01 setembro 2026

HOMENAGENS A ESTAS MÃES

 

HOMENAGENS A ESTAS MÃES





Quero homenagear todas as mães que viram durante os anos 60 e 70 os seus filhos a partirem para a Guerra Colonial.

Muitos jovens cumpriram o Serviço Militar Obrigatório, e a maior parte deles foi lançado neste conflito em África, melhor dizendo em Angola, Guiné e Moçambique.

Podem crer a única coisa boa que se extrai desses tempos de tropa é a amizade que se cria com malta que não conhecíamos de lado nenhum e que nos marcam para a vida neste percurso que se estende desde o embarque até ao regresso da guerra.

Estando eu já em Sacavém, e numa certa quinta-feira dia em que saíam as mobilizações, na lista lá vinha o meu nome para Angola.

Fiquei triste como todos os outros e quando vim a casa disse-o à minha Mãe, que não acreditou. De cada vez que o embarque era adiado e vinha de fim de semana a casa, à saída despedia-me como se fosse a última, mas para ela era sempre um até já.




Estas mulheres viram os seus filhos partirem, entre lágrimas, beijos e gritos dos corações despedaçados, cuja dor nunca mais as abandonou.





Zé Luís mestre na Escola Industrial de Penafiel, na sua poesia, descrevia a Despedida.

Vi-a...

De xaile sobre os ombros

só,

na tristeza dos escombros

do cais à beira-mar.



Que amargo interior,

que dor profunda a dela

e que calma no seu rosto,

sem lágrimas,

nem rugas na cara

alteradas

pela comoção

ou os dedos crispados

na carne de suas mãos!...

 

Estática,

como rocha do mar,

ela é um gesso escultural

erguido ao sofrimento,

onde traços de vida

são apenas seus cabelos,

brancos e pretos,

dispersos pelo vento

na solidão

no cais à beira-mar!...



O navio, barra fora,

leva seu trilho

rumo à distância

às lutas

ao Ultramar,

mas no coração

daquela pobre mãe

ficou seu filho.





Os filhos daquelas mães, agora combatentes, gravavam na memória o último sorriso brotado no último instante do adeus dos pais, dos irmãos ou irmãs e das namoradas, enquanto os lenços brancos acenavam, um gesto repetitivo em todos os embarques.

Estas mães daqueles filhos paridos com dor, criados com amor, com a esperança de os verem serem homens, pais capazes de lhes darem os netos ansiados, iam para a guerra e todos os sonhos de vida ficavam adiados por vezes interrompidos para sempre.

É claro que a figura da mãe estava sempre presente no espírito dos soldados. Mas eles raramente falavam nela, a não ser quando diziam, meio a sério, meio a brincar: "É para isto que uma mãe cria um filho".




 

De resto, um homem que é homem não se punha a chorar saudades da sua mãe diante de toda a gente, mas à noite na caserna, todos vertiam silenciosas lágrimas de saudade das suas mães, enquanto escreviam o aerograma, que para não as afligirem, lá lhe diziam que estava tudo bem, mesmo quando assim não era.




Aqui na terra no jornal “Notícias de Penafiel” havia uma página dedicada aos penafidelenses que se encontravam na Guerra Colonial com o título “AQUI É PORTUGAL” onde se reproduziam cartas enviadas pelos soldados. É numa destas páginas que retirei estes versos do soldado corneteiro 260/68, Alberto da Rocha Rodrigues, dedicados à sua Mãe.

Embora com falta de métrica e rima por vezes falhada, são versos sentidos que interpretam a voz do seu coração:

A Ti minha Mãe 

 

Oh minha Mãe adorada,

Como te quero tanto,

Para este teu filho,

Tu és o maior encanto


Eu te quero tanto,

Mãezinha querida,

és a joia mais bela,

de toda a minha vida


Em ti vivo a pensar,

Nesta longa solidão,

Oh! Mãe, trago-te sempre

No fundo do meu coração.


Se há momentos bons,

Na vida que estou a passar.

Para mim só são aqueles,

Em que te estou a recordar.


Quantas vezes eu recordo,

O dia da minha partida,

Havia uma santa em lágrimas

Eras tu minha mãezinha

 

Eu a a Deus por ti peço,

Não chores querida Mãe,

No dia do meu regresso,

A alegria voltará também


Estas quadras a ti dediquei,

Com todo o meu amor e carinho,

Do teu filho sempre querido

Recebe um terno beijinho.




