01 março 2026

O ÓRGÃO E OS PARAMENTOS DA IGREJA DA MISERICÓRDIA

 

O ÓRGÃO E OS PARAMENTOS

DA IGREJA DA MISERICÓRDIA



Durante as guerras Liberais (1828 - 1834), a igreja católica apoiou o partido absolutista, ou seja D. Miguel. 

Com a vitória dos liberais, e a subida ao trono de D. Pedro IV, no contexto que se seguiu à assinatura da Convenção de Évora Monte, que pôs termo à guerra civil portuguesa, o então ministro da justiça, Joaquim António de Aguiar, redigiu o texto do Decreto de extinção das Ordens Religiosas, assinado por D. Pedro IV de Portugal, e que foi publicado em 30 de Maio de 1834. 

Através desse diploma, foram declarados extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas  regulares, sendo os seus bens secularizados e incorporados à Fazenda Nacional, à excepção dos vasos sagrados e paramentos que seriam entregues aos ordinários das dioceses.  

Esta lei valeu a António de Aguiar o apelido de "Mata Frades". 

  


Este pequeno texto serve para nos colocarmos à época, e melhor compreender, como alguns paramentos provenientes do mosteiro de Paço de Sousa, e o órgão de tubos do mosteiro de Bustelo vêm parar à igreja da Misericórdia.




Manda a Rainha, D. Maria II, pelo Secretário de Estado dos Negócios da Fazenda, que a junta do Melhoramento e exame do estado actual das Ordens Religiosas, encarregada da Reforma Eclesiástica, expresse as ordens necessárias para se entregarem à disposição do Provedor e Mesa actual da Santa Casa da Misericórdia da Cidade de Penafiel os Paramentos Pontificaes de todas as cores, do extinto Convento de Paço de Souza, situado no termo da mesma Cidade, comprehendendo o Pálio, para serem empregados no Culto Divino da Igreja da dita Santa Casa da Misericórdia.


Paço das Necessidades, 2 de Outubro de 1834

José da Silva Carvalho




Branco: Simboliza alegria, pureza, ressurreição e vitória de Cristo. É utilizado no tempo de Páscoa, Natal, festas de Nossa Senhora, dos anjos e dos santos não mártires.

Verde: Representa esperança, vida nova e o crescimento. É a cor usada durante o Tempo Comum (as semanas comuns do ano).

Vermelho: Simboliza o fogo do Espírito Santo e o sangue dos mártires. Usado no Domingo de Pentecostes, na Paixão do Senhor (Sexta-feira Santa), Domingo de Ramos e festas de Apóstolos ou Mártires.

Roxo: Convida ao arrependimento, penitência e preparação. Utilizado no Advento, Quaresma e missas de finados.

Rosa: Representa alegria, mas uma alegria moderada no meio da espera ou penitência. Pode ser usado no 3º Domingo do Advento (Domingo Gaudete) e no 4º Domingo da Quaresma (Domingo Laetare). 

Dourado (ou Prata): Pode substituir o branco, vermelho ou verde em dias de grande solenidade, celebrando a glória de Deus.





Ambicionava a Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel, um órgão para a sua igreja mandada edificar, pelo ano de 1622, por Amaro Moreira, venerável abade de S. Vicente de Ermelo, na serra do Marão, Amarante.




Para as solenidades religiosas, um órgão, era em verdade, quase indispensável, embora os seus parcos recursos de dinheiros disponíveis, não permitiam tal aquisição por todos desejada. Pois não se compreendia a falta de um órgão numa igreja à qual D. José I, conferia as honras de catedral a quando da criação do Bispado de Penafiel a 1 de Junho de 1770, por bula do Santo Padre Clemente XIV.


Era assim concebido por D. José I este decreto:


Reverendo Bispo de Penafiel.

Amigo

Eu El-Rey , vos envio muito saudar.

Sendo-e Reservado nas Letras Apostólicas do Santo Padre Clemente décimo quarto, hora presidente na Venerável Igreja de Deos a invocação com que devia ser denominada a Igreja da Santa Caza da cidade de Penafiel, que pellas mesmas Letras Apostólicas na conformidade das minhas propostas foi pello mesmo Santo Padre Erecta em Cathedral na nova Diocese de Penafiel uzando das faculdades da dita rezerva:

Hei por bem que se denomine de Nossa Senhora e S. José, e que de baixo dos auspícios desta devotíssima invocação, passei a tomar posse da dita Igreja Cathedral escripta no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda em 24 de Dezembro de 1761. Rey.


