O
ÓRGÃO E OS PARAMENTOS
DA
IGREJA DA MISERICÓRDIA
Durante as guerras Liberais (1828 - 1834), a igreja católica apoiou o partido absolutista, ou seja D. Miguel.
Com
a vitória dos liberais, e a subida ao trono de D. Pedro IV, no
contexto que se seguiu à assinatura da Convenção de Évora Monte,
que pôs termo à guerra civil portuguesa, o então ministro da
justiça, Joaquim António de Aguiar, redigiu o texto do Decreto de
extinção das Ordens Religiosas, assinado por D. Pedro IV de
Portugal, e que foi publicado em 30 de Maio de 1834.
Através
desse diploma, foram declarados extintos todos os conventos,
mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens
religiosas regulares,
sendo os seus bens secularizados e incorporados à Fazenda Nacional,
à excepção dos vasos sagrados e paramentos que seriam entregues
aos ordinários das dioceses.
Esta
lei valeu a António de Aguiar o apelido de "Mata
Frades".
Este
pequeno texto serve para nos colocarmos à época, e melhor
compreender, como alguns paramentos provenientes do mosteiro de Paço
de Sousa, e o órgão de tubos do mosteiro de Bustelo vêm parar à
igreja da Misericórdia.
Manda
a Rainha, D. Maria II, pelo Secretário de Estado dos Negócios da
Fazenda, que a junta do Melhoramento e exame do estado actual das
Ordens Religiosas, encarregada da Reforma Eclesiástica, expresse as
ordens necessárias para se entregarem à disposição do Provedor e
Mesa actual da Santa Casa da Misericórdia da Cidade de Penafiel os
Paramentos Pontificaes de todas as cores, do extinto Convento de Paço
de Souza, situado no termo da mesma Cidade, comprehendendo o Pálio,
para serem empregados no Culto Divino da Igreja da dita Santa Casa da
Misericórdia.
Paço
das Necessidades, 2 de Outubro de 1834
José
da Silva Carvalho
Branco:
Simboliza alegria, pureza, ressurreição e vitória de Cristo. É
utilizado no tempo de Páscoa, Natal, festas de Nossa Senhora, dos
anjos e dos santos não mártires.
Verde:
Representa esperança, vida nova e o crescimento. É a cor usada
durante o Tempo
Comum (as
semanas comuns do ano).
Vermelho:
Simboliza o fogo do Espírito Santo e o sangue dos mártires. Usado
no Domingo de Pentecostes, na Paixão do Senhor (Sexta-feira Santa),
Domingo de Ramos e festas de Apóstolos ou Mártires.
Roxo:
Convida ao arrependimento, penitência e preparação. Utilizado no
Advento, Quaresma e missas de finados.
Rosa:
Representa alegria, mas uma alegria moderada no meio da espera ou
penitência. Pode ser usado no 3º Domingo do Advento (Domingo
Gaudete)
e no 4º Domingo da Quaresma (Domingo Laetare).
Dourado
(ou Prata):
Pode substituir o branco, vermelho ou verde em dias de grande
solenidade, celebrando a glória de Deus.
Ambicionava
a Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel, um órgão para a
sua igreja mandada edificar, pelo ano de 1622, por Amaro Moreira,
venerável abade de S. Vicente de Ermelo, na serra do Marão,
Amarante.
Para
as solenidades religiosas, um órgão, era em verdade, quase
indispensável, embora os seus parcos recursos de dinheiros
disponíveis, não permitiam tal aquisição por todos desejada. Pois
não se compreendia a falta de um órgão numa igreja à qual D. José
I, conferia as honras de catedral a quando da criação do Bispado de
Penafiel a 1 de Junho de 1770, por bula do Santo Padre Clemente XIV.
Era
assim concebido por D. José I
este decreto:
Reverendo
Bispo de Penafiel.
Amigo
Eu
El-Rey , vos envio muito saudar.
Sendo-e
Reservado nas Letras Apostólicas do Santo Padre Clemente décimo
quarto, hora presidente na Venerável Igreja de Deos a invocação
com que devia ser denominada a Igreja da Santa Caza da cidade de
Penafiel, que pellas mesmas Letras Apostólicas na conformidade das
minhas propostas foi pello mesmo Santo Padre Erecta em Cathedral na
nova Diocese de Penafiel uzando das faculdades da dita rezerva:
Hei
por bem que se denomine de Nossa Senhora e S. José, e que de baixo
dos auspícios desta devotíssima invocação, passei a tomar posse
da dita Igreja Cathedral escripta no Palácio de Nossa Senhora da
Ajuda em 24 de Dezembro de 1761. Rey.