Agora vou falar de outro tipo de mães que esta guerra criou, cujos filhos têm pais portugueses e mãe africana.

Estes eram transportados ás costas das mães, enquanto trabalhavam a terra, ou lavavam a roupa dos soldados no rio e viviam em palhotas.




Por vezes, colonizador e colonizada se “apaixonavam”, com a promessa de um casamento que no final da comissão era traída; outras vezes, elas lhes ofereciam serviços sexuais em troca de dinheiro ou comida, para amenizar a miséria que por lá graçava.




No final da guerra, muitas destas mães refizeram a sua vida, e no bilhete de identidade destes meninos não aparece o nome do pai biológico, mas do pai que o criou.

Mas se os sobrenomes podiam esconder a origem portuguesa, a cor da pele a denunciava, sendo apelidados de “filhos de tuga”.



Vila de Ribeirão - Vila Nova de Famalicão


Bem sei que na minha terra natal, nunca irá ser erigido um monumento às mães dos penafidelenses que estiveram na Guerra Colonial, quando se limita a ter uma chapa colocada no chão com os nomes dos conterrâneos mortos nesta mesma guerra.

Mas pelo menos em Cerveira e na Vila de Ribeirão (Vila Nova de Famalicão), existe um monumento ás mães que viram os seus filhos a irem para a Guerra nas ditas Províncias Ultramarinas da Guiné, Angola e Moçambique.

Nós por cá, temos um monumento ás Invasões Francesas, talvez para encobrir quem sabe a rendição do município de Penafiel.

Bem sei que os meninos de hoje, não foram à guerra, confundem instrução com cultura, destroem património municipal como quem apaga o passado que para eles é indiferente, que ter uma chapa no chão ou ao nível dos olhos (como devia ser), com os nomes dos filhos da terra que tombaram na Guerra Colonial, para eles é igual, e pronto, assim vai o mundo, com actualidades da santa terrinha que muitos apelidam de melhor do mundo, mas que nós bem sabemos que é tudo falso, mas de fato e gravata, com discursos circunstanciais e sorrisos fáceis, lá vão alimentando a mania das grandezas.

Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 agosto 2026

COISAS DA RÁDIO DO ANTIGAMENTE

 

COISAS DA RÁDIO

DO ANTIGAMENTE




Aos domingos de manhã, saía de casa em direcção à Igreja Matriz, com o catecismo na mão.

Pelo caminho, em muitas casas, os rádios tocavam alto e bom som, que subia a rua até se entranhar nos ouvidos das pessoas que por lá passavam.


Entrava na Igreja e lá me sentava à beira dos colegas, num banco corrido junto ao altar de Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, proclamada pelo rei D. João IV. Nesse tempo a celebração era a 8 de Dezembro, sendo feriado e Dia da Mãe.


A catequista lá ia ensinando a Doutrina Cristã, que decorávamos e lá íamos respondendo quando questionados, preparando-nos desta forma para a Comunhão Solene. No final assistíamos à missa das 10 horas e depois regressávamos a casa.




Pelo caminho lá estavam os rádios com as goelas no máximo, todas elas sintonizadas nos Emissores do Norte Reunidos, onde transmitiam em directo do Teatro Vale Formoso, situado na Rua Costa Cabral, na cidade do Porto, o programa Festival.




Ao passar junto a um deles, a dona lá me informou que estava a cantar a Maria de Fátima conhecida pelo Passarinho do Festival devido à sua tenra idade e a seguir ia cantar o nosso Fozcôa melhor dizendo Emílio dos Santos. E lá cheguei atrasado da hora habitual a casa, pois não podia deixar de ouvir o amigo que por vezes animava os leilões do Menino Jesus, aos domingos de tarde no Recreatório Paroquial.




Também, nesse tempo, faziam história dois programas humorísticos.

Da capital vinham “Os Parodiantes de Lisboa”, grupo fundado em 18 de Março de 1947, cujo primeiro programa foi transmitido pela Rádio Peninsular, que ia para o ar às Terças-feiras, pelas 20 horas e chamava-se “Parada da Paródia.




Com a permissão de publicidade radiofónica no começo de 1949, a vida dos Parodiantes mudou muito. Nesse mesmo ano, foi para o ar, através das antenas do Rádio Clube Português, o programa " Graça com Todos”, transmitido diariamente à hora do almoço 13 horas, e eram famosos pelos sketches como a dupla de detectives Patilhas (José Andrade), e o ajudante Ventoinha (Rui Andrade), Rádio Crime, o menino Arnestinho, o Delicadinho da Silva, o Compadre Alentejano, Meia Bola e Força, Manas Catatua, entre outros.





