01 maio 2026

O CONDE DE FERREIRA

 

O CONDE DE FERREIRA

JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS 




Hoje vou falar de um tripeiro que financiou a construção da escola primária em Penafiel, onde aprendi a ler, escrever e contar.


Seu nome é Joaquim Ferreira dos Santos, que se dedicou à filantropia e distinguiu-se pelas suas obras de benemerência sem limites que começou a prodigalizar aos infelizes desprotegidos da sorte, foram-lhe pelo governo de então concedidos os seguintes títulos:





Torna-se Par do Reino em 1842, retomando a cidadania portuguesa,sendo nomeado Fidalgo, Cavaleiro da Casa Real, membro do Conselho da Rainha D. Maria II, Comendador da Ordem Militar de Cristo, e da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Recebeu a Grão-Cruz da Ordem de Isabel a Católica de Espanha e foi sucessivamente Barão de Ferreira, em 7 de Outubro de 1842, Visconde de Ferreira em 22 de Junho de 1843, e Conde de Ferreira em 6 de Agosto de 1850.


Nasceu a 4 de Outubro de 1782, no Lugar de Vila Meã, actual lugar de Azevedo, na freguesia de Campanhã, na cidade do Porto. Era o quinto filho de uma família de agricultores. Entrou no seminário mas cedo o abandonou, para aos 14 anos, se tornar caixeiro na cidade do Porto.


No ano de 1800, emigrou para o Rio de Janeiro, Brasil à procura de trabalho mais compensador.


Assim, em terras de Santa Cruz, dedicou-se ao comércio de produtos alimentares enviados de e para o Porto.


Brasão de Joaquim Ferreira dos Santos


Entretanto casa com a argentina Severa Lastro, e adquiriu a nacionalidade brasileira aquando da independência do Brasil, tendo sido agraciado por D. Pedro com a comenda da Ordem de Cristo (em recompensa de uma beneficência).


Cedo descobriu o rentável negócio que na época prosperava no Brasil, o açúcar e a mão de obra escrava.


Vai a Angola mais propriamente a Cabinda e começa a comercializar escravos, até ao ano de 1830, em que é abolida a escravatura no Brasil. Bafejado pela sorte, conseguiu amealhar durante algumas décadas uma enorme fortuna.


No entanto, Joaquim Ferreira dos Santos, começa a ter problemas com a justiça brasileira, sendo acusado de tráfego de escravos, sendo apelidado de negreiro e esclavagista.




Regressado a Portugal por volta de 1840, fixou residência na freguesia do Bonfim, na cidade do Porto, onde faleceu com 84 anos, no dia 24 de Março de 1866.


Sem deixar descendência directa, doou a sua enorme fortuna, perpetuando assim o seu nome em obras de grande significativo e impacto na sociedade portuguesa. No seu testamento, não esqueceu as crianças com o pão do espírito que quase não existia nessa época, construindo grande número de escolas e ajudando assim a transformar a pré-história que chegou ao princípio do nosso século, tornando-se um dos obreiros da proto-história e da civilização que as gerações actuais desfrutam.


Entre outros beneficiados contam-se muitos colaboradores, parentes, amigos, e várias instituições e fundações de beneficência e utilidade social, como as Santas Casas da Misericórdia do Porto e do Rio de Janeiro (com a obrigação de vestirem 24 e 12 pobres, respetivamente, no aniversário do seu falecimento).




Destinou verbas substanciais para a construção de 120 Escolas de Instrução Primária, para ambos os sexos, colocando como condição que as escolas fossem construídas por todo o país, em vilas e sedes de concelho, todas com a mesma planta e com comodidades para os professores para aí residirem. Depois de terminadas, deveriam ser entregues às respetivas juntas de paróquia. As “Escolas Conde de Ferreira”, com um estilo arquitetónico próprio, inconfundível, foram um marco muito relevante na história da educação e do ensino público em Portugal.




Foi Penafiel uma das localidades escolhidas para perpetuar a memória deste grande benemérito, com a edificação duma escola de instrução primária, em cumprimento duma pequena parte dum dos seus legados. Na fachada principal, por debaixo da sineta coroada por um frontão triangular, vemos gravada na pedra a data 24 de Março de 1866, a qual corresponde ao dia em que Conde de Ferreira faleceu.




Entre outras grandes obras de realce temos o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, no Porto, destinado a doentes de foro psiquiátrico.



Joaquim Ferreira dos Santos, o Conde de Ferreira, está sepultado no cemitério de Agramonte, no Porto, tendo um mausoléu com a sua figura esculpida em mármore de Carrara, por António de Soares dos Reis, o mesmo autor da estátua que se encontra à entrado do Hospital Conde de Ferreira.


Segundo a minha modesta opinião, o Conde de Ferreira, deverá ser visto tendo em conta os valores morais e éticos da época em que viveu. A escravatura nunca havia de ter existido, mas não a podemos nem a devemos esquecer, mas sim aprender com os erros, inclusive da nossa História.


Apesar de sermos contemplados com uma escola primária, feita em parte com lucros vindos da comercialização de escravos, o seu nome faz parte da toponímia da cidade de Penafiel, unindo a Rua Conde de Ferreira a Av. Sacadura Cabral com a Rua do Bom Retiro e com a Rua Fontes Pereira de Melo.




Moral da história...

Se é verdade que devemos fazer bem, sem olhar a quem, não interessando donde o dinheiro vem, quando é para nosso bem.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 abril 2026

O LEAL ESPERA UM MILAGRE

 

O LEAL ESPERA UM MILAGRE



O meu amigo Leal, sempre foi um rapaz do reviralho. Na escola não tinha grandes amigos embora fosse um aluno de excelência, e a razão para tudo isto é que não deixava copiar nos pontos. Pouco sociável, não saía com a malta aos fins de semana para jogar a bola no campo da feira, ou dar uma volta numa bicicleta alugada no Zé das bicicletas.




Não frequentava bailes populares como o de Santo António, na Garagem Egas Moniz, ou no de S. João organizado pelo Toninho Gravato na Rua Mário de Oliveira com o conjunto do Santoinho a animar o mesmo.

Era o que se podia chamar um bicho do buraco, e na escola era conhecido pelo marrão, por marrar longos tempos nos livros, mas isso era o mal de inveja a funcionar.




Com o 25 de Abril, o Leal despertou e abraçou este ideal de Liberdade, apoiando todas as lutas por um país muito melhor. Dava aulas gratuitas a pessoas que nem sequer sabiam escrever o seu nome.

Era solidário com as lutas dos trabalhadores por melhores condições de segurança, higiene e salários. Abraçou a luta contra as privatizações, que segundo ele era a venda do país a retalho.

 



Muitas das vezes nos cruzamos em manifestações e uma que sempre o encontrava e o cumprimentava acenando-lhe com o punho fechado era no 1.º de Maio, que ele no meio da multidão correspondia da mesma forma.


Depois vieram causas novas, que o meu amigo Leal abraçou com todo o afinco, como os direitos dos animais. Ainda hoje os trata com tanto carinho, que parece que os animais o compreendem quando ele fala com eles.




Mais tarde apareceu com a defesa do património e lá foi dar o corpo ao manifesto para o Mozinho, ajudando a pôr ao leu as pedras de um passado enterrado. Descobriu que nas campas dos nossos antepassados longínquos haviam moedas e louças em barro. Segundo o Leal, naquele tempo julgava-se que os mortos partiam e nessa viagem precisavam de comida e de dinheiro, para o caminho. 




Um dia fui com o meu amigo Leal ver a Anta de Santa Marta e as sepulturas escavadas na rocha que se encontram ao lado da mesma. Aí apareceu um fulano que não o conhecíamos de lado nenhum e mete conversa com ar de sabichão afirmando que naquela sepultura foi enterrada uma criança.




O Leal retorquiu que ali não foi sepultada qualquer criança, mas sim uma pessoa adulta. E nada melhor que uma aposta para resolver o caso. O Leal foi à mala do carro, tirou uma vassoura e começou a varrer e a limpar uma daquelas sepulturas. No final deitou-se nela. Agora já posso dizer que já vi um homem aqui deitado, afirmou o fala barato.




Nunca o vi tão zangado quando trocaram o busto do Egas Moniz, pela Serpe.




Aí foi uma enxurrada de impropérios, apelidando os autores desta façanha de não serem portugueses de gema. Como que a dar-lhe razão lá mandaram a Serpe para Magikland em Marecos, mas no seu lugar apareceu o Quim dos Ralis, o que foi uma decepção, para o Leal que no seu entender corrigiram um erro com outro erro. E com aquele ar de gozo lá foi dizendo que quem assim procede com tanto bota-abaixo ainda vai a deputado da oposição, ou até quem sabe, mais tarde a algum governo deste país.




Falando sobre o que fizeram ao jardim que rodeia o Santuário de Nossa Senhora da Piedade e Santos Passos, cortando a meio aquele espelho de água daquele Lago onde durante muitos anos se dançou nos Segundos Sábados de Setembro, na famosa Festa do Lago, com conjuntos na berra a tocarem ao vivo.  

 






Como se isso não bastasse, agora taparam com terra as campas que estavam a descoberto no local onde existiu a capela de S. Bartolomeu. Mas a lata desta gente é tal, que colocaram em letras garrafais “EU AMO PENAFIEL” em que o amo é feito com um coração, aderindo a esta moda que atravessa o mundo, mas sem qualquer sentimento de amor à terra.





Outra bandeira é a do ambiente. 

 


Lá anda o Leal a apregoar o aquecimento global, que vai desaguar em cheias, que é necessário plantar mais árvores para segurar com as suas raízes as terras para que não haja desabamentos e purificar o ar, que devemos preferir os transportes públicos como o comboio em vez do carro para diminuir a poluição. Ninguém ouve os recados do amigo Leal, e depois ligamos a televisão e é o ai Jesus.




Qual não é o meu espanto ao ver na Procissão do Enterro do Senhor, realizada na Sexta-Feira Santa o meu amigo Leal de vela na mão junto aos homens das matracas que assinalam o aproximar da procissão.




Depois vim a saber que faz parte do grupo coral da paróquia que anima as celebrações litúrgicas, particularmente a missa dominical. Por vezes sob ao púlpito e faz a leitura do Evangelho durante a missa.

Ontem entrei no café e lá estava o amigo Leal, sentado numa mesa a fazer as palavras cruzadas do jornal. Sentei-me à sua beira e lá falamos das coisas da vida.


O Leal é um homem desencantado, pois depois de tanta luta, vemos que os corruptos é que se safam neste mundo, que os medíocres é que nos governam, e mentem-nos com quantos dentes têm para levarem a água ao seu moinho.




Por isso cheguei à conclusão que o único revolucionário foi Jesus Cristo.


Nasceu pobre e morreu pobre como nós.


Falou a verdade e foi perseguido, torturado e morto, como os homens com carácter de agora.


Foi traído (como eu fui até pelo meu próprio partido), e vendido por Judas, que tem muitos seguidores neste rectângulo à beira-mar plantado.





Em jeito de despedida e de aviso, lá me foi alertando que não há nenhum partido que nos salve por mais Salazares que tenha nos seus quadros como nos fazem crer, porque isto está tão mal que só um milagre é que nos salva.


Depois de uma bacalhoada, lá fomos à vida com o Fado, Futebol e Fátima do antigamente, a massacrar-nos a mente.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

22 março 2026

A DESOBRIGA PASCAL NA ESCOLA INDUSTRIAL DE PENAFIEL

 

A DESOBRIGA PASCAL

NA ESCOLA INDUSTRIAL DE PENAFIEL




A desobriga pascal, não é mais nem menos, do que um conceito quaresmal, que consiste em que os católicos confessem os seus pecados, recebam a absolvição dos mesmos e façam o acto de contrição que geralmente consiste numa carrada de Pais-Nosso e Avés-Maria.


Assim, antes de partirem para as férias da Páscoa, professores, alunos e alunas, dirigiam-se ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade, situado no alto do jardim que cerca o templo, para cumprir este preceito religioso a fim de limparem as suas almas perante o Senhor.

 

  

No final, para além da fotografia da família (escolar), na escadaria do Santuário, eram distribuídos santinhos com desenhos de autoria dos professores: Escultor Júlio Geraldes e Escultor Negrão, alusivos à época quaresmal.