Entretanto houve quem explanasse a ideia de se obter o órgão do extinto Convento de Bustelo. Todos sabiam que o órgão era um instrumento que à elegância da sua construção aliava um som magnífico que se adaptava maravilhosamente aos cânticos religiosos impregnados de doçura e piedade.


E de tal modo se armou a teia dos pedidos e tamanho relevo se deu à prosa pedinchona que lá se conseguiu obter o que se pretendia como se pode ver no documento que se segue:


Sub-Prefeitura de Penafiel, 4.ª Repartição -III.mo Sr.

Sirva-se V. S. dar execução à Ordem que por cópia remeto a V. S. para que o órgão de Bustelo tenha o destino nella marcado:

Deos guarde a V.S.


Sub-Prefeitura de Penafiel, 27 de Outubro de 1834

José Garcez Pinto de Madureira


Sub-Prefeito

III:mo Sr. Provedor do Concelho de Bustelo

Cópia – Prefeitura do Douro, quarta Repartição. Número trinta e nove.

Illustríssimo Senhor – Tendo Ordenado o Governo pelo Tribunal do Thezouro Público que o Órgão do extinto Convento de Bustelo seja posto à disposição do Provedor e Mesa actual da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel, a fim de ser collocado na igreja da mesma Santa Casa, ordena o Sr. Prefeito interino que Vossa Senhoria passe as ordens necessárias ao Provedor do concelho respectivo para que seja cumprida a Determinação do Governo, e o Depositário daquele extinto Convento facilita a extração do Órgão para o destino que superiormente lhe foi dado: o que participo a Vossa Senhoria para sua execução.


Deos Guarde a Vossa Senhoria

Secretaria da Prefeitura no Porto, dezassete de Outubro de mil oitocentos trinta e quatro.

Illustríssimo Senhor José Garcez Pinto de Madureira, António Luiz de Abreu, Secretário Geral – Está conforme.

Secretário da Sub Prefeitura no Porto, 27 de Outubro de 1834

Luiz Venâncio Carneiro de Vasconcellos – Secretário.




Estava, pois, a Santa Casa da Misericórdia de Penafiel de posse do Órgão do Convento de Bustelo , como pouco antes obtivera os paramentos pontificais de todas as cores do Convento de Paço de Sousa .  

  


Segundo Abílio Miranda, na parte interna da cobertura do teclado do referido órgão, há uma placa que diz o seguinte: 

Feito este órgão por António José dos Santos Júnior, organeiro. Ano de 1882”.  

 

Evidentemente, que esta data, não pode ser da sua feitura mas sim de algum restauro.  

O órgão da igreja da Misericórdia, foi obra dum abade do mosteiro de Bustelo, Frei Varela organista e organeiro. 

Foi um dos abades gerais (Trienais) do citado mosteiro e de outros. 

Este pastor do rebanho beneditino, tinha o hábito de consumir ao que se sabe muito rapé (tabaco de inalar), o que tinha como consequência cobrir dele os teclados dos órgãos que maravilhosamente tangia. 

 


Tinha discípulos de música e chorava, quando, praticamente, reconhecia que nenhum dos seus discípulos era capaz de tocar determinado órgão da sua feitoria, tão complicado se apresentava de teclados, registos, etc.




No dia 12 de Maio de 2018, foram inauguradas, as obras de reabilitação, conservação e restauro da Igreja da Misericórdia de Penafiel. Foi a única vez que ouvi o órgão de tubos a debitar notas musicais pelas mãos de Tiago Ferreira, licenciado em Música Sacra pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, e professor de órgão na Escola Diocesana de Ministérios Litúrgicos do Porto, no IV Curso Nacional de Música Litúrgica de Fátima, e um dos organistas da Igreja da Lapa, no Porto, que tem o maior órgão de tubos da Península Ibérica. Por coincidência ou talvez não, neste dia e mês no ano de 1622, foi lançada a primeira pedra deste monumento.  