Já do Porto vinha a “Voz dos Ridículos”, com o slogan “A Voz dos Ridículos fala e o mundo acredita e ri”.


A equipa fundadora incluía nomes como João Manuel Antão, Castro Maia, Bê Veludo e o grande imitador Mena Matos.


O programa que misturava o humor, sátira e crítica social, à moda do Porto, era transmitido aos domingos entre as 13 e as 14 horas, o programa “Dos Fracos Não Reza a História”, com repetições em vários dias da semana.





Começou a ser transmitido na estação portuense Rádio Clube a 17 de Abril de 1945 e terminou na Rádio Festival a 25 de Julho de 2013.




Algumas expressões ficaram até hoje nas nossas vidas como: “Trabalha dedo, não tenhas medo”, “Pincha Malaquias, Pincha”, “Afinfa-lhe”, “Olha o boneco”, “Escacha o pessegueiro”, “Rebimba o malho”, e “O Bigodes de arame”, etc..



Outro fenómeno eram as novelas radiofónicas, sendo a de maior sucesso Simplesmente Maria, transmitida pela Rádio Renascença das 13h30 às 14h30, sendo a música do genérico interpretada por Tonicha.


O enredo baseara-se numa rapariga de 20 anos, Maria Ramos, analfabeta e com oito irmãos, que chega a Lisboa vinda de uma pequena aldeia para trabalhar como criada de servir, enviando todo o dinheiro ganho para a família. Durante a sua estadia na cidade, Maria conhece Alberto, jovem de uma família abastada a concluir os estudos em medicina. O romance entre eles floresce, resultando numa gravidez e no nascimento de um filho chamado Tony. Enquanto Teresa, empregada doméstica como Maria, oferece conselhos e orientações sobre a sua relação com a patroa, Carlos, amigo de Alberto, graceja sobre os avanços da conquista de Alberto. A família de Alberto rejeita o romance, forçando-o a partir para África.


Como não podia deixar de ser, depois de muitos sacrifícios, o casal Maria e Alberto consolida a sua relação, superando todas as barreiras sociais à época.






Agora passando à música, onde o Nacional Cançonetismo e o fado tomavam conta das emissoras, e o Zeca e o Adriano tocavam por aí à socapa, apareceu na Rádio Renascença uma lufada de ar fresco com o Programa “Página Um” de José Manuel Nunes, das 19h30m às 21h, que abria com o tema Page One do Grupo Portuense Pop Five Music Incorporated.


Era o tempo do Yé Yé, e por lá passaram The Beatles, os Stones, Shadows, Creedence Clearwater Revival, Joan Baez, Leonardo Choen, Chico Buarque, Elis Regina, Patxi Andion, Aguaviva, e os portugueses Sheiks, os Chinchilas, Gemini, Conjunto Académico João Paulo, Green Windows, Quinteto Académico, Quarteto 1111 que aparecia a cantar em português, e o Pop Five entre outros.


Estes quatro últimos chegaram a actuar na Festa do Lago em Penafiel.





Enquanto isto se ouvia nas nossas rádios, do lado oposto da Av. da Liberdade, o "S"inaleiro no cimo do seu palanque, mandava todos seguirem pela direita, como acontece com a maioria nos dias de hoje, mesmo sem sinaleiro, e depois de mais de meio século do 25 de Abril.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

28 julho 2026

OS MORTOS QUE FALTAM

 OS MORTOS QUE FALTAM




O site dos Veteranos de Guerra do Ultramar, está a fazer um excelente trabalho, sobre os soldados portugueses mortos desde 1954, ou seja desde a Invasão da Índia Portuguesa (Goa, Damão e Diu), até aos restantes pedaços de chão que eram Portugal até 1975.


As listagens são apresentadas por concelhos, por ordem alfabética, pelo que tive de ir para a letra P para aceder à listagem dos mortos do concelho de Penafiel.


Começa pelo nome, local e freguesia donde era natural, concelho, posto militar, ramo das forças armadas, quartel onde foi mobilizado, teatro de operações, unidade operacional, causa da morte, data da morte, local de sepultura.


Acontece que nessa listagem aparecem dois penafidelenses, que não constam na placa colocada no chão junto ao Monumentos aos Mortos da Grande Guerra, na Praça do Município.

