07 julho 2021

CHEGADA DA ÁGUA CANALIZADA A RIO MAU

 

CHEGADA A RIO MAU

DA ÁGUA CANALIZADA

 


Um dos gestos que vai perdurar para além do Europeu de Futebol de 2021, é aquele em que Cristiano Ronaldo, capitão da Selecção Portuguesa de Futebol afastou as duas garrafas de Coca-Cola que estavam em cima da mesa da sala das conferências de imprensa e colocou uma garrafa de água no seu lugar, defendendo o consumo de água em vez do refrigerante.


Todos sabemos que a água potável é um bem essencial à vida, e como tal, a chegada deste bem a qualquer lugar é sempre um acontecimento digno de registo.

 


Foi o que aconteceu no domingo, de 9 de Abril de 1967, ao lugar de Rio Mau, pertencente nessa época à Freguesia de Sebolido.


Neste dia de festa, foram inaugurados seis fontanários espalhados pelo lugar. Para tal, deslocou-se a Rio Mau, o Governador Civil do Porto, Dr. Jorge da Fonseca Jorge. 

 



Este era aguardado pelo Presidente da Câmara Municipal de Penafiel, Coronel Cipriano Alfredo Fontes, vereadores srs. Huet Bacelar, Fausto Pinto de Matos, José Maria Neto da Silva, Prof. Joaquim José Mendes, Presidente da Comissão Municipal da Cultura, Tenente Manuel Mário da Veiga Ferraz, Comandante da secção da GNR de Penafiel, Dr. Francisco Brandão Rodrigues dos Santos, Subdelegado de Saúde, Capitão Manuel Babo, Comandante da Legião Portuguesa, Alberto Martins, Presidente da Junta de Freguesia de Sebolido, Eng.º António Francisco Martins, dos Serviços de Urbanização do Porto, crianças das escolas e Banda de Música de Rio Mau.

 



Depois das boas-vindas, a comitiva dirigiu-se ao depósito de águas, procedendo o Sr. Governador Civil à sua inauguração, seguindo-se seis fontanários espalhados pelo lugar.


A pequena ponte sobre o Rio Mau, que a dois passos encontra as águas do Rio Douro, que era uma aspiração da população, foi inaugurada Dr. Jorge da Fonseca Jorge, Governador Civil do Porto, que cortou a fita no meio de muitas palmas, cânticos entoados pelas crianças, em quanto estralejavam foguetes no ar e a Banda de Rio Mau, tocava uma marcha. 

 



Um ponto alto foi quando a comitiva chegou ao largo, onde o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Penafiel, Cipriano Alfredo Fontes, descerrou uma placa com o seu nome que ficou a perpetuar de maneira insofismável a grande amizade que este povo de Rio Mau tributa ao Coronel Cipriano Fontes.


Num palco armado no largo que se passou a chamar Largo Coronel Fontes, realizou-se uma sessão solene presidida pelo Governador Civil do Porto tomando assento na mesa o Sr. Dr. Arlindo Soares, Deputado à Assembleia Nacional, e Presidente da Câmara do Marco de Canaveses, Coronel Cipriano Alfredo Fontes, Presidente da Câmara de Penafiel, Dr. Joaquim Amorim, Dr. Adão Amorim, Dr. Sousa Nunes, Alferes Correia da Rocha, Álvaro Martins, Presidente da Junta de Freguesia de Sebolido, e Eng.º António Martins representante da Urbanização do Porto.


O Presidente da Junta de Sebolido, Álvaro Martins, usou da palavra para agradecer a presença das individualidades que propositadamente se deslocaram a Rio Mau, para assim tornar mais solene aquele acto de transcendente interesse para a localidade.


Espraiou-se depois sobre o assunto da transferência da sede da freguesia para Rio Mau, apontando números e dados e pedindo para que as autoridades competentes se debrucem sobre o assunto.


De seguida tomou a palavra o Sr. Coronel Fontes que começou por agradecer a todos os presentes, incluindo o bom povo de Rio Mau que, disse, sem a sua colaboração directa e indirecta não teria sido possível tão rapidamente resolver-se o problema que ficou quase resolvido porque para a sua solução cabal terá ainda de se levar a água a todos os lares de Rio Mau, facto que dentro em breve será consumado.


Enalteceu o trabalho do Presidente da Junta de Sebolido e agradeceu a cooperação do Sr. Governador Civil do Porto, Dr. Jorge da Fonseca Jorge, afirmando que tudo quanto se tem feito em benefício do Concelho de Penafiel, só ao Governo da Nação se fica devendo.