 

COMUNHÃO PASCAL REALIZADA NO DIA 10 de MARÇO DE 1964

Seguem-se quatro exemplares destas estampas (1963 a 1966), para a malta recordar.  




 




Já passaram mais de sessenta anos, sobre estes acontecimentos escolares, onde se cumpria o 3.º Mandamento da Santa Igreja,  em que todo o Cristão devia Comungar pela Páscoa da Ressurreição. 
 
Hoje não sei, mas estou em crer que a maior parte dos crentes está como S. Tomé, embora felizes são aqueles que acreditam sem ver, afinal de contas as religiões assentam na fé.
 
Mas com tanta guerra, fome, rapina, malvadez e corrupção, não lhes perdoes Senhor, porque eles bem sabem o que fazem.  
 
 Fernando Oliveira - Furriel de Junho 


 

 

 

 


 






01 março 2026

O ÓRGÃO E OS PARAMENTOS DA IGREJA DA MISERICÓRDIA

 

O ÓRGÃO E OS PARAMENTOS

DA IGREJA DA MISERICÓRDIA



Durante as guerras Liberais (1828 - 1834), a igreja católica apoiou o partido absolutista, ou seja D. Miguel. 

Com a vitória dos liberais, e a subida ao trono de D. Pedro IV, no contexto que se seguiu à assinatura da Convenção de Évora Monte, que pôs termo à guerra civil portuguesa, o então ministro da justiça, Joaquim António de Aguiar, redigiu o texto do Decreto de extinção das Ordens Religiosas, assinado por D. Pedro IV de Portugal, e que foi publicado em 30 de Maio de 1834. 

Através desse diploma, foram declarados extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas  regulares, sendo os seus bens secularizados e incorporados à Fazenda Nacional, à excepção dos vasos sagrados e paramentos que seriam entregues aos ordinários das dioceses.  

Esta lei valeu a António de Aguiar o apelido de "Mata Frades". 

  


Este pequeno texto serve para nos colocarmos à época, e melhor compreender, como alguns paramentos provenientes do mosteiro de Paço de Sousa, e o órgão de tubos do mosteiro de Bustelo vêm parar à igreja da Misericórdia.




Manda a Rainha, D. Maria II, pelo Secretário de Estado dos Negócios da Fazenda, que a junta do Melhoramento e exame do estado actual das Ordens Religiosas, encarregada da Reforma Eclesiástica, expresse as ordens necessárias para se entregarem à disposição do Provedor e Mesa actual da Santa Casa da Misericórdia da Cidade de Penafiel os Paramentos Pontificaes de todas as cores, do extinto Convento de Paço de Souza, situado no termo da mesma Cidade, comprehendendo o Pálio, para serem empregados no Culto Divino da Igreja da dita Santa Casa da Misericórdia.


Paço das Necessidades, 2 de Outubro de 1834

José da Silva Carvalho




Branco: Simboliza alegria, pureza, ressurreição e vitória de Cristo. É utilizado no tempo de Páscoa, Natal, festas de Nossa Senhora, dos anjos e dos santos não mártires.

Verde: Representa esperança, vida nova e o crescimento. É a cor usada durante o Tempo Comum (as semanas comuns do ano).

Vermelho: Simboliza o fogo do Espírito Santo e o sangue dos mártires. Usado no Domingo de Pentecostes, na Paixão do Senhor (Sexta-feira Santa), Domingo de Ramos e festas de Apóstolos ou Mártires.

Roxo: Convida ao arrependimento, penitência e preparação. Utilizado no Advento, Quaresma e missas de finados.

Rosa: Representa alegria, mas uma alegria moderada no meio da espera ou penitência. Pode ser usado no 3º Domingo do Advento (Domingo Gaudete) e no 4º Domingo da Quaresma (Domingo Laetare). 

Dourado (ou Prata): Pode substituir o branco, vermelho ou verde em dias de grande solenidade, celebrando a glória de Deus.





Ambicionava a Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel, um órgão para a sua igreja mandada edificar, pelo ano de 1622, por Amaro Moreira, venerável abade de S. Vicente de Ermelo, na serra do Marão, Amarante.




Para as solenidades religiosas, um órgão, era em verdade, quase indispensável, embora os seus parcos recursos de dinheiros disponíveis, não permitiam tal aquisição por todos desejada. Pois não se compreendia a falta de um órgão numa igreja à qual D. José I, conferia as honras de catedral a quando da criação do Bispado de Penafiel a 1 de Junho de 1770, por bula do Santo Padre Clemente XIV.


Era assim concebido por D. José I este decreto:


Reverendo Bispo de Penafiel.

Amigo

Eu El-Rey , vos envio muito saudar.

Sendo-e Reservado nas Letras Apostólicas do Santo Padre Clemente décimo quarto, hora presidente na Venerável Igreja de Deos a invocação com que devia ser denominada a Igreja da Santa Caza da cidade de Penafiel, que pellas mesmas Letras Apostólicas na conformidade das minhas propostas foi pello mesmo Santo Padre Erecta em Cathedral na nova Diocese de Penafiel uzando das faculdades da dita rezerva:

Hei por bem que se denomine de Nossa Senhora e S. José, e que de baixo dos auspícios desta devotíssima invocação, passei a tomar posse da dita Igreja Cathedral escripta no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda em 24 de Dezembro de 1761. Rey.


Entretanto houve quem explanasse a ideia de se obter o órgão do extinto Convento de Bustelo. Todos sabiam que o órgão era um instrumento que à elegância da sua construção aliava um som magnífico que se adaptava maravilhosamente aos cânticos religiosos impregnados de doçura e piedade.


E de tal modo se armou a teia dos pedidos e tamanho relevo se deu à prosa pedinchona que lá se conseguiu obter o que se pretendia como se pode ver no documento que se segue:


Sub-Prefeitura de Penafiel, 4.ª Repartição -III.mo Sr.

Sirva-se V. S. dar execução à Ordem que por cópia remeto a V. S. para que o órgão de Bustelo tenha o destino nella marcado:

Deos guarde a V.S.


Sub-Prefeitura de Penafiel, 27 de Outubro de 1834

José Garcez Pinto de Madureira


Sub-Prefeito

III:mo Sr. Provedor do Concelho de Bustelo

Cópia – Prefeitura do Douro, quarta Repartição. Número trinta e nove.

Illustríssimo Senhor – Tendo Ordenado o Governo pelo Tribunal do Thezouro Público que o Órgão do extinto Convento de Bustelo seja posto à disposição do Provedor e Mesa actual da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel, a fim de ser collocado na igreja da mesma Santa Casa, ordena o Sr. Prefeito interino que Vossa Senhoria passe as ordens necessárias ao Provedor do concelho respectivo para que seja cumprida a Determinação do Governo, e o Depositário daquele extinto Convento facilita a extração do Órgão para o destino que superiormente lhe foi dado: o que participo a Vossa Senhoria para sua execução.


Deos Guarde a Vossa Senhoria

Secretaria da Prefeitura no Porto, dezassete de Outubro de mil oitocentos trinta e quatro.

Illustríssimo Senhor José Garcez Pinto de Madureira, António Luiz de Abreu, Secretário Geral – Está conforme.

Secretário da Sub Prefeitura no Porto, 27 de Outubro de 1834

Luiz Venâncio Carneiro de Vasconcellos – Secretário.




Estava, pois, a Santa Casa da Misericórdia de Penafiel de posse do Órgão do Convento de Bustelo , como pouco antes obtivera os paramentos pontificais de todas as cores do Convento de Paço de Sousa .  

  


Segundo Abílio Miranda, na parte interna da cobertura do teclado do referido órgão, há uma placa que diz o seguinte: 

Feito este órgão por António José dos Santos Júnior, organeiro. Ano de 1882”.  

 

Evidentemente, que esta data, não pode ser da sua feitura mas sim de algum restauro.  

O órgão da igreja da Misericórdia, foi obra dum abade do mosteiro de Bustelo, Frei Varela organista e organeiro. 

Foi um dos abades gerais (Trienais) do citado mosteiro e de outros. 

Este pastor do rebanho beneditino, tinha o hábito de consumir ao que se sabe muito rapé (tabaco de inalar), o que tinha como consequência cobrir dele os teclados dos órgãos que maravilhosamente tangia. 