 



São eles:


ALEXANDRE DA CUNHA

Natural de Alegria - Cabeça Santa - Penafiel – Furriel de Inf At - fazendo parte da Unidade Operacional BCac159 (CCS) – Angola, faleceu no dia 22.09.63, estando sepultado no cemitério de Malanje, próximo da capela, placa 2115


VICTOR DA SILVA PEREIRA

Natural de Sebolido - Penafiel - 1ºCabo 05292967 - Pelotão da PM2027 – Macau, morre em 26.10.68 - Sepultado na sua freguesia


Evidentemente que não venho reclamar que os seus nomes, sejam acrescentados à dita placa colocada no chão com os penafidelenses mortos no ultramar, porque já basta o esquecimento a que são votados, pois apenas são colocadas coroas de flores aos mortos da Grande Guerra em datas a que a eles e somente a eles dizem respeito.  

Mas se um dia se lembrarem do colocar uma placa com o nome deste penafidelenses que perderam a vida na Guerra Colonial ao nível dos nossos olhos, não se esqueçam de acrescentarem estes dois.


Enquanto não houver tal dignidade, deixem rolar como está, já que são menos dois a serem desrespeitados.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho


01 julho 2026

MEIA BOLA E FORÇA

 

MEIA BOLA E FORÇA



Já não me lembra de ter ido assistir ao vivo a um desafio de futebol. Para mim, o futebol deixou de ser um desporto para ser uma indústria, onde giram milhões.


Causa-me apreensão como é possível ser preciso tanto policiamento para conduzirem as claques aos estádios, assim como as mesmas conseguem infiltrar nas bancadas tantos artefactos pirotécnicos apesar de proibidos.


Reconheço que para mim o futebol era uma arte para atingir o golo, mas actualmente se tornou numa ciência cada vez mais estudada e desenvolvida.




Os recintos de jogos que antigamente eram de terra batida, hoje são relvados, deixando os guarda-redes de usarem joelheiras.






A bola que dantes a câmara de ar era revestida a couro e por isso, quando chovia ficavam empapada e muito pesada, hoje em dia as bolas de futebol são fabricadas com materiais sintéticos, garantindo impermeabilidade e leveza.


As camisolas para além de serem leves, não reterem o suor, permitirem a transpiração, dando maior elasticidade e conforto ao atleta, nem sempre foram assim, ficando molhadas, coladas ao dorso pesando muito mais quando encharcadas dificultando a sua agilidade.




Estou-me a lembrar do nosso conterrâneo Soares dos Reis, guarda-redes do F. C. do Porto sendo o primeiro penafidelense a envergar a camisola das quinas.


Nesse tempo usava camisola de lã grossa, que com chuva ficava pesadona. Assim Soares dos Reis não tinha nenhum problema em levar um guarda-chuva para a baliza.




Esta foto foi tirada durante um jogo disputado em Espinho, em cujo decurso, enquanto a bola anda por longe, Soares dos Reis, sempre atento ao desenrolar do desafio, se abriga no guarda-chuva de Lopes Carneiro, seu colega de equipa, que não alinhou neste encontro.

 





As traves da baliza que em tempos que já lá vão eram de madeira e quadradas, hoje são redondas e de metal.





As chuteiras que dantes tinham travessas de madeira, hoje têm pitões de metal que se ajustam mais à relva.





Agora com a tecnologia, todos os clubes sabem como o seu adversário joga e aqueles que é preciso anular em campo devido a serem craques da bola.





Assim aparecem as táticas, que nada são mais que a maneira de jogar rumo à vitória. Outros só pensam em não sofrerem golos defendendo com unhas e dentes a baliza. No tempo em que ia à bola, a mesma era posta em jogo pelos guarda-redes, ou pelo defesa que marcava o pontapé de baliza com um biqueirada para colocar a bola o mais longe possível da baliza. Agora saem a jogar desde a baliza, o que a perda geralmente é fatal e desagua em golo.





Os árbitros agora ajudados ou não pelo VAR, ontem como hoje levam com todos os impropérios do nosso léxito da malcriadez, sendo por vezes os culpados das derrotas.


Vemos alguns jogadores que por tudo e por nada beijam o emblema, como se amassem o clube acima de tudo, mas com o agitar de milhares de euros, nada nos garante que na época seguinte não enverguem outra camisola.