Todos os oradores foram vibrantemente aclamados, terminando em festa com um almoço no Restaurante S. João, em Rio Mau.


Nota-se pelo discurso do Presidente de Junta de Sebolido, que o lugar de Rio Mau estava de tal maneira em desenvolvimento, que este pede a transferência da sede de freguesia de Sebolido para Rio Mau.

 


Porém, a solução para Rio Mau, não será esta, mas sim passar à categoria de freguesia através da Lei n.º 42/84, publicada no Diário da República no dia 30 de Dezembro de 1984.


Pessoalmente penso que quanto mais perto o poder está das populações melhor, embora hajam pessoas que traçaram a régua e esquadro super freguesias, sem que as populações fossem ouvidas, pelo que a única vantagem que trazem, é a soma de votos para o partido.


Se isto é democracia, eu vou ali e já venho.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

19 junho 2021

TRANSPORTES AÉREOS DA PORTELA NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS

TRANSPORTES AÉREOS DA PORTELA

NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS




Depois de termos o caso BPN, e do Banco Novo como sorvedouros de dinheiros públicos, agora apareceu a TAP. Como diz o ditado popular, “Não há duas, sem três”.


Sim, essa empresa que Pinto da Costa baptizou por Transportes Aéreos da Portela, quando a mesma deixou de voar para o Porto, em que os trabalhadores fizeram o sacrifício de baixarem os seus salários, enquanto os gestores recebiam prémios chorudos pela sua má gestão, não vão escapar ao despedimento.


Enquanto a maioria dos aviões dessa companhia continuam pregados ao solo, bazucas de dinheiro público estão a ser injectadas na TAP. 

 



Depois foi contratada uma gestora francesa para vir fazer o serviço sujo dos despedimentos, para os (des)governantes deste país continuarem a mostrarem as mão limpas.


Como se isso não bastasse, uns gestores de pessoal da TAP, vão a Madrid contratar trabalhadores (enquanto os de cá são despedidos), e com um ar sorridente nos vêm dizer que os espanhóis são muito melhores que os portugas.

 


O Ministro como dama ofendida lá vem dizer que vai mandar instaurar um inquérito a estes dois fulanos que foram até Madrid comer, beber, e passear à nossa custa para no final ainda nos passarem um certificado de malandros.


Quanto ao inquérito sr. Ministro não perca tempo nem papel, pois já todos sabemos onde vai parar... no caixote do lixo e para disfarçar lá vem uma reprimenda aos (in)competentes colaboradores, que deviam voar directamente para o “olho da rua”, sem qualquer indemnização.


Estamos neste sítio mais ocidental da Europa, onde o país mais uma vez está a ser empurrado para uma nova bancarrota, e como cantava o Zeca, os eunucos devoram-se a si mesmos, e os vampiros são mais que muitos a sugarem o sangue fresco da manada.


Se querem uma companhia aérea mais pequena, deixem falir a TAP, que já se tornou num comedor de dinheiros públicos sem fundo, que terão de ser pagos por todos nós.


Por este andar qualquer dia ainda vamos ter a TAP BOA e a TAP MÁ, filme já visto e revisto por todos nós com outros artistas.


Claro que na TAP boa lá estarão os gestores e na má os malandros dos trabalhadores que são os culpados de toda esta má gestão.


Mais tarde, quem sabe, um inquérito par(a)lamentar, onde os chamados a deporem, não se lembram de nada, todos eles sofrendo de uma amnésia total.


Por isso, podíamos com muitos menos custos apostar na SATA Air Açores, que sem politiquices cobriria todo o país de Norte a Sul, de Este a Oeste incluindo a cidade do Porto.


Cá por mim, os Transportes Aéreos da Portela podem muito bem falirem ou serem vendidos se houver quem os compre (o que duvido), pois por este andar, vamos voar para um novo abismo, e não nos venham acenar com mais novos e velhos PECs como salvadores da pátria, porque para esse peditório já ninguém dá. 

- Penso eu de que!... 


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

 

04 junho 2021

O LÁPIS AZUL

O LÁPIS AZUL

 


 

Passados poucos dias do 28 de Maio, que nos faz lembrar a revolução que levou à longa noite fascista, rotulada com o nome pomposo de Estado Novo.

 

Salazar mal colocou os pés no poder, tentou silenciar tudo o que o incomodava.