 


Hoje em dia, o órgão com seu ar imponente, apenas serve de decoração na igreja da Misericórdia, já que o mesmo, não solta um som há muitos anos, por falta de organista para o tanger.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho


01 fevereiro 2026

OS COLCHÕES DE FOLHELHO

 

OS COLCHÕES

DE FOLHELHO




Muito antes de aparecerem os colchões de espuma ou de molas, haviam os colchões de folhelho.


Geralmente os colchões eram de tecido grosseiro, de fraca qualidade às riscas coloridas e tinham uma abertura a meio na vertical do colchão por onde se mexia frequentemente o folhelho e se procedia ao seu enchimento para ficarem mais altos e macios.




O colchão, depois de bem cheio, até mais não, era cosido com uma grande agulha arqueada e linha grossa com pontos igualmente grosseiros, para ser mais fácil de descoser, no esvaziamento e enchimento, no ano seguinte, quando voltaria a ser “esventrado” para mudar o folhelho e lavar o pano.

Por experiência própria, com o peso do corpo, iam baixando, e tomando o formato do corpo no mesmo. Por tal motivo, semana após semana, era necessário remexer a palha, operação feita usualmente ao sábado, quando a cama era feita de lavado.




Na agricultura tradicional o milho era cultivado para a produção de grão até porque a renda dos caseiros era paga em carros de milho efectivo, o que hoje normalmente é transformado em dinheiro.

Após a colheita, as espigas eram amontoadas no meio da eira para a tradicional desfolhada, onde se reuniam familiares, vizinhos, e amigos para as desfolharem, isto é, separarem a camisa da espiga. 



Era sempre motivo de festa, cantigas e bailarico, onde se começavam namoros à procura do milho rei, motivo para um beijo ou um abraço.

 


Feita a desfolhada, e, seguindo o princípio de que nada se perde, lavavam-se cuidadosamente, as frágeis folhas que até aí envolviam o milho, e colocavam-se, imediatamente a secar debaixo do sol, que por essa altura já brilhava em doses generosas.

Depois de secas eram então desfiadas e entregues a mulheres que se tinham especializado no enchimento dos colchões. 

 

 

Em meados dos anos 40 do século passado, na bifurcação da Rua do Carmo com a Av. Tomás Ribeiro, existiu uma casa onde se fabricavam os colchões Vianas. 


Este nome está associado à família e relacionado com as suas raízes serem de Viana do Castelo.  

Esta pequena fábrica familiar de enchimento de colchões, era um negócio numa época em que era feita com folhelho. 




Esta casa, esteve muitos anos desabitada, foi vítima de um grande incêndio que danificou a habitação, sendo mais tarde demolida para dar lugar a uma nova construção.





Os colchões de folhelho serviram milhões de pessoas como lugar de repouso, palco para amar e gerar filhos, espaço para viver e para morrer, cofre improvisado para esconderijo do dinheiro das poupanças, local de sonhos, de amores e desamores.

 


 

Hoje por mais fofos que sejam os colchões, as coisas não andam muito longe, nem diferentes dos sonhos de antigamente, e mesmo que a vida por vezes não nos sorria, colocamos um ar alegre no rosto, e damos graças a Deus por vivermos pobres, mesmo tendo trabalho.



Fernando Oliveira – Furriel de Junho


01 janeiro 2026

CAÇA AO COELHO COM FURÃO

 

CAÇA AO COELHO

COM FURÃO




Junto ao velhinho depósito de água que vinha canalizada das minas de Perafita, e abastecia a cidade de Penafiel, naquele monte cheio de mimosas, no dia de S. Bartolomeu eram vendidos furões e cães de caça, embora muitos deles me parecessem mais vira latas.


Embora a caça ao coelho com furão fosse proibida, o certo e sabido é que eram transacionáveis ás escancaras nesse dia 24 de Agosto em que o diabo anda à solta e vai mijar nas amoras as quais não se devem comer a partir dessa data, em que se realiza em Penafiel, a Feira de S. Bartolomeu.




No dia seguinte, muitos dos cães que não foram transacionados, vagueavam pela cidade, tendo os homens camarários com uma rede cercarem-nos nas ruas, apanharem-nos e lavarem-nos para o canil.


Embora as leis sejam para todos cumprirem, nada melhor do que oferecer prémios monetários para a mesma ter uma certa eficácia.