Aquele jogador que jogava por amor à camisola (como o grande capitão do F. C. de Penafiel Silva Pereira), desapareceu das Ligas, podendo ainda ser visível nos campeonatos regionais, onde ainda se abafam as derrotas e festejam as vitórias com um copo de vinho na tasca mais próxima que por vezes é o bar do próprio clube, acompanhado de algum apeguilho no pão.




A uniformização é transversal e em todo o lado o treinador passou a mister, o avançado centro a ponta de lança, e até fora das 4 linhas apareceram os apanha bolas. Embora não joguem propriamente dito, também fazem parte da tática do jogo retardando a entrega da mesma à equipa adversária caso o resultado esteja a nosso favor, entrega rápida quando não se pode perder mais tempo, ou então desaparecem para queimar o máximo de tempo na reposição da bola em jogo.



Como vêm, tudo isto é estudado ao pormenor, pois longe vai o tempo da meia bola e força.

 Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 junho 2026

A VIDA MENTIDA DE MARIA INOCÊNCIA

 

A VIDA MENTIDA

DE MARIA INOCÊNCIA



Maria Inocência é uma mulher magra, alta e conhecida por todos na terra.

Com apenas a 3.ª classe, sabia assinar o seu nome, ler e escrever embora com alguns erros, mas o marido era analfabeto ao ponto de no seu Bilhete de Identidade no lugar da sua assinatura aparecia a frase: Não sabe assinar.

Desde que a mãe morreu sempre a conheci vestida de luto, como de negro foi sempre a sua vida.

Vive com o seu Zé num barraco deixado pelos pais, com soalho de terra batida onde o frio entra por todos os lados, e a chuva sempre que cai os visita.

Maria e o seu marido, trabalham em casa do Sr. Doutor Marcos. Ela nas lides caseiras e o Zé nas tarefas agrícolas nos campos que rodeavam a moradia.

 




O meu Zé como ela o gostava de tratar, o único vício que tinha era o tabaco, sempre agarrado ao seu Kentucky no canto da boca.

Se o amor, o carinho e a amizades entre ambos era o que havia em abundância, a miséria, essa sentia-se em todo o resto e sentava-se à mesa nas horas das refeições.

O almoço da Maria e do Zé era feito na cozinha e as sobras que vinham da mesa da sala de jantar servido pela Maria Inocência ao Sr. Doutor e esposa quando estes a mandavam levantar, eram o jantar.

Na barriga da Inocência começou-se a notar um aumentar de volume, pelo que o seu patrão dr. Marcos em fala com ela lhe perguntou se queria abortar.

Nada disso, o meu menino virá ao mundo se Deus o assim quiser.

Antes dois meses de a bolha de água rebentar, Zé convence Maria que ali não há futuro para o nosso filho e o melhor seria alguém adotá-lo.




Foi então que se lembrou do seu comandante Almeida que não tinha qualquer filho e segundo constava sua esposa não lho podia dar. Logo ali ficou acordado que o menino seria registado à nascença e nunca por nunca o poderia saber quem eram seus pais verdadeiros. Assim, logo que viu a luz do dia ficou a chamar-se Dinis. Cresceu e matricularam-no no Colégio Militar em Lisboa não apenas para estudar, mas sim para seguir a carreira militar como seu pai.

Muitos anos Inocência e Zé deixaram de o ver.

Entretanto Maria volta a engravidar e desta vez o Sr. Doutor Marcos combina com eles que caso seja menina ele a adotaria.

- E se for um rapaz! - Deixa isso comigo.

Assim aconteceu e mais um filho do sexo masculino nasceu. Foi então que o sr. Albino dono de uma grande fábrica de confecções e a dona Esperança o adotou pois não tinham nenhum herdeiro. Sempre com a promessa que seus pais biológicos não mais se aproximavam dele e este segredo tinha que permanecer até à morte. O menino foi levado à Pia Baptismal com o nome de Jesus.

A vida lá foi andando e com dádivas de roupa do sr. Alípio e da Esperancinha, aos domingos tanto Maria Inocência como o Zéquita iam à missa muito mais janotas, mas ela sempre trajando de negro. Aí o boato apareceu que os filhos tinham sido vendidos por bom dinheiro, para aparecerem daquela maneira vestidos. Embora não fosse verdade entristeceu e muito o pobre casal.

Com as noites longas, o amor estava sempre na ordem do dia, ou melhor da noite, e como diz o povo que não há duas sem três, a Inocência engravidou de novo.