O seu governo ordenou que a censura à imprensa se torne mais rigorosa, que, à sua volta, se faça um cerco de tal forma apertado que ela só possa dizer o que ao governo convém que se diga.

 



Assim, nasceu a Direcção-Geral dos Serviços de Censura à Imprensa, integrada no Secretariado de Propaganda Nacional.

 

Os censores passavam os dias com o lápis azul na mão, a cortar títulos e notícias, obrigatoriamente enviados os dados a conhecer pelos jornais, antes de serem publicados.

Sou do tempo, em que os jornais e revistas para além do seu cabeçalho, apareciam com a frase: “Este número foi visado pela censura”.

 

 



Em Penafiel, até o jornal “O Tempo”, que era o órgão da Comissão Concelhia da União Nacional, não escapava à censura.

 

Mas um dos mais visados era o semanário “O Povo de Penafiel”, órgão do Partido Republicano Português.

Qualquer motivo servia para o suspender, como foi o caso das rendas da casa e dos quintais onde funcionava a GNR, na rua Engenheiro Matos. 

 



O Sr. Peixoto foi dado como o único responsável pelo negócio das rendas da casa e quintais da GNR, embora a única culpa dele , foi ter concordado com o arrendamento, e não ter feito o contrato. Daí a Câmara arrancar do escrupuloso governo, uma portaria para ser expropriado do referido prédio e terrenos envolventes, deixando de pagar rendas, não lhe reconhecendo direitos que o tribunal desta comarca lhe outorgou, tudo isso para agradar ao capitão Alcídio de Almeida.

Desagradado com tal notícia, o sr. Capitão da GNR desencadeou esta reacção;


Alberto Tomás Ferreira - O Editor


A 29 de Maio pela 14,30h, apareceu na Tipografia Minerva, situada no Largo da Ajuda em Penafiel, o sr. Alcídio Augusto Lopes de Almeida, capitão da GNR, intimando o editor Alberto Tomás Ferreira (pai do Capitão de Abril, Rolando Tomás Ferreira), a entregar-lhe os jornais que já tinham impressos, pedindo fio para os amarrar. 

 


A pouca distância da tipografia, ficou uma patrulha da GNR de que o sr. Capitão se fazia acompanhar, desde a Praça Municipal.


Como porém o editor lhe perguntasse quem de tal acto assumia a responsabilidade, o sr. Capitão respondeu ser ele, mas que, pela consideração que por o editor tinha, lhos deixava, tornando-o porém responsável pelo que se desse se lhe desobedecesse e ameaçando-o de prisão se algum exemplar do jornal fosse distribuído.


Explicou, ainda o sr. capitão que procedia assim, por ter cá bastantes soldados, entre eles alguns bastante exaltados contra o nosso jornal, por nele, disse o sr. Capitão, ter sido muito atacada a GNR.

 

A direcção foi falar com o comandante militar Tenente-Coronel Faria de Abreu desta cidade, ao qual de tudo deu conhecimento, reclamando previdências e pedindo forças para guardar a casa onde está a tipografia, impedindo que realmente que alguns dos GNRs exaltados, efectivassem o assalto à mesma.


O sr. Comandante Militar declarou que fazia confiança na GNR e por isso ela iria guardar a tipografia.


Entretanto o Povo de Penafiel recebe a solidariedade do jornal “O Penafidelense” e do “Defeza do Marco”.


De seguida foi enviado um ofício ao Comando Militar, com o seguinte teor:


Ex.mo Sr. Comandante Militar de Penafiel

Tendo sido em 29 de Maio de 1926, suspenso “O Povo de Penafiel”, e não tendo a direcção do mesmo jornal recebido ordem para o poder publicar, e como os outros jornais locais se têm publicado, vimos pedir a Vossa Excelência o favor de nos informar se essa suspensão se mantém ainda, ou se podemos recomeçar a sua publicação, depois de cumpridas as formalidades expressas no edital de 30 de Maio.

Penafiel, 8 de Junho de 1926

Saúde e Fraternidade

Pela Directoria de O Povo de Penafiel

Joaquim José Nunes Teixeira Peixoto


Horas depois recebiam a resposta


Ao Sr. Director de O Povo de Penafiel

Em resposta ao ofício de hoje informa-se que o jornal “O Povo de Penafiel” pode publicar-se depois de cumpridas as formalidades do N.º 5 do Edital de 30 de Maio.