Assim, a Comissão Venatória Regional do Norte, com o fim de estimular a fiscalização do Regulamento da Caça, Decreto n.º 23.461, resolveu conceder vários pecuniários, para independentemente das percentagens que por Lei lhes cabem nas multas, recompensar os autuantes das transgressões da caça, em toda a área da sua jurisdição:


N.º 1 Prémio de 100$00

a) Por cada indivíduo autuado por caçar no defeso.


b) Por cada indivíduo autuado por fazer uso ou andar munido de armadilhas.


c) Por cada autuação por infração do art.º 33º (aplicável a todo aquele que possuir, der guarida, transportar ou andar munido de furão).


d) Por cada autuação por infração do art.º 33º (aplicável a todo aquele que possuir, der guarida, transportar ou andar munido de furão sem licença).


N.º 2 Prémios de 150$00


a) Por cada indivíduo autuado nas condições das alíneas A B C e D, do N.º 1, que sejam reincidentes.


b) Por cada indivíduo autuado por dar guarida ou transportar perdizes ou perdigões vivos.


N.º 3 Prémios de 30$00


a) Por cada autuação pela infração do N.º3 do art.º 80º (os que transportem, expeçam ou exponham à venda qualquer espécie indígena em tempo de defeso).


b) Por cada autuação pela infração do art.º 20 (aplicável aos pastores que se façam acompanhar de mais de um cão por cada rebanho ou 50 cabeças de gado).


Nº 4

Têm direito a receber estes prémios, a Guarda Nacional Republicana, Guarda Fiscal, os Guardas das Comissões Venatórias Concelhias, etc., de uma maneira geral todas as entidades a que se refere o art.º 56º , do Regulamento da Caça, excepto os membros das Comissões Venatórias Concelhias, Sócios das Agremiações de Caçadores e membros das Câmaras Municipais.


Nº 5


É condição para que o autuante tenha direito ao prémio, que o transgressor pague a respectiva multa ou seja condenado em juízo com transito em julgado.


N.º 6


A autoridade de quem o autuante dependa directamente, deverá participar a esta Comissão as transgressões que estejam compreendidas no disposto dos números anteriores, com indicação do nome, idade e morada do transgressor, identidade do autuante ou autuantes, data da transgressão, artido ou artigos transgredidos, bem como a importância da multa paga e data do seu pagamento.


N.º 7

A participação a que se refere o número anterior deverá ser acompanhada por idêntica declaração, ou informação à margem da participação inicial, da respectiva Comissão Venatória Concelhia, ou quando da sua falta da Câmara Municipal, autenticada com o respectivo selo branco. Logo que esta participação seja recebida, será a importância do prémio imediatamente remetida.




N.º 8


Quando a autuação seja feita por uma patrulha, será a importância do prémio dividida igualmente pelas praças que a constituem.




Sendo esta, uma maneira de melhorar o seu rendimento no final do mês, como foi o caso de estes dois activos agentes de fiscalização os senhores José Coelho e Eduardo Soares, no ano de 1957, por caçarem no Concelho de Penafiel com furão autuaram os senhores:


Francisco Vieira - Rio de Moinhos

Urbano Máximo de Sousa - Rio de Moinhos

Manuel Soares Júnior - Rio de Moinhos

Manuel Moreira - Rio de Moinhos


Gaspar Ferreira da Rocha - Calçada


José Carlos Pinto - Perozelo

José Augusto Lopes - Perozelo


Tito Ribeiro da Silva - Vila Cova


Domingos Lopes da Rocha – Cabeça Santa


Manuel Rodrigues Coelho

António Moreira de Melo

Luís Alves Nogueira - Capela

José Alves Vieira de Melo – Capela


Fernando Oliveira Pinto – Canelas


António Augusto Barroso Alves – Entre-os-Rios


José Maria Lopes – Figueira


Manuel da Silva de Sousa – Rio Mau


Augusto de Sousa Leite - Concelho de Lousada

Faustino Leite Mendonça - Concelho de Lousada

António Ferreira Magalhães - Concelho de Lousada

José Ferreira - Concelho de Lousada

António Moreira - Concelho de Lousada

Francisco Barbosa Cunha Moura - Concelho de Lousada

António de Sousa Leite - Concelho de Lousada


Nesse tempo, nos nossos montes vivia grande número de coelhos e perdizes, e para dar caça a estes caçadores de furão, era preciso uma maior e assídua fiscalização.