Desta vez foi menina e o Dr. Marcos cumpriu e aperfilhou-a e registou-a com o nome de Maria da Anunciação por ter nascido a 25 de Março dia em que se comemora a anunciação do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria de que ela seria a mãe de Jesus Cristo, concebido pelo Espírito Santo.

Com a sua amabilidade Inocência tudo fazia para atender os pedidos de Anunciação. Embalou-a no berço, viu-a crescer, a ir para a faculdade e a doutorar-se, tendo nesse dia servido um grande almoço com gente graúda cá do burgo.




Quando tudo parecia correr bem, o Zé adoeceu com a tuberculose, e o sr. Dr. Marcos internou-o no Sanatório de Louredo da Serra, local especializado para o tratamento dessa malvada doença. Apesar de todo o apoio e tratamentos aplicados, o Zé acabou por dar a alma ao Criador.

Perante este cenário, o Dr. Marcos ofereceu o quarto dos fundos para a viúva Inocência viver. Os seus haveres foram trazidos numa mala para o seu quarto, assim como um caderno onde Inocência registava todos os acontecimentos da sua vida, como se de um diário se tratasse.



Entretanto começa a Guerra Colonial, e dois batalhões são mobilizados para Angola. Despedem-se da cidade desfilando pelas ruas, onde nos passeios e das janelas apinhadas de gente acenam aos soldados com lenços brancos. À frente de um batalhão lá ia o Major Dinis e mais atrás o Jesus ambos filhos de Inocência que lhes acena com o lenço enquanto as lágrimas escorrem pelas faces ósseas da cara. Os seus meninos iam para a guerra. 

 


 

A vida na santa terrinha corria ao sabor do tempo, quando foi abalada pela morte de Jesus que pisou uma mina numa picada de terra barrenta.

No dia do seu funeral, o comércio encerrou as suas portas, as entidades municipais fecharam e todo o mundo se dirigiu ao cemitério a fim de se despedir deste herói que morreu a combater os terroristas em África. Houve salva de tiros quando o caixão desceu à terra.




No 10 de Junho, Dia da Raça, Dona Esperança deslocou-se a Lisboa, mais propriamente ao Terreiro do Paço, para receber a medalha de Cruz de Guerra de Valor Militar de ouro. O locutor lia os louvores das condecorações que eram atribuídas aos militares ou às suas famílias, quando concedidas a título póstumo.




Quando ouviu o seu nome, subiu à tribuna de honra montada para o efeito, onde estavam os mais altos dirigentes do regime. Foi condecorada pelo Presidente da República Américo Tomás, de uniforme branco de Almirante. No final da cerimónia, o clarim tocou a sentido, entoou-se o Hino Nacional, e as forças em parada desfilaram perante as altas entidades e os condecorados alinhados na tribuna.

Dinis fez comissão, atrás de comissão e de cada vez que ia e vinha da guerra colonial, subia um posto na sua carreira militar.




25 de Abril de 1974, o golpe militar que derrubou um regime e acabou com a guerra. O seu Dinis, fazia parte dos capitães de Abril, e o povo desceu à rua a dar vivas à Liberdade! Liberdade!

Mas Inocência, sabia que para si, ainda não tinha chegado a Liberdade para contar a sua vida mentida aos próprios filhos, mas essa, está toda escrita no seu caderninho, no quarto dos fundos.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 maio 2026

O CONDE DE FERREIRA

 

O CONDE DE FERREIRA

JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS 




Hoje vou falar de um tripeiro que financiou a construção da escola primária em Penafiel, onde aprendi a ler, escrever e contar.


Seu nome é Joaquim Ferreira dos Santos, que se dedicou à filantropia e distinguiu-se pelas suas obras de benemerência sem limites que começou a prodigalizar aos infelizes desprotegidos da sorte, foram-lhe pelo governo de então concedidos os seguintes títulos:





Torna-se Par do Reino em 1842, retomando a cidadania portuguesa,sendo nomeado Fidalgo, Cavaleiro da Casa Real, membro do Conselho da Rainha D. Maria II, Comendador da Ordem Militar de Cristo, e da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Recebeu a Grão-Cruz da Ordem de Isabel a Católica de Espanha e foi sucessivamente Barão de Ferreira, em 7 de Outubro de 1842, Visconde de Ferreira em 22 de Junho de 1843, e Conde de Ferreira em 6 de Agosto de 1850.