Saúde e Fraternidade

Pelo Comandante Militar

Júlio de Lencastre

Major Inf. 32 Comandante do Regimento




O N.º 5 que se refere o ofício do Comandante Militar diz o seguinte:

Afim de evitar a publicação ou transmissão de notícias tendenciosas sobre a actual alteração da ordem pública e movimento de tropas, devem as empresas jornalísticas, submeter, antecipadamente essas mesmas notícias ao visto deste comando militar.


Porém a Câmara muda de mãos e no dia 5 de Agosto de 1926, é assinado o contrato de arrendamento da casa e quintais onde se encontra instalada a GNR, pondo termo a esta contenda.


Se este problema foi resolvido, a censura teve que esperar pelo ano de 1974.

 



Com este lápis azul sempre afiado, Salazar criou uma farsa de país, onde não existia fome, nem assaltos, nem pedintes, nem violações, nem violência doméstica, nem prostituição ou corruptos. Era o que se pode dizer, UM PAÍS ÁS DIREITAS.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho

 

24 maio 2021

NO MAIOR INCÊNDIO DE PENAFIEL

NO MAIOR INCÊNDIO DE PENAFIEL

ARDEU A SEDE DO UNIÃO 

E O BERÇO DO SPORT

O estabelecimento de solas e cabedais de Joaquim José de Oliveira (O Gordo), situado na Rua Alexandre Herculano (hoje Largo Padre Américo), era o ponto de encontro de jovens estudantes da Escola Primária Superior e do Colégio do Carmo.

 


Aí trabalhava José Nogueira Soares, conhecido por todos, pelo Nogueira do Gordo, que tinha o condão de aconselhar e entusiasmar os jovens para a vida, incitando-os à prática de educação física.

 

Deste convívio, nasceu a ideia da fundação de um clube desportivo, o qual veio a nascer com o designo de Sport Clube de Penafiel.

 


Acontece que no dia 17 de Outubro de 1935, pelas duas horas da madrugada, um incêndio que deflagrou na casa comercial de António Guimarães que existia à esquina da Rua Alexandre Herculano (hoje Rua do Paço), alastrou rapidamente aos prédios vizinhos na Rua Pedro Guedes (hoje Largo Padre Américo), e que consumiu seis prédios, apesar de todo o esforço e boa vontade dos bombeiros de Penafiel, Paredes, Entre-os-Rios, Cete e os Portuenses da Cidade do Porto.

 


Foi notória a falta de água, pois na altura não havia abastecimento ao domicílio, e mostrou-se um serviço de mangueiras, entre o lago do Parque Zeferino de Oliveira, popularmente chamado de  Sameiro e o local do incêndio, mas mesmo assim, não foi possível evitar a propagação da tragédia, já que passados 30 minutos, deixou de haver água para atacar o incêndio.

 


Os prejuízos são totais nos prédios. Do recheio apenas foi retirado algum mobiliário existente nos baixos dos prédios ocupados pelo Sr. Alípio Dias e Joaquim José de Oliveira (O Gordo), que se iam acumulando no largo fronteiriço e eram vigiados pelos soldados da Infantaria 6 destacados para o local do sinistro. Apesar de tudo, não se verificaram vítimas humanas


Arderam os prédios de:

António Guimarães, onde este senhor tinha instalado o seu estabelecimento de material eléctrico e aparelhos de rádio, D. Maria Henriqueta de Melo (que servia como sede da União Desportiva Penafidelense e pelo António de Sousa Reis (livreiro), o sr. Artur de Oliveira, da Pensão Central, achando-se nos baixos a Livraria Reis, a Sapataria Zé Duas, do Sr. José Alípio Dias, a adega e loja de solas e cabedais de Joaquim José de Oliveira (O Gordo), e uma outra residência particular à esquina da Travessa da Misericórdia habitada pelo Sr. Manuel Soares e pelo Sr. Mário Alípio Dias. A única casa que se salvou das chamas neste correr de casario, foi a Casa João da Lixa, com frontaria para a Rua Serpa Pinto (hoje Rua Dr. Joaquim Cotta) e esquina da Travessa da Misericórdia.

 


Da noite para o dia, o fogo fez desaparecer para sempre todo este casario, onde se encontrava entre outras actividades, a sede do União e o Berço do Sport que era o ponto de reunião da rapaziada dessa época.   


Como as paredes que ficaram de pé, ameaçavam ruínas, no dia seguinte, iniciou-se a sua demolição.

