COISAS DA RÁDIO DO ANTIGAMENTE
COISAS DA RÁDIO
DO ANTIGAMENTE
Aos domingos de manhã, saía de casa em direcção à Igreja Matriz, com o catecismo na mão.
Pelo caminho, em muitas casas, os rádios tocavam alto e bom som, que subia a rua até se entranhar nos ouvidos das pessoas que por lá passavam.
Entrava na Igreja e lá me sentava à beira dos colegas, num banco corrido junto ao altar de Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal, proclamada pelo rei D. João IV. Nesse tempo a celebração era a 8 de Dezembro, sendo feriado e Dia da Mãe.
A catequista lá ia ensinando a Doutrina Cristã, que decorávamos e lá íamos respondendo quando questionados, preparando-nos desta forma para a Comunhão Solene. No final assistíamos à missa das 10 horas e depois regressávamos a casa.
Pelo caminho lá estavam os rádios com as goelas no máximo, todas elas sintonizadas nos Emissores do Norte Reunidos, onde transmitiam em directo do Teatro Vale Formoso, situado na Rua Costa Cabral, na cidade do Porto, o programa Festival.
Ao passar junto a um deles, a dona lá me informou que estava a cantar a Maria de Fátima conhecida pelo Passarinho do Festival devido à sua tenra idade e a seguir ia cantar o nosso Fozcôa melhor dizendo Emílio dos Santos. E lá cheguei atrasado da hora habitual a casa, pois não podia deixar de ouvir o amigo que por vezes animava os leilões do Menino Jesus, aos domingos de tarde no Recreatório Paroquial.
Também, nesse tempo, faziam história dois programas humorísticos.
Da capital vinham “Os Parodiantes de Lisboa”, grupo fundado em 18 de Março de 1947, cujo primeiro programa foi transmitido pela Rádio Peninsular, que ia para o ar às Terças-feiras, pelas 20 horas e chamava-se “Parada da Paródia.
Com a permissão de publicidade radiofónica no começo de 1949, a vida dos Parodiantes mudou muito. Nesse mesmo ano, foi para o ar, através das antenas do Rádio Clube Português, o programa " Graça com Todos”, transmitido diariamente à hora do almoço 13 horas, e eram famosos pelos sketches como a dupla de detectives Patilhas (José Andrade), e o ajudante Ventoinha (Rui Andrade), Rádio Crime, o menino Arnestinho, o Delicadinho da Silva, o Compadre Alentejano, Meia Bola e Força, Manas Catatua, entre outros.
Já do Porto vinha a “Voz dos Ridículos”, com o slogan “A Voz dos Ridículos fala e o mundo acredita e ri”.
A equipa fundadora incluía nomes como João Manuel Antão, Castro Maia, Bê Veludo e o grande imitador Mena Matos.
O programa que misturava o humor, sátira e crítica social, à moda do Porto, era transmitido aos domingos entre as 13 e as 14 horas, o programa “Dos Fracos Não Reza a História”, com repetições em vários dias da semana.
Começou a ser transmitido na estação portuense Rádio Clube a 17 de Abril de 1945 e terminou na Rádio Festival a 25 de Julho de 2013.
Algumas expressões ficaram até hoje nas nossas vidas como: “Trabalha dedo, não tenhas medo”, “Pincha Malaquias, Pincha”, “Afinfa-lhe”, “Olha o boneco”, “Escacha o pessegueiro”, “Rebimba o malho”, e “O Bigodes de arame”, etc..
Outro fenómeno eram as novelas radiofónicas, sendo a de maior sucesso Simplesmente Maria, transmitida pela Rádio Renascença das 13h30 às 14h30, sendo a música do genérico interpretada por Tonicha.
O enredo baseara-se numa rapariga de 20 anos, Maria Ramos, analfabeta e com oito irmãos, que chega a Lisboa vinda de uma pequena aldeia para trabalhar como criada de servir, enviando todo o dinheiro ganho para a família. Durante a sua estadia na cidade, Maria conhece Alberto, jovem de uma família abastada a concluir os estudos em medicina. O romance entre eles floresce, resultando numa gravidez e no nascimento de um filho chamado Tony. Enquanto Teresa, empregada doméstica como Maria, oferece conselhos e orientações sobre a sua relação com a patroa, Carlos, amigo de Alberto, graceja sobre os avanços da conquista de Alberto. A família de Alberto rejeita o romance, forçando-o a partir para África.
Como não podia deixar de ser, depois de muitos sacrifícios, o casal Maria e Alberto consolida a sua relação, superando todas as barreiras sociais à época.
Agora passando à música, onde o Nacional Cançonetismo e o fado tomavam conta das emissoras, e o Zeca e o Adriano tocavam por aí à socapa, apareceu na Rádio Renascença uma lufada de ar fresco com o Programa “Página Um” de José Manuel Nunes, das 19h30m às 21h, que abria com o tema Page One do Grupo Portuense Pop Five Music Incorporated.
Era o tempo do Yé Yé, e por lá passaram The Beatles, os Stones, Shadows, Creedence Clearwater Revival, Joan Baez, Leonardo Choen, Chico Buarque, Elis Regina, Patxi Andion, Aguaviva, e os portugueses Sheiks, os Chinchilas, Gemini, Conjunto Académico João Paulo, Green Windows, Quinteto Académico, Quarteto 1111 que aparecia a cantar em português, e o Pop Five entre outros.
Estes quatro últimos chegaram a actuar na Festa do Lago em Penafiel.
Enquanto isto se ouvia nas nossas rádios, do lado oposto da Av. da Liberdade, o "S"inaleiro no cimo do seu palanque, mandava todos seguirem pela direita, como acontece com a maioria nos dias de hoje, mesmo sem sinaleiro, e depois de mais de meio século do 25 de Abril.
Fernando Oliveira – Furriel de Junho

































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