Nasceu a 4 de Outubro de 1782, no Lugar de Vila Meã, actual lugar de Azevedo, na freguesia de Campanhã, na cidade do Porto. Era o quinto filho de uma família de agricultores. Entrou no seminário mas cedo o abandonou, para aos 14 anos, se tornar caixeiro na cidade do Porto.


No ano de 1800, emigrou para o Rio de Janeiro, Brasil à procura de trabalho mais compensador.


Assim, em terras de Santa Cruz, dedicou-se ao comércio de produtos alimentares enviados de e para o Porto.


Brasão de Joaquim Ferreira dos Santos


Entretanto casa com a argentina Severa Lastro, e adquiriu a nacionalidade brasileira aquando da independência do Brasil, tendo sido agraciado por D. Pedro com a comenda da Ordem de Cristo (em recompensa de uma beneficência).


Cedo descobriu o rentável negócio que na época prosperava no Brasil, o açúcar e a mão de obra escrava.


Vai a Angola mais propriamente a Cabinda e começa a comercializar escravos, até ao ano de 1830, em que é abolida a escravatura no Brasil. Bafejado pela sorte, conseguiu amealhar durante algumas décadas uma enorme fortuna.


No entanto, Joaquim Ferreira dos Santos, começa a ter problemas com a justiça brasileira, sendo acusado de tráfego de escravos, sendo apelidado de negreiro e esclavagista.




Regressado a Portugal por volta de 1840, fixou residência na freguesia do Bonfim, na cidade do Porto, onde faleceu com 84 anos, no dia 24 de Março de 1866.


Sem deixar descendência directa, doou a sua enorme fortuna, perpetuando assim o seu nome em obras de grande significativo e impacto na sociedade portuguesa. No seu testamento, não esqueceu as crianças com o pão do espírito que quase não existia nessa época, construindo grande número de escolas e ajudando assim a transformar a pré-história que chegou ao princípio do nosso século, tornando-se um dos obreiros da proto-história e da civilização que as gerações actuais desfrutam.


Entre outros beneficiados contam-se muitos colaboradores, parentes, amigos, e várias instituições e fundações de beneficência e utilidade social, como as Santas Casas da Misericórdia do Porto e do Rio de Janeiro (com a obrigação de vestirem 24 e 12 pobres, respetivamente, no aniversário do seu falecimento).




Destinou verbas substanciais para a construção de 120 Escolas de Instrução Primária, para ambos os sexos, colocando como condição que as escolas fossem construídas por todo o país, em vilas e sedes de concelho, todas com a mesma planta e com comodidades para os professores para aí residirem. Depois de terminadas, deveriam ser entregues às respetivas juntas de paróquia. As “Escolas Conde de Ferreira”, com um estilo arquitetónico próprio, inconfundível, foram um marco muito relevante na história da educação e do ensino público em Portugal.




Foi Penafiel uma das localidades escolhidas para perpetuar a memória deste grande benemérito, com a edificação duma escola de instrução primária, em cumprimento duma pequena parte dum dos seus legados. Na fachada principal, por debaixo da sineta coroada por um frontão triangular, vemos gravada na pedra a data 24 de Março de 1866, a qual corresponde ao dia em que Conde de Ferreira faleceu.




Entre outras grandes obras de realce temos o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, no Porto, destinado a doentes de foro psiquiátrico.



Joaquim Ferreira dos Santos, o Conde de Ferreira, está sepultado no cemitério de Agramonte, no Porto, tendo um mausoléu com a sua figura esculpida em mármore de Carrara, por António de Soares dos Reis, o mesmo autor da estátua que se encontra à entrado do Hospital Conde de Ferreira.


Segundo a minha modesta opinião, o Conde de Ferreira, deverá ser visto tendo em conta os valores morais e éticos da época em que viveu. A escravatura nunca havia de ter existido, mas não a podemos nem a devemos esquecer, mas sim aprender com os erros, inclusive da nossa História.


Apesar de sermos contemplados com uma escola primária, feita em parte com lucros vindos da comercialização de escravos, o seu nome faz parte da toponímia da cidade de Penafiel, unindo a Rua Conde de Ferreira a Av. Sacadura Cabral com a Rua do Bom Retiro e com a Rua Fontes Pereira de Melo.




Moral da história...

Se é verdade que devemos fazer bem, sem olhar a quem, não interessando donde o dinheiro vem, quando é para nosso bem.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho