo Pelaiz, feita ao mosteiro de Bustelo de uma herdade própria, sita na aldeia de Milhundos, perto da corrente do Cavalum.



O castro de Santa Marta deveria ligar ao do Santuário, e aqui se exerceu mais desenvolvidamente de que em qualquer outro castro, a arte guerreira, atendendo ao aparecimento no local de uma divindade, de deus Marte, em bronze. Este importante núcleo populacional, de feição guerreira, não dispensaria cavalos, como não dispensaria as pastagens dos campos regados pelo Cavalum, para sustento e criação dos mesmos. 

 


Se as águas do Cavalum seguem o seu percurso de sempre até abraçarem o Rio Sousa, as vivências dos moleiros, e do trabalhar das mós dos moinhos, desapareceram, dando lugar a paredes despidas, na paisagem destes lindos vales.



Os trilhos da margem do Cavalum se fossem limpos, e os resguardos colocados na ponte das Curadeiras, dariam um bom passeio pedonal, que uniriam a cidade através da Rua de Puços, à zona do parque da cidade e do parque temático da Magikland, sem terem de atravessar qualquer via com trânsito automóvel, ou seja, com toda a segurança. 

 


Parece-me que seria uma obra benéfica, de pouca monta, embora de pouca eficácia a nível de votos eleitorais, e quem sabe, talvez seja esta a principal razão, de a mesma nunca ter sido feita.

Fernando Oliveira – Furriel de Junho


20 abril 2020

GRÂNDOLA VILA MORENA


GRÂNDOLA VILA MORENA


Sabia que:

No dia 17 de Maio de 1964, José Afonso, actuou na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, e aqui se inspirou para a criação da canção: Grândola Vila Morena


Grândola Vila Morena faz parte do álbum “Cantigas do Maio” lançado em Dezembro de 1971. Este disco foi proibido pela censura da Emissor Nacional, aquando do seu lançamento, sendo concedida uma excepção na Rádio Renascensa à canção “Grândola Vila Morena”. 




Em 10 de Maio de 1972, é cantada pela primeira vez em público, no Burgo das Nações, na cidade galega de Santiago de Compostela, numa récita juntamente com o cantor galego Benedicto Garcia.



Realizou-se a 29 de Março de 1974, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, o I Encontro da Canção Portuguesa, que vai terminar com Grândola Vila Morena, com José Afonso e todos os cantores em palco juntamente com o público entoando a canção. Foi a partir deste espectáculo que os militares de Abril presentes no público, escolheram Grândola Vila Morena como a segunda senha do movimento libertador.



25 de Abril de 1974, Grândola Vila Morena é usada para dar o arranque à Revolução de Abril. A partir desta data, Grândola Vila Morena, transformou-se num ícone do 25 de Abril e da Liberdade.

 Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade







Fernando Oliveira - Furriel de Junho