Todos sabemos que somos um povo desenrascado, nem que para isso se arrisque fintar a lei, pois como diz o ditado popular, “Quem não tem cão, caça com furão”, e por tal motivo, muitos caçadores, apelavam para que as multas fossem acompanhadas de alguns meses de cadeia.




Hoje a caça é aos votos, e para tal percorrem as ruas de todas as cidades e vilas, com a confraria de acólitos a acompanhar. Distribuem sorrisos, beijinhos e abraços e tiram fotos com desconhecidos, com a finalidade de caçar votos.


Cada um a querer ser mais furão que os outros, já que a maioria desta gente não faz o que disse que ia fazer, ou melhor dizendo, não cumpre o que promete.

Ontem como hoje, a culpa é sempre do outro, mas neste caso é do candidato a Presidente da República, que jura a pés juntos ser independente, mas não passa de um furão infiltrado  por algum partido.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 dezembro 2025

O PÉ DESCALÇO

 O PÉ DESCALÇO




Em 1926, é aprovado o Decreto-Lei n.º 12073, que proibia a circulação de pés descalços nas vias públicas das cidades, e dava poderes aos governos civis para aplicaram as novas leis e sancionavam as transgressões com multas pesadas.

A Liga Portuguesa de Profilaxia Social, através de uma circular, de 20 de Maio de 1928, proibiu a circulação de pés descalços na cidade do Porto.




O Governador Civil do Porto, Dr. Elísio Pimenta, presidiu a uma reunião da Comissão Executiva à qual assistiram Dr. António Emílio de Magalhães, Presidente da L.P.P.S., Capitão Gaspar Rodrigues, delegado da G.N.R., e Aprigio Rocha, Adjunto do Director do Distrito Escolar.





Elísio Pimenta, anunciou a criação de brigadas motorizadas especiais que vão percorrer as estradas, e aplicar multas a todas as pessoas que por incúria e vício injustificado se apresentem sem calçado. Aprigio Rocha referiu-se à acção desenvolvida pelas autoridades escolares no sentido de fazer cumprir rigorosamente as instruções dadas para impedir que as crianças assistam ás aulas descalças.

Quando entrei em 1957, para a Escola Primária Conde Ferreira em Penafiel, muitos dos colegas iam descalços, mesmo nos dias mais frios, de invernos rigorosos. Os professores faziam vista grossa, pois sabiam da miséria que existia em muitos lares.




No recreio e nas brincadeiras também corriam descalços, saltando e jogando à bola na terra dura. Quantas vezes voltavam à sala de aula com os pés doridos, feridos e até ensanguentados, mas sempre a sorrir, porque brincar era maior que a dor.

Quando chegava o dia solene de fazer o exame da 4.ª classe, calçavam sapatos geralmente usados pela primeira vez, pois marcava uma passagem para outra etapa da vida.





O Estado Novo intensificou a perseguição, associando o hábito à pobreza e à “incivilização”. Mendigos, vendedores ambulantes e trabalhadores rurais eram alvos preferenciais, frequentemente detidos e levados a tribunal.

A Câmara Municipal de Penafiel, entretanto tinha dois funcionários que eram conhecidos pelos penafidelenses como fiscais do pé descalço.

Lembro-me de ver muitas mulheres do campo, vindas das quintas que rodeavam a cidade, quando chegavam ao túnel de Puços, calçavam à pressa os seus tamancos apenas para atravessar a cidade.





Para fintar a lei, aparecem as socas de madeira com uma tira de cabedal que alguém com mais habilidade as fazia, e desenrascava os mais pobres. Estas socas faziam um barulho ao caminhar parecido com o arrulhar das rolas, sendo por isso conhecidas por rolas.

Toda esta situação é retratada nos versos de Augusto Gil, na sua Balada da Neve que a dada altura diz:





. …. …. ….

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...








Em 1958, Aquilino Ribeiro publicou o romance “Quando os Lobos Uivam”. Considerado pelo regime salazarista ofensivo e injurioso relativamente às instituições e ao poder, levou à apreensão da edição pela PIDE e à instauração de um processo-crime ao ilustre escritor. Entre as várias acusações que lhe eram feitas salientava-se aquela em que Aquilino afirmava que Portugal era um “país de pé-descalço, o que, na opinião dos acusadores, denegria o prestígio internacional do país.


