AS PEIXEIRAS E A PRAÇA
AS PEIXEIRAS E A PRAÇA
Mal rompia o dia, já a carrinha de caixa aberta ia a caminho da lota de Matosinhos para carregar, o peixe destinado ao mercado de Penafiel.
Na Praça do Mercado as mangueiras limpavam as bancas do peixe, com a força da água, sob o olhar atento do Sr. Monteiro da Sardinha, do Presidente da Câmara Sr. Coronel Fontes e do sr. Belo guarda do mercado.
As peixeiras iam chegando e acertando contas com o Sr. Monteiro, do peixe levado para a venda do dia anterior e apontado no livro dos fiados.
As peixeiras trajavam saia e blusa geralmente de cor preta, usavam um xaile traçado nos ombros, um avental de chita onde guardavam o apuro do dia e os trocos. Nos pés usavam meias grossas e calçavam socas.
Lenços atados sob os queixos cruzados à cabeça, e sobre ele rodilhas de pano que amparavam o peso da canastra de madeira onde transportava o peixe pelas ruas da cidade.
Suportavam à cabeça pesos consideráveis, expostas ao sol e à chuva e ao vento, percorrendo as ruas e vielas da cidade, mantendo viva uma economia familiar quase invisível, mas vital para a sua subsistência.
Partiam manhã cedo da Praça do Mercado para garantirem ás freguesas o peixe do dia.
A sua presença era feita por pregões como: Chamando a clientela com “Ó freguesa venha ver”, “ Sardinha Fresquinha” ou para anunciar que o peixe era mesmo fresco nada melhor que a “Sardinha vivinha”,
Na canastra o forte era a sardinha, principalmente no mês de Junho quando se festejam com sardinhadas os santos populares (dia 13 o Santo António, 24 o S. João e o S. Pedro a 29). O carapau e a faneca também eram peixes diários, mas a pescada só por encomenda devido ao seu elevado preço.
A peixeira Maria da Luz que vemos na foto, volta e meia para além da canastra à cabeça, aparecia com esta cesta de vime nos braços, que transportava ameijoas para a venda.
Com o aparecimento das grandes superfícies comerciais, esta vivência desapareceu e com ela todo o quadro humano, a voz de um povo que sabia levar o sustento ao coração da cidade.
E para recordar-mos esses tempo idos, ficam-nos as fotos antigas que o registaram.
Se antigamente a sardinha foi a única proteína acessível à maioria da população portuguesa, consumida pelas classes pobres da sociedade, e mesmo assim a tinha que repartir tal era a miséria que grassava neste país, hoje está pela hora da morte.
A Praça do Mercado desapareceu para dar lugar a uma grande argamassa de cimento, as peixeiras com os seus pregões pertencem ao passado, tudo isto dando lugar a bancas carregadas de gelo com o peixe exposto nos super mercados, mas sem a beleza e o encanto que tinha a nossa Praça.
Mas como escrevia Camões, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.
Hoje a peixeirada nacional, filiada em várias confrarias, reúnem-se regularmente em S. Bento. Insultam-se com os seus pregões, enquanto apregoam peixe podre por bom, tentando impingir o seu produto como o melhor do mundo, embora todos sabemos que não passa do prato do dia cozinhado pelo Mestre André, no restaurante Monte Negro. Não sei o que lhe passou pela tola, que ao dar uma cambalhota acrobática na cozinha, não só virou o estrugido, estragou o cozinhado, como entornou todo o conteúdo do Pacote do Luís.
-Pois é! - Há males que vêm por bem.
Fernando Oliveira – Furriel de Junho

















