 



É de realçar a rapidez (dois dias depois do incêndio), com que a Companhia de Seguros Fidelidade, pagou as indemnizações devidas aos seus segurados pelos respectivos prejuízos.

 

Casa O Gordo com malta do Sport à porta. Bernardino Oliveira, Nogueira Soares (fundador do Sport), Augusto Cristina e João Oliveira.


A vida destas pessoas vai recomeçar noutros locais da cidade. Assim, Joaquim José de Oliveira (O Gordo), vai-se restabelecer como adega no Largo da Ajuda, A Livraria Reis, de António de Sousa Reis, na Rua do Paço, a Pensão Central de Artur Oliveira, abre portas na Av. Sacadura Cabral N.º 157 a 161, José Alípio Dias vai aparecer no N.º 6 na Rua Serpa Pinto (hoje Rua Joaquim Cotta), no prédio onde ficava à época no 1.º andar o consultório do dentista Alexandre Milheiros, que dava consulta aos dias 10 e 20 da cada mês, ou seja aos dias de feira, nesta rua também se instalou António Guimarães com a Fotografia Penafidelense.

 


Das cinzas, apareceu o Largo da Misericórdia (actualmente Largo Padre Américo), com o formato e dimensões com que o conhecemos nos dias de hoje.

 

Fernando Oliveira - Furriel de Junho

 

 

07 maio 2021

O CRISMA NAS FREGUESIAS DE SANTIAGO E NOVELAS

 O CRISMA NAS FREGUESIAS

DE SANTIAGO E NOVELAS

 


No tempo da outra senhora, quando ainda existiam as freguesias de Novelas e Santiago, no dia 23 de Abril de 1933, ou seja no domingo de pascoela (domingo seguinte ao de Páscoa), sua Excelência D. António Augusto de Castro Meireles, ilustre bispo da diocese do Porto, visitou estas duas freguesias do Concelho de Penafiel, ambas anexadas eclesiasticamente, e por consequência subordinadas ao mesmo pároco, Padre José Luís Vieira da Silva. D. António Augusto de Castro Meireles, nasceu no concelho de Lousada, na freguesia de Boim, a 15 de Agosto de 1885. Fez os seus estudos primários em Penafiel, e os estudos secundários no Colégio de Nossa Senhora do Carmo nesta mesma cidade. Depois ingressou no Seminário dos Carvalhos, sendo ordenado padre a 22 de Abril de 1908. A 20 de junho de 1928 foi nomeado bispo coadjutor do Porto, função que, por inerência, lhe conferia a sucessão. Assim, a 21 de julho de 1929, tornou-se Bispo do Porto, um cargo que ocupou até 29 de Março de 1942, data do seu falecimento.


Foi a primeira vez, que Santiago recebeu a visita de um Bispo desde que é freguesia, e mesmo não há registo de outra se ter realizado antes de o ser, sendo assim um acontecimento memorável, tendo D. António Meireles, sido recebido com o máximo de brilhantismo pelos santiaguenses.

A senhora D. Maria Viana de Lemos Peixoto, abastada proprietária da Casa Monterroso, nesta freguesia, e as suas duas filhas, foram os elementos primordiais desta festa, contribuindo de uma maneira muito especial para que tudo se fizesse com a piedade e brilhantismo que, a tais actos do culto é exigido.

E, assim, tendo-se efectuado uma série de conferências religiosas e doutrinais de liturgia católica, a cargo do ilustre sacerdote, professor de Seminário do Porto, na Igreja de Santiago e em todos os dias da semana precedente, como preparação ao Crisma a conferir pelo sr. Bispo e demais actos inerentes ao culto, foi, na Casa de Monterroso, que aquele eclesiástico se hospedou, durante os doze dias em que aqui se conservou, para esse efeito.

Portanto, ás 9,30 horas do referido dia 23 de Abril de 1933, por feliz acaso da Providência, um verdadeiro dia de Primavera, em evidente contradição de todos aqueles da semana finda, chegou sua Excelência D. António Meireles, Bispo do Porto, à Casa de Monterroso, onde era aguardado pela ilustre família, e bem assim por uma multidão de pessoas, com a Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Paredes, que à sua chegada, anunciada por uma salva e foguetes, fez ouvir os seus acordos deliciosos.



Após uma pequena demora para o sr. Bispo envergar as suas vestes prelatícias, na capela da casa, que além da recente restauração sofrida se achava belamente ornamentada, seguiu Sua Ex.ª dali, em procissão para a Igreja de S. Tiago sob o pálio, ladeado por oito eclesiásticos e seguido por um numeroso e bem organizado acompanhamento constituído pelas corporações religiosas da freguesia, com as suas insígnias respectivas e grande quantidade de pessoas, que ansiosamente se aglomeravam durante o trajecto, com o maior respeito e entusiasmo.


Todo o longo literário percorrido, achava-se engalanado com bandeiras, flores, cinco arcos artisticamente modelados a capricho e profusamente tapetados de verdes, como ainda de grande parte das janelas, pendiam colgaduras de variadas cores, imprimindo ao acto aquele tradicional aspecto regional, de festa e alegria, que jamais esquece com saudade, na celeridade dos tempos que vão correndo à nossa frente.


Na igreja, antes de começar a missa solene, que um grupo de senhoras, da localidade, se prestou a acompanhar a canto coral e órgão harmónio segundo os preceitos da moderna liturgia, o sr. Bispo, evidenciando a sua agradável impressão, por toda aquela gloriosa jornada de religião e fé, que vinha presenciando endereço os meus melhores agradecimentos a todos os que para isso contribuíram tão devotadamente.


A meio da missa voltou S. Excelência a deliciar o numeroso e selecto auditório que atentamente o escutava, e, com a sua palavra fluente e cadenciada, produziu uma homilia magistral, cheia de conceitos judiciosos e adaptados ao Evangelho do dia, por forma que em todos deixou plenamente confirmada a sua justa reputação de fiel burilador da oratória sacra.


No fim da missa, e depois de efectuada a procissão Eucarística, à volta da Igreja, procedeu sua Excelência o sr. Bispo a imposição do Crisma, a centenas de pessoas, que a solicitaram, terminando com uma alocução referente àquele acto.


Foto cedida por: Joaquim Pinto Mendes

Seguidamente na Casa de Monterroso, foi servido um almoço ao Sr Bispo, a todo o clero assistente, e a outros convidados, findo o qual, seriam 16,30h, seguiu sua Exc.ª para a freguesia de Novelas, onde era esperado na Casa do Cruzeiro, pelas corporações religiosas locais com as suas insígnias, muito povo, e dali seguiu sob o pálio processionalmente, em direcção à Igreja paroquial, encontrando-se todo o caminho do seu trajecto lindamente ornamentado.


Foto cedida por: Joaquim Pinto Mendes


Depois de proceder ás costumadas cerimónias litúrgicas, a administração do Crisma, na igreja, foi organizada uma procissão até ao cemitério, terminando assim as festas religiosas, que, por motivo da visita do sr. Bispo deram aos paroquianos das duas freguesias, algumas horas de agradável satisfação, como recompensa de tantos trabalhos que tiveram.


No final, o Rev. Pároco José Luís Vieira da Silva, mandou servir na sua residência, um jantar lauto ao sr. Bispo do Porto, D. António Augusto de Castro Meireles, a todo o clero assistente, e algumas pessoas das suas relações mais próximas. 

 




Se esta visita se viesse a dar nos dias de hoje, a mesma seria à freguesia de Penafiel, já que estas duas freguesias Novelas e Santiago de Subarrifana, banhadas pelo Rio Sousa, foram extintas em 2013, e anexadas à freguesia de Penafiel em plena “democracia”, sem que para tal, os seus habitantes fossem ouvidos e achados. 

 



Agora que muito se fala em Descentralização, não faz qualquer sentido, fazer a mesma, sem começar por restaurarem todas as ditas freguesias anexadas neste país.

- Ou será que sim?


Fernando_Oliveira – Furriel de Junho

25 abril 2021

PARABÉNS AO BLOGUE PENAFIEL TERRA NOSSA

 
FAZ PRECISAMENTE HOJE, DIA 25 DE ABRIL, 15 ANOS, QUE NASCEU O BLOGUE: PENAFIEL TERRA NOSSA.

EM PRIMEIRO LUGAR QUERO AGRADECER A TODOS OS QUE AQUI PASSAM, E ESPECIALMENTE AQUELES QUE O INCENTIVAM COM OS SEUS COMENTÁRIOS.
 
E COMO NÃO HÁ ANIVERSÁRIO SEM BOLO, AQUI FICA O CONTO: A DOCE LIBERDADE. 