No tempo da outra senhora que pelos vistos muitos apregoam o seu regresso a triplicar, resolvia-se as situações com proibições, multas e perseguições.





Hoje, Portugal dito democrático, que foi transformado numa coutada de dois partidos, anda calçado, engravatado, e bem falante, mas para aguentar tal aparência de novo rico, e para alimentar tantos “Jobs for the boys”, tanta incompetência e tanta corrupção, vendeu e continua a vender os seus bens, mas quando acabarem os fundos europeus, não seremos um Bangladeche, mas um submarino com almirante ou sem ele, a afundar e a desaparecer em águas profundas, à espera de um novo D. Sebastião.

Mas como de costume, a culpa é sempre dos outros.

Fernando Oliveira – Furriel de Junho


01 novembro 2025

ZÉ DO TELHADO EM XISSA

 ZÉ DO TELHADO

EM XISSA – ANGOLA




José Teixeira da Silva nasceu a 22 de junho de 1818 no lugar de Telhado, Castelões – Penafiel. Aos 14 anos vai viver com um tio em Caíde de Rei, Lousada, vindo a casar aos 27 anos com a prima Ana Lentina de Campos, com quem teve 5 filhos.  

 




Em 9 de Dezembro de 1859 foi julgado no Tribunal Judicial de Marco de Canavezes (julgamento iniciado a 25 de abril de 1859) e condenado a degredo na África Ocidental Portuguesa (Angola) para toda a vida.

 





Ao chegar a Luanda, foi enviado para a cárcere da Fortaleza de São Miguel, de onde saiu algum tempo depois para o presídio de Ambriz.

No dia 28 de Setembro de 1963, foi-lhe comutada a pena aplicada na de 15 anos de degredo.


É desta passagem por Ambriz, que escreve esta carta à sua esposa Ana que ficou com os seus cinco filhos nos braços.


Anna


Tenho escrevido muitas cartas e ainda de nenhuma recebi resposta tua agora faço esta por mão própria só para vêr se ella te é entregue manda-me dizer o que é passado contigo para eu d'aqui mesmo vêr se te remedeio alguns males eu entrei no perdão do casamento do Rei fiquei em 15 annos contando o dia que sahi de Lisboa se Deos me conservar ainda tenho esperança de vêr essa terra mas talvez mais prometo que tu pensas se Deos me ajudar.

Anna eu o que estimo é que tenhas saúde em companhia dos meninos e meninas a quem muito me recomendo não posso ser mais extenso que o Vapor está a sahir e com isto adeos até à vista.

Deste teo marido que a Vida te deseja por muitos annos.


Ambriz, 21 de Dezembro de 1862

José da Silva Teixeira Telhado

Escreve-me para Ambriz


Carta esta endereçada a:

Anna Lentina de Campos

Freguesia de S. Pedro de Rei de Caíde

Logar da Sobreira pelo correio de Vila-manhã


Como todas as outras cartas esta também não chegou ao seu destino.


Mais tarde é transferido para a prisão de Benguela, e aí vai conhecer Bandy, guia natural de Malanje, que mais tarde lhe será muito útil devido a dominar os dialetos falados no Sul de Angola.

Cumprida a pena, percorreu grande parte das terras do centro de Angola, acabando por aceitar o convite do seu amigo para terminar com o ziguezaguear pela então colónia e estabelecer-se em Xissa, de onde Bandy era natural. e que o acompanhou nas lides de comerciante de borracha, carne, cera, marfim e peles.






Casou-se com uma angolana, Conceição, de quem teve três filhos. Zé do Telhado era conhecido entre os locais como o “kimuezo”, o homem de barbas grandes.





Faleceu em 1875, com 57 anos de idade vítima de varíola, sendo sepultado na aldeia de Xissa, município de Mucari.




Devido ao grande número de visitas à sepultura, o município mandou construir um pequeno mausoléu improvisado com algumas chapas de telhado e um pequeno muro envolvente, regularmente visitado, e cuidadosamente preservado pela população local.




Em 2017 foi autorizada a mudança do nome da escola primária e do posto médico da localidade de Xissa para o nome de José do Telhado.





Enquanto em Angola tenta-se preservar a estória, por cá os apagadores da história andam em sentido contrário, basta para tal, ver o novo arranjo que foi executado na Av. Zeferino de Oliveira que tapou por completo as ruínas da antiga capela de S. Bartolomeu. 

 



Fernando Oliveira – Furriel de Junho



01 outubro 2025

O RINGUE DE PATINAGEM

O RINGUE DE PATINAGEM




Embora em Penafiel não existisse uma equipa de Hóquei em Patins, havia muitas pessoas que sabiam patinar.

Daí a Câmara Municipal de Penafiel, presidida pelo Padre Carlos Pereira Soares, resolveu construir um ringue junto à escadaria que liga o jardim público com o Largo Conde de Torres Novas, mais conhecido pelos penafidelenses por Campo da Feira, como se pode ver neste desenho.





No dia 6 de Agosto de 1944, foi inaugurado o ringue com vedação a toda a volta pelos vereadores José Adelino Cabral e o Tenente António Carvalho Sampaio, em representação da Câmara Municipal de Penafiel.

Cerimónia simples mas comovente, onde um grupo de ginastas bem treinados a experimentarem o piso bem regado. Distinguiram-se pela elegância das figuras e os movimentos coreográficos dois rapazes, soldados do Grupo de Artilharia contra Aeronaves GACA 3. A multidão encantada, aplaudia.




Aos domingos um grupo de penafidelenses juntava-se para irem patinar no ringue e mostrarem algumas habilidades sobre os patins.

Assim, no dia 14 de Setembro de 1947, o Sporting Clube de Penafiel, realizou o que seria a primeira gincana de patins, que esteve bastante concorrida quanto mais não fosse pela novidade cá na terra.  

 


 


Na mesma estavam em disputa os seguintes prémios:

1.º Taça de Prata no valor de 300$00

2.º Taça do Sporting Clube de Penafiel avaliada em 100$00

3.º Garrafa de champanhe

4.º Garrafa de Vinho do Porto

5.º Frasco de Perfume

6.º Caixa de Sabonetes

7.º Romance

8.º Garrafa amostra de Hortelã Pimenta




A competição começou cerca das 16.30 e depois das costumadas voltas ao ringue, cada um dos concorrentes foi vencendo os obstáculos que se lhes deparavam.  

 


 

Conforme o seu comportamento na prova, a classificação foi a seguinte:


1.º - Alfredo Nunes Vieira 5m 45 seg.

2.º - Bernardino C. Soares 6m 5 seg.

3.º - Rui Nogueira Guedes 6m 25 seg.

4.º - Fernando Nogueira Guedes 6m 35 seg.

5.º - ntónio Ferreira 8m 22 seg.

6.º - Afonso Vieira Leal 10m

7.º - Armando Leal 11m 25 seg.

8.º - Francisco Almeida 11 25 seg.





Como o 7.º e o 8.º classificados obtiveram o mesmo tempo, procedeu-se ao desempate que foi ganho por Francisco Almeida com 7m 5 seg. Por tal motivo a classificação final foi alterada, passando a 7.º Francisco Almeida e a 8.º Armando Leal.




Foi tal o êxito desta gincana, que mal terminou, deu logo entrada na Câmara Municipal de Penafiel, melhor dizendo, no dia 19 de Setembro de 1947, um pedido de autorização para a realização de uma nova gincana no dia 5 de Outubro de 1947, assinado por Rui Nogueira Guedes, sendo o ringue vedado e 5% da receita, revertia a favor do Fundo Assistência Municipal.

Hoje, este ringue já não existe, porque esta modalidade de andar sobre patins, faz-se actualmente em pavilhões cobertos, construídos para o efeito, geralmente com um stick na mão.

No dia 30 de Junho de 2017 foi fundado o Hóquei Clube de Penafiel, na freguesia de Galegos, concelho de Penafiel, que compete actualmente na 3.ª Divisão Nacional de Hóquei em Patins.






Se bem me lembro, estas gincanas serviam para entreter os penafidelenses, que nesse tempo não tinham nenhum clube de futebol a disputar qualquer campeonato organizado pela Associação de Futebol do Porto, porque já tinham acabado o Sport Clube de Penafiel, a União Desportiva Penafidelense, e o Futebol Clube de Penafiel só nasceu em 1951.  

 


 


Neste vazio dos pontapés na bola, os penafidelenses divertiam-se a mostrar as suas habilidades sobre 8 rodas.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho