01 julho 2026

MEIA BOLA E FORÇA

 

MEIA BOLA E FORÇA



Já não me lembra de ter ido assistir ao vivo a um desafio de futebol. Para mim, o futebol deixou de ser um desporto para ser uma indústria, onde giram milhões.


Causa-me apreensão como é possível ser preciso tanto policiamento para conduzirem as claques aos estádios, assim como as mesmas conseguem infiltrar nas bancadas tantos artefactos pirotécnicos apesar de proibidos.


Reconheço que para mim o futebol era uma arte para atingir o golo, mas actualmente se tornou numa ciência cada vez mais estudada e desenvolvida.




Os recintos de jogos que antigamente eram de terra batida, hoje são relvados, deixando os guarda-redes de usarem joelheiras.






A bola que dantes a câmara de ar era revestida a couro e por isso, quando chovia ficavam empapada e muito pesada, hoje em dia as bolas de futebol são fabricadas com materiais sintéticos, garantindo impermeabilidade e leveza.


As camisolas para além de serem leves, não reterem o suor, permitirem a transpiração, dando maior elasticidade e conforto ao atleta, nem sempre foram assim, ficando molhadas, coladas ao dorso pesando muito mais quando encharcadas dificultando a sua agilidade.




Estou-me a lembrar do nosso conterrâneo Soares dos Reis, guarda-redes do F. C. do Porto sendo o primeiro penafidelense a envergar a camisola das quinas.


Nesse tempo usava camisola de lã grossa, que com chuva ficava pesadona. Assim Soares dos Reis não tinha nenhum problema em levar um guarda-chuva para a baliza.




Esta foto foi tirada durante um jogo disputado em Espinho, em cujo decurso, enquanto a bola anda por longe, Soares dos Reis, sempre atento ao desenrolar do desafio, se abriga no guarda-chuva de Lopes Carneiro, seu colega de equipa, que não alinhou neste encontro.

 





As traves da baliza que em tempos que já lá vão eram de madeira e quadradas, hoje são redondas e de metal.





As chuteiras que dantes tinham travessas de madeira, hoje têm pitões de metal que se ajustam mais à relva.





Agora com a tecnologia, todos os clubes sabem como o seu adversário joga e aqueles que é preciso anular em campo devido a serem craques da bola.





Assim aparecem as táticas, que nada são mais que a maneira de jogar rumo à vitória. Outros só pensam em não sofrerem golos defendendo com unhas e dentes a baliza. No tempo em que ia à bola, a mesma era posta em jogo pelos guarda-redes, ou pelo defesa que marcava o pontapé de baliza com um biqueirada para colocar a bola o mais longe possível da baliza. Agora saem a jogar desde a baliza, o que a perda geralmente é fatal e desagua em golo.





Os árbitros agora ajudados ou não pelo VAR, ontem como hoje levam com todos os impropérios do nosso léxito da malcriadez, sendo por vezes os culpados das derrotas.


Vemos alguns jogadores que por tudo e por nada beijam o emblema, como se amassem o clube acima de tudo, mas com o agitar de milhares de euros, nada nos garante que na época seguinte não enverguem outra camisola.




Aquele jogador que jogava por amor à camisola (como o grande capitão do F. C. de Penafiel Silva Pereira), desapareceu das Ligas, podendo ainda ser visível nos campeonatos regionais, onde ainda se abafam as derrotas e festejam as vitórias com um copo de vinho na tasca mais próxima que por vezes é o bar do próprio clube, acompanhado de algum apeguilho no pão.




A uniformização é transversal e em todo o lado o treinador passou a mister, o avançado centro a ponta de lança, e até fora das 4 linhas apareceram os apanha bolas. Embora não joguem propriamente dito, também fazem parte da tática do jogo retardando a entrega da mesma à equipa adversária caso o resultado esteja a nosso favor, entrega rápida quando não se pode perder mais tempo, ou então desaparecem para queimar o máximo de tempo na reposição da bola em jogo.



Como vêm, tudo isto é estudado ao pormenor, pois longe vai o tempo da meia bola e força.

 Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 junho 2026

A VIDA MENTIDA DE MARIA INOCÊNCIA

 

A VIDA MENTIDA

DE MARIA INOCÊNCIA



Maria Inocência é uma mulher magra, alta e conhecida por todos na terra.

Com apenas a 3.ª classe, sabia assinar o seu nome, ler e escrever embora com alguns erros, mas o marido era analfabeto ao ponto de no seu Bilhete de Identidade no lugar da sua assinatura aparecia a frase: Não sabe assinar.

Desde que a mãe morreu sempre a conheci vestida de luto, como de negro foi sempre a sua vida.

Vive com o seu Zé num barraco deixado pelos pais, com soalho de terra batida onde o frio entra por todos os lados, e a chuva sempre que cai os visita.

Maria e o seu marido, trabalham em casa do Sr. Doutor Marcos. Ela nas lides caseiras e o Zé nas tarefas agrícolas nos campos que rodeavam a moradia.

 




O meu Zé como ela o gostava de tratar, o único vício que tinha era o tabaco, sempre agarrado ao seu Kentucky no canto da boca.

Se o amor, o carinho e a amizades entre ambos era o que havia em abundância, a miséria, essa sentia-se em todo o resto e sentava-se à mesa nas horas das refeições.

O almoço da Maria e do Zé era feito na cozinha e as sobras que vinham da mesa da sala de jantar servido pela Maria Inocência ao Sr. Doutor e esposa quando estes a mandavam levantar, eram o jantar.

Na barriga da Inocência começou-se a notar um aumentar de volume, pelo que o seu patrão dr. Marcos em fala com ela lhe perguntou se queria abortar.

Nada disso, o meu menino virá ao mundo se Deus o assim quiser.

Antes dois meses de a bolha de água rebentar, Zé convence Maria que ali não há futuro para o nosso filho e o melhor seria alguém adotá-lo.




Foi então que se lembrou do seu comandante Almeida que não tinha qualquer filho e segundo constava sua esposa não lho podia dar. Logo ali ficou acordado que o menino seria registado à nascença e nunca por nunca o poderia saber quem eram seus pais verdadeiros. Assim, logo que viu a luz do dia ficou a chamar-se Dinis. Cresceu e matricularam-no no Colégio Militar em Lisboa não apenas para estudar, mas sim para seguir a carreira militar como seu pai.

Muitos anos Inocência e Zé deixaram de o ver.

Entretanto Maria volta a engravidar e desta vez o Sr. Doutor Marcos combina com eles que caso seja menina ele a adotaria.

- E se for um rapaz! - Deixa isso comigo.

Assim aconteceu e mais um filho do sexo masculino nasceu. Foi então que o sr. Albino dono de uma grande fábrica de confecções e a dona Esperança o adotou pois não tinham nenhum herdeiro. Sempre com a promessa que seus pais biológicos não mais se aproximavam dele e este segredo tinha que permanecer até à morte. O menino foi levado à Pia Baptismal com o nome de Jesus.

A vida lá foi andando e com dádivas de roupa do sr. Alípio e da Esperancinha, aos domingos tanto Maria Inocência como o Zéquita iam à missa muito mais janotas, mas ela sempre trajando de negro. Aí o boato apareceu que os filhos tinham sido vendidos por bom dinheiro, para aparecerem daquela maneira vestidos. Embora não fosse verdade entristeceu e muito o pobre casal.

Com as noites longas, o amor estava sempre na ordem do dia, ou melhor da noite, e como diz o povo que não há duas sem três, a Inocência engravidou de novo.

Desta vez foi menina e o Dr. Marcos cumpriu e aperfilhou-a e registou-a com o nome de Maria da Anunciação por ter nascido a 25 de Março dia em que se comemora a anunciação do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria de que ela seria a mãe de Jesus Cristo, concebido pelo Espírito Santo.

Com a sua amabilidade Inocência tudo fazia para atender os pedidos de Anunciação. Embalou-a no berço, viu-a crescer, a ir para a faculdade e a doutorar-se, tendo nesse dia servido um grande almoço com gente graúda cá do burgo.