 
O meu tio Humberto, era um homem do reviralho. Indo ele comigo pela mão a atravessar a Praça Municipal, no preciso momento em que, o nosso Primeiro – Ministro Marcelo de visita à nossa terra, foi depor uma coroa de flores no Monumento em Honra aos Mortos da Grande Guerra, desabafou:

- Se fosses pôr flores ao caralho!...

Uns homens agarraram nele e levaram-no. Apenas teve tempo de me mandar para casa e desta vez sem o beijo do costume. Aí chegado, contei à tia o sucedido. A tia Luísa, que já estava calejada nestas andanças, já sabia o que fazer.

No Domingo, fui com ela visitar o tio Humberto, a Caxias. Um guarda colou-se à nossa beira, escutando tudo que nós dizíamos. A horas tantas, a tia colocou em cima da mesa a cesta que levava com o lanche para nós, e que o guarda já tinha revistado. No final do lanche, a tia deu um beijo ao tio e este abraçou-nos com muita força. 
 
No fim-de-semana seguinte lá fomos de novo visitar o tio. Ao chegarmos à porta, um guarda informou-nos que ele hoje não podia receber visitas. A tia chorou, chorou muito e pediu ao guarda para lhe entregar um bolo que nós levávamos.

Na próxima visita, o tio apareceu-nos com a cara cheia de hematomas, e com os olhos que mal se viam de negros que estavam.

- Ó tio, porque estás assim tão feio?

- Andei à porrada com o guarda que me comeu o bolo.

- E quando voltas para casa?

- Quando agarrar esse comilão.

Abril nasceu e o tio regressou a casa.

Agora todos os anos a 25 deste mês, a tia faz um grande bolo que o tio Humberto baptizou de Liberdade.

Só que agora, não falta aí quem se faça convidado, e queira devorar a doce Liberdade.
 
Fernando_Oliveira - Furriel de Junho


02 abril 2021

INTERCÂMBIO CULTURAL

INTERCÂMBIO CULTURAL

ENTRE PENAFIEL E OVAR

 




Nos anos 40, os alunos e alunas do Colégio do Carmo, além dos estudos e como passatempo extra curricular, dedicavam-se à arte de representar.

 



Propositadamente para eles, o Sr. Armando Passos, escreveu a revista “Flocos de Neve”, tendo o guarda roupa sido executado por Zulmira Iglésias e os cenários e o libreto realizados por German Iglésias.

 

German Iglésias



Esta revista foi levada à cena pela primeira vez no dia 18 de Maio de 1940, no Cine Clube em Penafiel.

Sendo de agrado do público, várias vezes subiu a palco, deliciando sempre a assistência, e cujas receitas dos espectáculos revertiam a favor de instituições, sendo uma delas o Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel.

Fazendo parte deste intercâmbio cultural entre Ovar e Penafiel, o Grupo de alunos de ambos os sexos do Colégio de Nossa Senhora do Carmo, deslocaram-se à Vila de Ovar (hoje cidade), no dia 24 de Maio de 1941, para representar no velho teatro de Ovar, a revista fantasia, Flocos de Neve, que tanto êxito obteve em Penafiel.


Nunca imaginaram foi a forma como iriam ser recebidos com toda a pompa e circunstância, na vila hospitaleira de Ovar.

Aguardavam o grupo, representantes da Legião e da Mocidade Portuguesa, escoteiros, várias associações com as suas bandeiras e estandartes e enorme multidão, aclamando-o com entusiasmo, enquanto as notas de uma banda de música e o estralejar de incessantes foguetes electrizavam mais, se é possível os manifestantes e os recém-chegados.

Organizado um cortejo, seguiu este sempre debaixo de uma verdadeira nuvem de flores até à Câmara de Ovar, em cujo Salão Nobre foram apresentados os cumprimentos de boas-vindas pelo Reverendo Padre Torres, ilustre vice-presidente do município, que pronunciou um brilhante discurso com alusões muito elogiosas para a cidade de Penafiel, encaminhando-se depois o Grupo, sempre acompanhado de enorme multidão, para o Colégio Júlio Diniz, onde lhe foi servido um primoroso copo de água, o que deu motivo a calorosos brindes e a novas manifestações.

 


Pelo que atrás foi dito, facilmente se conclui que o Grupo de Teatro composto pelos alunos do Colégio de Nossa Senhora do Carmo de Penafiel, tiveram uma recepção calorosa, como aliás à noite, no Teatro lhes prestaram a mais sensibilizante homenagem, atingindo foros de autêntica apoteose, tal a profusão de flores e de entusiásticas e delirantes aclamações.