Entretanto
houve quem explanasse a ideia de se obter o órgão do extinto
Convento de Bustelo. Todos sabiam que o órgão era um instrumento
que à elegância da sua construção aliava um som magnífico que se
adaptava maravilhosamente aos cânticos religiosos impregnados de
doçura e piedade.
E
de tal modo se armou a teia dos pedidos e tamanho relevo se deu à
prosa pedinchona que lá se conseguiu obter o que se pretendia como
se pode ver no documento que se segue:
Sub-Prefeitura
de Penafiel, 4.ª Repartição -III.mo Sr.
Sirva-se
V. S. dar execução à Ordem que por cópia remeto a V. S. para que
o órgão de Bustelo tenha o destino nella marcado:
Deos
guarde a V.S.
Sub-Prefeitura
de Penafiel, 27 de Outubro de 1834
José
Garcez Pinto de Madureira
Sub-Prefeito
III:mo
Sr. Provedor do Concelho de Bustelo
Cópia
– Prefeitura do Douro, quarta Repartição. Número trinta e nove.
Illustríssimo
Senhor – Tendo Ordenado o Governo pelo Tribunal do Thezouro Público
que o Órgão do extinto Convento de Bustelo seja posto à disposição
do Provedor e Mesa actual da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel,
a fim de ser collocado na igreja da mesma Santa Casa, ordena o Sr.
Prefeito interino que Vossa Senhoria passe as ordens necessárias ao
Provedor do concelho respectivo para que seja cumprida a Determinação
do Governo, e o Depositário daquele extinto Convento facilita a
extração do Órgão para o destino que superiormente lhe foi dado:
o que participo a Vossa Senhoria para sua execução.
Deos
Guarde a Vossa Senhoria
Secretaria
da Prefeitura no Porto, dezassete de Outubro de mil oitocentos trinta
e quatro.
Illustríssimo
Senhor José Garcez Pinto de Madureira, António Luiz de Abreu,
Secretário Geral – Está conforme.
Secretário
da Sub Prefeitura no Porto, 27 de Outubro de 1834
Luiz
Venâncio Carneiro de Vasconcellos – Secretário.
Estava,
pois, a Santa Casa da Misericórdia de Penafiel de posse do Órgão
do Convento de Bustelo , como pouco antes obtivera os
paramentos pontificais de todas as cores do Convento de Paço de
Sousa .
Segundo
Abílio Miranda, na parte interna da cobertura do teclado do referido
órgão, há uma placa que diz o seguinte:
“Feito
este órgão por António José dos Santos Júnior, organeiro. Ano de
1882”.
Evidentemente,
que esta data, não pode ser da sua feitura mas sim de algum
restauro.
O
órgão da igreja da Misericórdia, foi obra dum abade do mosteiro de
Bustelo, Frei Varela organista e organeiro.
Foi
um dos abades gerais (Trienais) do citado mosteiro e de outros.
Este
pastor do rebanho beneditino, tinha o hábito de consumir ao que se
sabe muito rapé (tabaco de inalar), o que tinha como consequência
cobrir dele os teclados dos órgãos que maravilhosamente tangia.
Tinha
discípulos de música e chorava, quando, praticamente, reconhecia
que nenhum dos seus discípulos era capaz de tocar determinado órgão
da sua feitoria, tão complicado se apresentava de teclados,
registos, etc.
No
dia 12 de Maio de 2018, foram inauguradas, as obras de reabilitação,
conservação e restauro da Igreja da Misericórdia de Penafiel. Foi
a única vez que ouvi o órgão de tubos a debitar notas musicais
pelas mãos de Tiago Ferreira, licenciado
em Música Sacra pela Escola das Artes da Universidade Católica
Portuguesa, e professor de órgão na Escola Diocesana de Ministérios
Litúrgicos do Porto, no IV Curso Nacional de Música Litúrgica de
Fátima, e um dos organistas da Igreja da Lapa, no Porto, que tem o
maior órgão de tubos da Península Ibérica.
Por coincidência ou talvez não, neste dia e mês no ano de 1622,
foi lançada a
primeira pedra deste monumento.
Hoje
em dia, o órgão com seu ar imponente, apenas serve de decoração
na igreja da Misericórdia, já que o mesmo, não solta um som há
muitos anos, por falta de organista para o tanger.
Fernando
Oliveira – Furriel de Junho