 


Tinha discípulos de música e chorava, quando, praticamente, reconhecia que nenhum dos seus discípulos era capaz de tocar determinado órgão da sua feitoria, tão complicado se apresentava de teclados, registos, etc.




No dia 12 de Maio de 2018, foram inauguradas, as obras de reabilitação, conservação e restauro da Igreja da Misericórdia de Penafiel. Foi a única vez que ouvi o órgão de tubos a debitar notas musicais pelas mãos de Tiago Ferreira, licenciado em Música Sacra pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, e professor de órgão na Escola Diocesana de Ministérios Litúrgicos do Porto, no IV Curso Nacional de Música Litúrgica de Fátima, e um dos organistas da Igreja da Lapa, no Porto, que tem o maior órgão de tubos da Península Ibérica. Por coincidência ou talvez não, neste dia e mês no ano de 1622, foi lançada a primeira pedra deste monumento.  

 


Hoje em dia, o órgão com seu ar imponente, apenas serve de decoração na igreja da Misericórdia, já que o mesmo, não solta um som há muitos anos, por falta de organista para o tanger.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho


01 fevereiro 2026

OS COLCHÕES DE FOLHELHO

 

OS COLCHÕES

DE FOLHELHO




Muito antes de aparecerem os colchões de espuma ou de molas, haviam os colchões de folhelho.


Geralmente os colchões eram de tecido grosseiro, de fraca qualidade às riscas coloridas e tinham uma abertura a meio na vertical do colchão por onde se mexia frequentemente o folhelho e se procedia ao seu enchimento para ficarem mais altos e macios.




O colchão, depois de bem cheio, até mais não, era cosido com uma grande agulha arqueada e linha grossa com pontos igualmente grosseiros, para ser mais fácil de descoser, no esvaziamento e enchimento, no ano seguinte, quando voltaria a ser “esventrado” para mudar o folhelho e lavar o pano.

Por experiência própria, com o peso do corpo, iam baixando, e tomando o formato do corpo no mesmo. Por tal motivo, semana após semana, era necessário remexer a palha, operação feita usualmente ao sábado, quando a cama era feita de lavado.




Na agricultura tradicional o milho era cultivado para a produção de grão até porque a renda dos caseiros era paga em carros de milho efectivo, o que hoje normalmente é transformado em dinheiro.

Após a colheita, as espigas eram amontoadas no meio da eira para a tradicional desfolhada, onde se reuniam familiares, vizinhos, e amigos para as desfolharem, isto é, separarem a camisa da espiga. 



Era sempre motivo de festa, cantigas e bailarico, onde se começavam namoros à procura do milho rei, motivo para um beijo ou um abraço.

 


Feita a desfolhada, e, seguindo o princípio de que nada se perde, lavavam-se cuidadosamente, as frágeis folhas que até aí envolviam o milho, e colocavam-se, imediatamente a secar debaixo do sol, que por essa altura já brilhava em doses generosas.

Depois de secas eram então desfiadas e entregues a mulheres que se tinham especializado no enchimento dos colchões. 

 

 

Em meados dos anos 40 do século passado, na bifurcação da Rua do Carmo com a Av. Tomás Ribeiro, existiu uma casa onde se fabricavam os colchões Vianas. 


Este nome está associado à família e relacionado com as suas raízes serem de Viana do Castelo.  

Esta pequena fábrica familiar de enchimento de colchões, era um negócio numa época em que era feita com folhelho. 




Esta casa, esteve muitos anos desabitada, foi vítima de um grande incêndio que danificou a habitação, sendo mais tarde demolida para dar lugar a uma nova construção.





Os colchões de folhelho serviram milhões de pessoas como lugar de repouso, palco para amar e gerar filhos, espaço para viver e para morrer, cofre improvisado para esconderijo do dinheiro das poupanças, local de sonhos, de amores e desamores.

 


 

Hoje por mais fofos que sejam os colchões, as coisas não andam muito longe, nem diferentes dos sonhos de antigamente, e mesmo que a vida por vezes não nos sorria, colocamos um ar alegre no rosto, e damos graças a Deus por vivermos pobres, mesmo tendo trabalho.



Fernando Oliveira – Furriel de Junho