HOMENAGENS A ESTAS MÃES
HOMENAGENS A ESTAS MÃES
Quero homenagear todas as mães que viram durante os anos 60 e 70 os seus filhos a partirem para a Guerra Colonial.
Muitos jovens cumpriram o Serviço Militar Obrigatório, e a maior parte deles foi lançado neste conflito em África, melhor dizendo em Angola, Guiné e Moçambique.
Podem crer a única coisa boa que se extrai desses tempos de tropa é a amizade que se cria com malta que não conhecíamos de lado nenhum e que nos marcam para a vida neste percurso que se estende desde o embarque até ao regresso da guerra.
Estando eu já em Sacavém, e numa certa quinta-feira dia em que saíam as mobilizações, na lista lá vinha o meu nome para Angola.
Fiquei triste como todos os outros e quando vim a casa disse-o à minha Mãe, que não acreditou. De cada vez que o embarque era adiado e vinha de fim de semana a casa, à saída despedia-me como se fosse a última, mas para ela era sempre um até já.
Estas mulheres viram os seus filhos partirem, entre lágrimas, beijos e gritos dos corações despedaçados, cuja dor nunca mais as abandonou.
Zé Luís mestre na Escola Industrial de Penafiel, na sua poesia, descrevia a Despedida.
Vi-a...
De xaile sobre os ombros
só,
na tristeza dos escombros
do cais à beira-mar.
Que amargo interior,
que dor profunda a dela
e que calma no seu rosto,
sem lágrimas,
nem rugas na cara
alteradas
pela comoção
ou os dedos crispados
na carne de suas mãos!...
Estática,
como rocha do mar,
ela é um gesso escultural
erguido ao sofrimento,
onde traços de vida
são apenas seus cabelos,
brancos e pretos,
dispersos pelo vento
na solidão
no cais à beira-mar!...
O navio, barra fora,
leva seu trilho
rumo à distância
às lutas
ao Ultramar,
mas no coração
daquela pobre mãe
ficou seu filho.
Os filhos daquelas mães, agora combatentes, gravavam na memória o último sorriso brotado no último instante do adeus dos pais, dos irmãos ou irmãs e das namoradas, enquanto os lenços brancos acenavam, um gesto repetitivo em todos os embarques.
Estas mães daqueles filhos paridos com dor, criados com amor, com a esperança de os verem serem homens, pais capazes de lhes darem os netos ansiados, iam para a guerra e todos os sonhos de vida ficavam adiados por vezes interrompidos para sempre.
É claro que a figura da mãe estava sempre presente no espírito dos soldados. Mas eles raramente falavam nela, a não ser quando diziam, meio a sério, meio a brincar: "É para isto que uma mãe cria um filho".
De resto, um homem que é homem não se punha a chorar saudades da sua mãe diante de toda a gente, mas à noite na caserna, todos vertiam silenciosas lágrimas de saudade das suas mães, enquanto escreviam o aerograma, que para não as afligirem, lá lhe diziam que estava tudo bem, mesmo quando assim não era.
Aqui na terra no jornal “Notícias de Penafiel” havia uma página dedicada aos penafidelenses que se encontravam na Guerra Colonial com o título “AQUI É PORTUGAL” onde se reproduziam cartas enviadas pelos soldados. É numa destas páginas que retirei estes versos do soldado corneteiro 260/68, Alberto da Rocha Rodrigues, dedicados à sua Mãe.
Embora com falta de métrica e rima por vezes falhada, são versos sentidos que interpretam a voz do seu coração:
A Ti minha Mãe
Oh minha Mãe adorada,
Como te quero tanto,
Para este teu filho,
Tu és o maior encanto
Eu te quero tanto,
Mãezinha querida,
és a joia mais bela,
de toda a minha vida
Em ti vivo a pensar,
Nesta longa solidão,
Oh! Mãe, trago-te sempre
No fundo do meu coração.
Se há momentos bons,
Na vida que estou a passar.
Para mim só são aqueles,
Em que te estou a recordar.
Quantas vezes eu recordo,
O dia da minha partida,
Havia uma santa em lágrimas
Eras tu minha mãezinha
Eu a a Deus por ti peço,
Não chores querida Mãe,
No dia do meu regresso,
A alegria voltará também
Estas quadras a ti dediquei,
Com todo o meu amor e carinho,
Do teu filho sempre querido
Recebe um terno beijinho.
Agora vou falar de outro tipo de mães que esta guerra criou, cujos filhos têm pais portugueses e mãe africana.
Estes eram transportados ás costas das mães, enquanto trabalhavam a terra, ou lavavam a roupa dos soldados no rio e viviam em palhotas.
Por vezes, colonizador e colonizada se “apaixonavam”, com a promessa de um casamento que no final da comissão era traída; outras vezes, elas lhes ofereciam serviços sexuais em troca de dinheiro ou comida, para amenizar a miséria que por lá graçava.
No final da guerra, muitas destas mães refizeram a sua vida, e no bilhete de identidade destes meninos não aparece o nome do pai biológico, mas do pai que o criou.
Mas se os sobrenomes podiam esconder a origem portuguesa, a cor da pele a denunciava, sendo apelidados de “filhos de tuga”.
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| Vila de Ribeirão - Vila Nova de Famalicão |
Bem sei que na minha terra natal, nunca irá ser erigido um monumento às mães dos penafidelenses que estiveram na Guerra Colonial, quando se limita a ter uma chapa colocada no chão com os nomes dos conterrâneos mortos nesta mesma guerra.
Mas pelo menos em Cerveira e na Vila de Ribeirão (Vila Nova de Famalicão), existe um monumento ás mães que viram os seus filhos a irem para a Guerra nas ditas Províncias Ultramarinas da Guiné, Angola e Moçambique.
Nós por cá, temos um monumento ás Invasões Francesas, talvez para encobrir quem sabe a rendição do município de Penafiel.
Bem sei que os meninos de hoje, não foram à guerra, confundem instrução com cultura, destroem património municipal como quem apaga o passado que para eles é indiferente, que ter uma chapa no chão ou ao nível dos olhos (como devia ser), com os nomes dos filhos da terra que tombaram na Guerra Colonial, para eles é igual, e pronto, assim vai o mundo, com actualidades da santa terrinha que muitos apelidam de melhor do mundo, mas que nós bem sabemos que é tudo falso, mas de fato e gravata, com discursos circunstanciais e sorrisos fáceis, lá vão alimentando a mania das grandezas.
Fernando Oliveira – Furriel de Junho











































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