Quando tudo parecia correr bem, o Zé adoeceu com a tuberculose, e o sr. Dr. Marcos internou-o no Sanatório de Louredo da Serra, local especializado para o tratamento dessa malvada doença. Apesar de todo o apoio e tratamentos aplicados, o Zé acabou por dar a alma ao Criador.

Perante este cenário, o Dr. Marcos ofereceu o quarto dos fundos para a viúva Inocência viver. Os seus haveres foram trazidos numa mala para o seu quarto, assim como um caderno onde Inocência registava todos os acontecimentos da sua vida, como se de um diário se tratasse.



Entretanto começa a Guerra Colonial, e dois batalhões são mobilizados para Angola. Despedem-se da cidade desfilando pelas ruas, onde nos passeios e das janelas apinhadas de gente acenam aos soldados com lenços brancos. À frente de um batalhão lá ia o Major Dinis e mais atrás o Jesus ambos filhos de Inocência que lhes acena com o lenço enquanto as lágrimas escorrem pelas faces ósseas da cara. Os seus meninos iam para a guerra. 

 


 

A vida na santa terrinha corria ao sabor do tempo, quando foi abalada pela morte de Jesus que pisou uma mina numa picada de terra barrenta.

No dia do seu funeral, o comércio encerrou as suas portas, as entidades municipais fecharam e todo o mundo se dirigiu ao cemitério a fim de se despedir deste herói que morreu a combater os terroristas em África. Houve salva de tiros quando o caixão desceu à terra.




No 10 de Junho, Dia da Raça, Dona Esperança deslocou-se a Lisboa, mais propriamente ao Terreiro do Paço, para receber a medalha de Cruz de Guerra de Valor Militar de ouro. O locutor lia os louvores das condecorações que eram atribuídas aos militares ou às suas famílias, quando concedidas a título póstumo.




Quando ouviu o seu nome, subiu à tribuna de honra montada para o efeito, onde estavam os mais altos dirigentes do regime. Foi condecorada pelo Presidente da República Américo Tomás, de uniforme branco de Almirante. No final da cerimónia, o clarim tocou a sentido, entoou-se o Hino Nacional, e as forças em parada desfilaram perante as altas entidades e os condecorados alinhados na tribuna.

Dinis fez comissão, atrás de comissão e de cada vez que ia e vinha da guerra colonial, subia um posto na sua carreira militar.




25 de Abril de 1974, o golpe militar que derrubou um regime e acabou com a guerra. O seu Dinis, fazia parte dos capitães de Abril, e o povo desceu à rua a dar vivas à Liberdade! Liberdade!

Mas Inocência, sabia que para si, ainda não tinha chegado a Liberdade para contar a sua vida mentida aos próprios filhos, mas essa, está toda escrita no seu caderninho, no quarto dos fundos.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 maio 2026

O CONDE DE FERREIRA

 

O CONDE DE FERREIRA

JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS 




Hoje vou falar de um tripeiro que financiou a construção da escola primária em Penafiel, onde aprendi a ler, escrever e contar.


Seu nome é Joaquim Ferreira dos Santos, que se dedicou à filantropia e distinguiu-se pelas suas obras de benemerência sem limites que começou a prodigalizar aos infelizes desprotegidos da sorte, foram-lhe pelo governo de então concedidos os seguintes títulos:





Torna-se Par do Reino em 1842, retomando a cidadania portuguesa,sendo nomeado Fidalgo, Cavaleiro da Casa Real, membro do Conselho da Rainha D. Maria II, Comendador da Ordem Militar de Cristo, e da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Recebeu a Grão-Cruz da Ordem de Isabel a Católica de Espanha e foi sucessivamente Barão de Ferreira, em 7 de Outubro de 1842, Visconde de Ferreira em 22 de Junho de 1843, e Conde de Ferreira em 6 de Agosto de 1850.


Nasceu a 4 de Outubro de 1782, no Lugar de Vila Meã, actual lugar de Azevedo, na freguesia de Campanhã, na cidade do Porto. Era o quinto filho de uma família de agricultores. Entrou no seminário mas cedo o abandonou, para aos 14 anos, se tornar caixeiro na cidade do Porto.


No ano de 1800, emigrou para o Rio de Janeiro, Brasil à procura de trabalho mais compensador.


Assim, em terras de Santa Cruz, dedicou-se ao comércio de produtos alimentares enviados de e para o Porto.


Brasão de Joaquim Ferreira dos Santos


Entretanto casa com a argentina Severa Lastro, e adquiriu a nacionalidade brasileira aquando da independência do Brasil, tendo sido agraciado por D. Pedro com a comenda da Ordem de Cristo (em recompensa de uma beneficência).


Cedo descobriu o rentável negócio que na época prosperava no Brasil, o açúcar e a mão de obra escrava.


Vai a Angola mais propriamente a Cabinda e começa a comercializar escravos, até ao ano de 1830, em que é abolida a escravatura no Brasil. Bafejado pela sorte, conseguiu amealhar durante algumas décadas uma enorme fortuna.


No entanto, Joaquim Ferreira dos Santos, começa a ter problemas com a justiça brasileira, sendo acusado de tráfego de escravos, sendo apelidado de negreiro e esclavagista.




Regressado a Portugal por volta de 1840, fixou residência na freguesia do Bonfim, na cidade do Porto, onde faleceu com 84 anos, no dia 24 de Março de 1866.


Sem deixar descendência directa, doou a sua enorme fortuna, perpetuando assim o seu nome em obras de grande significativo e impacto na sociedade portuguesa. No seu testamento, não esqueceu as crianças com o pão do espírito que quase não existia nessa época, construindo grande número de escolas e ajudando assim a transformar a pré-história que chegou ao princípio do nosso século, tornando-se um dos obreiros da proto-história e da civilização que as gerações actuais desfrutam.


Entre outros beneficiados contam-se muitos colaboradores, parentes, amigos, e várias instituições e fundações de beneficência e utilidade social, como as Santas Casas da Misericórdia do Porto e do Rio de Janeiro (com a obrigação de vestirem 24 e 12 pobres, respetivamente, no aniversário do seu falecimento).




Destinou verbas substanciais para a construção de 120 Escolas de Instrução Primária, para ambos os sexos, colocando como condição que as escolas fossem construídas por todo o país, em vilas e sedes de concelho, todas com a mesma planta e com comodidades para os professores para aí residirem. Depois de terminadas, deveriam ser entregues às respetivas juntas de paróquia. As “Escolas Conde de Ferreira”, com um estilo arquitetónico próprio, inconfundível, foram um marco muito relevante na história da educação e do ensino público em Portugal.




Foi Penafiel uma das localidades escolhidas para perpetuar a memória deste grande benemérito, com a edificação duma escola de instrução primária, em cumprimento duma pequena parte dum dos seus legados. Na fachada principal, por debaixo da sineta coroada por um frontão triangular, vemos gravada na pedra a data 24 de Março de 1866, a qual corresponde ao dia em que Conde de Ferreira faleceu.




Entre outras grandes obras de realce temos o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, no Porto, destinado a doentes de foro psiquiátrico.



Joaquim Ferreira dos Santos, o Conde de Ferreira, está sepultado no cemitério de Agramonte, no Porto, tendo um mausoléu com a sua figura esculpida em mármore de Carrara, por António de Soares dos Reis, o mesmo autor da estátua que se encontra à entrado do Hospital Conde de Ferreira.


Segundo a minha modesta opinião, o Conde de Ferreira, deverá ser visto tendo em conta os valores morais e éticos da época em que viveu. A escravatura nunca havia de ter existido, mas não a podemos nem a devemos esquecer, mas sim aprender com os erros, inclusive da nossa História.


Apesar de sermos contemplados com uma escola primária, feita em parte com lucros vindos da comercialização de escravos, o seu nome faz parte da toponímia da cidade de Penafiel, unindo a Rua Conde de Ferreira a Av. Sacadura Cabral com a Rua do Bom Retiro e com a Rua Fontes Pereira de Melo.




Moral da história...

Se é verdade que devemos fazer bem, sem olhar a quem, não interessando donde o dinheiro vem, quando é para nosso bem.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

01 abril 2026

O LEAL ESPERA UM MILAGRE

 

O LEAL ESPERA UM MILAGRE



O meu amigo Leal, sempre foi um rapaz do reviralho. Na escola não tinha grandes amigos embora fosse um aluno de excelência, e a razão para tudo isto é que não deixava copiar nos pontos. Pouco sociável, não saía com a malta aos fins de semana para jogar a bola no campo da feira, ou dar uma volta numa bicicleta alugada no Zé das bicicletas.




Não frequentava bailes populares como o de Santo António, na Garagem Egas Moniz, ou no de S. João organizado pelo Toninho Gravato na Rua Mário de Oliveira com o conjunto do Santoinho a animar o mesmo.

Era o que se podia chamar um bicho do buraco, e na escola era conhecido pelo marrão, por marrar longos tempos nos livros, mas isso era o mal de inveja a funcionar.




Com o 25 de Abril, o Leal despertou e abraçou este ideal de Liberdade, apoiando todas as lutas por um país muito melhor. Dava aulas gratuitas a pessoas que nem sequer sabiam escrever o seu nome.

Era solidário com as lutas dos trabalhadores por melhores condições de segurança, higiene e salários. Abraçou a luta contra as privatizações, que segundo ele era a venda do país a retalho.

 



Muitas das vezes nos cruzamos em manifestações e uma que sempre o encontrava e o cumprimentava acenando-lhe com o punho fechado era no 1.º de Maio, que ele no meio da multidão correspondia da mesma forma.


Depois vieram causas novas, que o meu amigo Leal abraçou com todo o afinco, como os direitos dos animais. Ainda hoje os trata com tanto carinho, que parece que os animais o compreendem quando ele fala com eles.




Mais tarde apareceu com a defesa do património e lá foi dar o corpo ao manifesto para o Mozinho, ajudando a pôr ao leu as pedras de um passado enterrado. Descobriu que nas campas dos nossos antepassados longínquos haviam moedas e louças em barro. Segundo o Leal, naquele tempo julgava-se que os mortos partiam e nessa viagem precisavam de comida e de dinheiro, para o caminho. 




Um dia fui com o meu amigo Leal ver a Anta de Santa Marta e as sepulturas escavadas na rocha que se encontram ao lado da mesma. Aí apareceu um fulano que não o conhecíamos de lado nenhum e mete conversa com ar de sabichão afirmando que naquela sepultura foi enterrada uma criança.




O Leal retorquiu que ali não foi sepultada qualquer criança, mas sim uma pessoa adulta. E nada melhor que uma aposta para resolver o caso. O Leal foi à mala do carro, tirou uma vassoura e começou a varrer e a limpar uma daquelas sepulturas. No final deitou-se nela. Agora já posso dizer que já vi um homem aqui deitado, afirmou o fala barato.




Nunca o vi tão zangado quando trocaram o busto do Egas Moniz, pela Serpe.




Aí foi uma enxurrada de impropérios, apelidando os autores desta façanha de não serem portugueses de gema. Como que a dar-lhe razão lá mandaram a Serpe para Magikland em Marecos, mas no seu lugar apareceu o Quim dos Ralis, o que foi uma decepção, para o Leal que no seu entender corrigiram um erro com outro erro. E com aquele ar de gozo lá foi dizendo que quem assim procede com tanto bota-abaixo ainda vai a deputado da oposição, ou até quem sabe, mais tarde a algum governo deste país.




Falando sobre o que fizeram ao jardim que rodeia o Santuário de Nossa Senhora da Piedade e Santos Passos, cortando a meio aquele espelho de água daquele Lago onde durante muitos anos se dançou nos Segundos Sábados de Setembro, na famosa Festa do Lago, com conjuntos na berra a tocarem ao vivo.  

 






Como se isso não bastasse, agora taparam com terra as campas que estavam a descoberto no local onde existiu a capela de S. Bartolomeu. Mas a lata desta gente é tal, que colocaram em letras garrafais “EU AMO PENAFIEL” em que o amo é feito com um coração, aderindo a esta moda que atravessa o mundo, mas sem qualquer sentimento de amor à terra.





Outra bandeira é a do ambiente. 

 


Lá anda o Leal a apregoar o aquecimento global, que vai desaguar em cheias, que é necessário plantar mais árvores para segurar com as suas raízes as terras para que não haja desabamentos e purificar o ar, que devemos preferir os transportes públicos como o comboio em vez do carro para diminuir a poluição. Ninguém ouve os recados do amigo Leal, e depois ligamos a televisão e é o ai Jesus.




Qual não é o meu espanto ao ver na Procissão do Enterro do Senhor, realizada na Sexta-Feira Santa o meu amigo Leal de vela na mão junto aos homens das matracas que assinalam o aproximar da procissão.




Depois vim a saber que faz parte do grupo coral da paróquia que anima as celebrações litúrgicas, particularmente a missa dominical. Por vezes sob ao púlpito e faz a leitura do Evangelho durante a missa.

Ontem entrei no café e lá estava o amigo Leal, sentado numa mesa a fazer as palavras cruzadas do jornal. Sentei-me à sua beira e lá falamos das coisas da vida.


O Leal é um homem desencantado, pois depois de tanta luta, vemos que os corruptos é que se safam neste mundo, que os medíocres é que nos governam, e mentem-nos com quantos dentes têm para levarem a água ao seu moinho.




Por isso cheguei à conclusão que o único revolucionário foi Jesus Cristo.


Nasceu pobre e morreu pobre como nós.


Falou a verdade e foi perseguido, torturado e morto, como os homens com carácter de agora.


Foi traído (como eu fui até pelo meu próprio partido), e vendido por Judas, que tem muitos seguidores neste rectângulo à beira-mar plantado.





Em jeito de despedida e de aviso, lá me foi alertando que não há nenhum partido que nos salve por mais Salazares que tenha nos seus quadros como nos fazem crer, porque isto está tão mal que só um milagre é que nos salva.


Depois de uma bacalhoada, lá fomos à vida com o Fado, Futebol e Fátima do antigamente, a massacrar-nos a mente.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

22 março 2026

A DESOBRIGA PASCAL NA ESCOLA INDUSTRIAL DE PENAFIEL

 

A DESOBRIGA PASCAL

NA ESCOLA INDUSTRIAL DE PENAFIEL




A desobriga pascal, não é mais nem menos, do que um conceito quaresmal, que consiste em que os católicos confessem os seus pecados, recebam a absolvição dos mesmos e façam o acto de contrição que geralmente consiste numa carrada de Pais-Nosso e Avés-Maria.


Assim, antes de partirem para as férias da Páscoa, professores, alunos e alunas, dirigiam-se ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade, situado no alto do jardim que cerca o templo, para cumprir este preceito religioso a fim de limparem as suas almas perante o Senhor.

 

  

No final, para além da fotografia da família (escolar), na escadaria do Santuário, eram distribuídos santinhos com desenhos de autoria dos professores: Escultor Júlio Geraldes e Escultor Negrão, alusivos à época quaresmal.

 

COMUNHÃO PASCAL REALIZADA NO DIA 10 de MARÇO DE 1964

Seguem-se quatro exemplares destas estampas (1963 a 1966), para a malta recordar.  




 




Já passaram mais de sessenta anos, sobre estes acontecimentos escolares, onde se cumpria o 3.º Mandamento da Santa Igreja,  em que todo o Cristão devia Comungar pela Páscoa da Ressurreição. 
 
Hoje não sei, mas estou em crer que a maior parte dos crentes está como S. Tomé, embora felizes são aqueles que acreditam sem ver, afinal de contas as religiões assentam na fé.
 
Mas com tanta guerra, fome, rapina, malvadez e corrupção, não lhes perdoes Senhor, porque eles bem sabem o que fazem.  
 
 Fernando Oliveira - Furriel de Junho