A
VIDA MENTIDA
DE
MARIA INOCÊNCIA
Maria
Inocência é uma mulher magra, alta e conhecida por todos na terra.
Com
apenas a 3.ª classe, sabia assinar o seu nome, ler e escrever embora
com alguns erros, mas o marido era analfabeto ao ponto de no seu
Bilhete de Identidade no lugar da sua assinatura aparecia a frase:
Não sabe assinar.
Desde
que a mãe morreu sempre a conheci vestida de luto, como de negro foi
sempre a sua vida.
Vive
com o seu Zé num barraco deixado pelos pais, com soalho de terra
batida onde o frio entra por todos os lados, e a chuva sempre que cai
os visita.
Maria
e o seu marido, trabalham em casa do Sr. Doutor Marcos. Ela nas lides
caseiras e o Zé nas tarefas agrícolas nos campos que rodeavam a
moradia.
O
meu Zé como ela o gostava de tratar, o único vício que tinha era o
tabaco, sempre agarrado ao seu Kentucky no canto da boca.
Se
o amor, o carinho e a amizades entre ambos era o que havia em
abundância, a miséria, essa sentia-se em todo o resto e sentava-se
à mesa nas horas das refeições.
O
almoço da Maria e do Zé era feito na cozinha e as sobras que vinham
da mesa da sala de jantar servido pela Maria Inocência ao Sr. Doutor
e esposa quando estes a mandavam levantar, eram o jantar.
Na
barriga da Inocência começou-se a notar um aumentar de volume, pelo
que o seu patrão dr. Marcos em fala com ela lhe perguntou se queria
abortar.
Nada
disso, o meu menino virá ao mundo se Deus o assim quiser.
Antes
dois meses de a bolha de água rebentar, Zé convence Maria que ali
não há futuro para o nosso filho e o melhor seria alguém adotá-lo.
Foi
então que se lembrou do seu comandante Almeida que não tinha
qualquer filho e segundo constava sua esposa não lho podia dar. Logo
ali ficou acordado que o menino seria registado à nascença e nunca
por nunca o poderia saber quem eram seus pais verdadeiros. Assim,
logo que viu a luz do dia ficou a chamar-se Dinis. Cresceu e
matricularam-no no Colégio Militar em Lisboa não apenas para
estudar, mas sim para seguir a carreira militar como seu pai.
Muitos
anos Inocência e Zé deixaram de o ver.
Entretanto
Maria volta a engravidar e desta vez o Sr. Doutor Marcos combina com
eles que caso seja menina ele a adotaria.
- E
se for um rapaz! - Deixa isso comigo.
Assim
aconteceu e mais um filho do sexo masculino nasceu. Foi então que o
sr. Albino dono de uma grande fábrica de confecções e a dona
Esperança o adotou pois não tinham nenhum herdeiro. Sempre com a
promessa que seus pais biológicos não mais se aproximavam dele e
este segredo tinha que permanecer até à morte. O menino foi levado
à Pia Baptismal com o nome de Jesus.
A
vida lá foi andando e com dádivas de roupa do sr. Alípio e da
Esperancinha, aos domingos tanto Maria Inocência como o Zéquita iam
à missa muito mais janotas, mas ela sempre trajando de negro. Aí o
boato apareceu que os filhos tinham sido vendidos por bom dinheiro,
para aparecerem daquela maneira vestidos. Embora não fosse verdade
entristeceu e muito o pobre casal.
Com
as noites longas, o amor estava sempre na ordem do dia, ou melhor da
noite, e como diz o povo que não há duas sem três, a Inocência
engravidou de novo.
Desta
vez foi menina e o Dr. Marcos cumpriu e aperfilhou-a e registou-a com
o nome de Maria da Anunciação por ter nascido a 25 de Março dia em
que se comemora a anunciação do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria de
que ela seria a mãe de Jesus Cristo, concebido pelo Espírito Santo.
Com
a sua amabilidade Inocência tudo fazia para atender os pedidos de
Anunciação. Embalou-a no berço, viu-a crescer, a ir para a
faculdade e a doutorar-se, tendo nesse dia servido um grande almoço
com gente graúda cá do burgo.
Quando
tudo parecia correr bem, o Zé adoeceu com a tuberculose, e o sr.
Dr. Marcos internou-o no Sanatório de Louredo da Serra, local
especializado para o tratamento dessa malvada doença. Apesar de
todo o apoio e tratamentos aplicados, o Zé acabou por dar a alma ao
Criador.
Perante
este cenário, o Dr. Marcos ofereceu o quarto dos fundos para a viúva
Inocência viver. Os seus haveres foram trazidos numa mala para o
seu quarto, assim como um caderno onde Inocência registava todos os
acontecimentos da sua vida, como se de um diário se tratasse.
Entretanto
começa a Guerra Colonial, e dois batalhões são mobilizados para
Angola. Despedem-se da cidade desfilando pelas ruas, onde nos
passeios e das janelas apinhadas de gente acenam aos soldados com
lenços brancos. À frente de um batalhão lá ia o Major Dinis e
mais atrás o Jesus ambos filhos de Inocência que lhes acena com o
lenço enquanto as lágrimas escorrem pelas faces ósseas da cara. Os
seus meninos iam para a guerra.
A
vida na santa terrinha corria ao sabor do tempo, quando foi abalada
pela morte de Jesus que pisou uma mina numa picada de terra barrenta.
No
dia do seu funeral, o comércio encerrou as suas portas, as entidades
municipais fecharam e todo o mundo se dirigiu ao cemitério a fim de
se despedir deste herói que morreu a combater os terroristas em
África. Houve salva de tiros quando o caixão desceu à terra.
No
10 de Junho, Dia da Raça, Dona Esperança deslocou-se a Lisboa, mais
propriamente ao Terreiro do Paço, para receber a medalha de Cruz de
Guerra de Valor Militar de ouro. O locutor lia os louvores das
condecorações que eram atribuídas aos militares ou às suas
famílias, quando concedidas a título póstumo.
Quando
ouviu o seu nome, subiu à tribuna de honra montada para o efeito,
onde estavam os mais altos dirigentes do regime. Foi condecorada pelo
Presidente da República Américo Tomás, de uniforme branco de
Almirante. No final da cerimónia, o clarim tocou a sentido,
entoou-se o Hino Nacional, e as forças em parada desfilaram perante
as altas entidades e os condecorados alinhados na tribuna.
Dinis
fez comissão, atrás de comissão e de cada vez que ia e vinha da
guerra colonial, subia um posto na sua carreira militar.
25
de Abril de 1974, o golpe militar que derrubou um regime e acabou com
a guerra. O seu Dinis, fazia parte dos capitães de Abril, e o povo
desceu à rua a dar vivas à Liberdade! Liberdade!
Mas
Inocência, sabia que para si, ainda não tinha chegado a Liberdade
para contar a sua vida mentida aos próprios
filhos, mas essa, está toda escrita no seu caderninho, no quarto dos
fundos.
Fernando
Oliveira – Furriel de Junho