E foi assim que os ovarenses, receberam com simpatia os penafidelenses que se deslocaram à sua terra, para representar a arte de Talma.

Para dar continuidade a este intercâmbio Cultural, no domingo, 8 de Junho de 1941, visita Penafiel o Orfeão de Ovar, que celebrou o seu centenário no passado dia 16 de Janeiro de 2021.

 



Desde a chegada em frente ao Jardim Público, até aos Paços do Concelho de Penafiel, ao som das músicas e do estralejar de foguetes, o cortejo, atravessou em triunfo as avenidas Egas Moniz e Sacadura Cabral, até à Câmara Municipal, subindo a escadaria que os havia de levar até ao Salão Nobre, enquanto um conjunto de moças com os seus trajes minhotos, lhes lançavam do alto da escadaria pétalas de flores.

 



De seguida o vereador Pais Neto, deu-lhes as boas-vindas, saudando em nome da cidade que tinha a satisfação, honra e alegria de os ver dentro desta terra que vossa é.

 



José Júlio, poeta penafidelense saúda-os com o poema:


BEMVINDOS!


Chega hoje à nossa Terra,

Afeita aos ventos da Serra,

A brisa fresca do Mar...

Amigos, sede bemvindos!

Ovarinas de olhos lindos,

A todos: muito saudar!


Trazeis convosco Alegria?

Com alegre simpatia

Vos saudamos, ao chegar;

Mas, com verdade, vos digo

Que não pode o nosso abrigo

O vosso abrigo igualar...


Num abraço apertado,

Que fique sempre lembrado,

Mesmo depois da partida,

Abraço franco, leal,

Abraço de Portugal...

Que lembre por toda a vida.


Abraço que não esqueça

Que grande até, que pareça

Nunca mais nos apartar,

Vos pagará o carinho

Que estava ao fim do caminho,

Quando nós fomos a Ovar...


Amigos, sede bemvindos!

Ovarinas de olhos lindos,

Bendito seja esse olhar,

A sorrir, no areal,

Das praias de Portugal,

À terra, ao Céu e ao Mar!...

 


Em palavras de imerecido reconhecimento, o Padre Torres agradece a ovação que está sendo dispensada ao Orfeão de Ovar, sendo muito aplaudido, com vivas a Ovar e a Penafiel, manifestação que atingiu o auge, quando, na bandeira do Orfeão de Ovar foi colocada a medalha da cidade pendente por uma fita vermelha e branca, as cores da heráldica de Penafiel, e depois, quando os componentes do Grupo Cénico do Colégio do Carmo, entregou ao Orfeão uma linda corbélia de lindíssimas flores.

E, sob este ambiente de alegria deixaram a “Domus Municipalis” espalhando-se pela cidade.

 



À noite, no Cine Clube, decorado elegantemente, com flores e calgaduras, totalmente repleto.

Pouco depois das nove e meia da noite, abre o pano. Sob o fundo negro dos trajes orfeonistas, sobressai o friso branco das gentis orfeonistas.

O Dr. Evaristo Teixeira, ilustre advogado desta comarca, saúda os orfeonistas.


Tal como um livro cativa o leitor nas suas primeiras páginas, também o Orfeão de Ovar sob a regência de Eduardo Liz, rompe com o Hino da Cidade de Penafiel, que a assistência, comovida e reconhecida, ouve de pé, coroando a sua impecável execução com uma vibrante e prolongada salva de palmas.


Depois do espectáculo, foi servido aos nossos visitantes, no salão do Sindicato dos Empregados do Comércio de Penafiel, um ligeiro copo de água, que serviu ainda de pretexto para se trocarem alguns brindes.


Feitas as últimas despedidas, as camionetas levaram de volta o Orfeão à vila de Ovar.


Embora estes intercâmbios estejam fora de moda, fazem falta, quanto mais não seja para muitos penafidelenses que vão alinhando o seu diapasão de frases feitas como: “Sentir Penafiel”, “Eu amo Penafiel” ou Penafiel a Terra Melhor do Mundo”, aprenderem o Hino da sua terra, escrito por José Júlio, com que o Orfeão de Ovar, brindou a nossa terra e poucos penafidelenses o sabem.

 



Com o hino ou sem ele a vida continua, pelo menos ficam a saber que ele existe, que para os tempos que correm já não é mau...


Fernando Oliveira – Furriel de Junho