01 fevereiro 2026

OS COLCHÕES DE FOLHELHO

 

OS COLCHÕES

DE FOLHELHO




Muito antes de aparecerem os colchões de espuma ou de molas, haviam os colchões de folhelho.


Geralmente os colchões eram de tecido grosseiro, de fraca qualidade às riscas coloridas e tinham uma abertura a meio na vertical do colchão por onde se mexia frequentemente o folhelho e se procedia ao seu enchimento para ficarem mais altos e macios.




O colchão, depois de bem cheio, até mais não, era cosido com uma grande agulha arqueada e linha grossa com pontos igualmente grosseiros, para ser mais fácil de descoser, no esvaziamento e enchimento, no ano seguinte, quando voltaria a ser “esventrado” para mudar o folhelho e lavar o pano.

Por experiência própria, com o peso do corpo, iam baixando, e tomando o formato do corpo no mesmo. Por tal motivo, semana após semana, era necessário remexer a palha, operação feita usualmente ao sábado, quando a cama era feita de lavado.




Na agricultura tradicional o milho era cultivado para a produção de grão até porque a renda dos caseiros era paga em carros de milho efectivo, o que hoje normalmente é transformado em dinheiro.

Após a colheita, as espigas eram amontoadas no meio da eira para a tradicional desfolhada, onde se reuniam familiares, vizinhos, e amigos para as desfolharem, isto é, separarem a camisa da espiga. 



Era sempre motivo de festa, cantigas e bailarico, onde se começavam namoros à procura do milho rei, motivo para um beijo ou um abraço.

 


Feita a desfolhada, e, seguindo o princípio de que nada se perde, lavavam-se cuidadosamente, as frágeis folhas que até aí envolviam o milho, e colocavam-se, imediatamente a secar debaixo do sol, que por essa altura já brilhava em doses generosas.

Depois de secas eram então desfiadas e entregues a mulheres que se tinham especializado no enchimento dos colchões. 

 

 

Em meados dos anos 40 do século passado, na bifurcação da Rua do Carmo com a Av. Tomás Ribeiro, existiu uma casa onde se fabricavam os colchões Vianas. 


Este nome está associado à família e relacionado com as suas raízes serem de Viana do Castelo.  

Esta pequena fábrica familiar de enchimento de colchões, era um negócio numa época em que era feita com folhelho. 




Esta casa, esteve muitos anos desabitada, foi vítima de um grande incêndio que danificou a habitação, sendo mais tarde demolida para dar lugar a uma nova construção.





Os colchões de folhelho serviram milhões de pessoas como lugar de repouso, palco para amar e gerar filhos, espaço para viver e para morrer, cofre improvisado para esconderijo do dinheiro das poupanças, local de sonhos, de amores e desamores.

 


 

Hoje por mais fofos que sejam os colchões, as coisas não andam muito longe, nem diferentes dos sonhos de antigamente, e mesmo que a vida por vezes não nos sorria, colocamos um ar alegre no rosto, e damos graças a Deus por vivermos pobres, mesmo tendo trabalho.



Fernando Oliveira – Furriel de Junho