01 abril 2026

O LEAL ESPERA UM MILAGRE

 

O LEAL ESPERA UM MILAGRE



O meu amigo Leal, sempre foi um rapaz do reviralho. Na escola não tinha grandes amigos embora fosse um aluno de excelência, e a razão para tudo isto é que não deixava copiar nos pontos. Pouco sociável, não saía com a malta aos fins de semana para jogar a bola no campo da feira, ou dar uma volta numa bicicleta alugada no Zé das bicicletas.




Não frequentava bailes populares como o de Santo António, na Garagem Egas Moniz, ou no de S. João organizado pelo Toninho Gravato na Rua Mário de Oliveira com o conjunto do Santoinho a animar o mesmo.

Era o que se podia chamar um bicho do buraco, e na escola era conhecido pelo marrão, por marrar longos tempos nos livros, mas isso era o mal de inveja a funcionar.




Com o 25 de Abril, o Leal despertou e abraçou este ideal de Liberdade, apoiando todas as lutas por um país muito melhor. Dava aulas gratuitas a pessoas que nem sequer sabiam escrever o seu nome.

Era solidário com as lutas dos trabalhadores por melhores condições de segurança, higiene e salários. Abraçou a luta contra as nacionalizações, que segundo ele era a venda do país a retalho.

 



Muitas das vezes nos cruzamos em manifestações e uma que sempre o encontrava e o cumprimentava acenando-lhe com o punho fechado era no 1.º de Maio, que ele no meio da multidão correspondia da mesma forma.


Depois vieram causas novas, que o meu amigo Leal abraçou com todo o afinco, como os direitos dos animais. Ainda hoje os trata com tanto carinho, que parece que os animais o compreendem quando ele fala com eles.




Mais tarde apareceu com a defesa do património e lá foi dar o corpo ao manifesto para o Mozinho, ajudando a pôr ao leu as pedras de um passado enterrado. Descobriu que nas campas dos nossos antepassados longínquos haviam moedas e louças em barro. Segundo o Leal, naquele tempo julgava-se que os mortos partiam e nessa viagem precisavam de comida e de dinheiro, para o caminho. 




Um dia fui com o meu amigo Leal ver a Anta de Santa Marta e as sepulturas escavadas na rocha que se encontram ao lado da mesma. Aí apareceu um fulano que não o conhecíamos de lado nenhum e mete conversa com ar de sabichão afirmando que naquela sepultura foi enterrada uma criança.




O Leal retorquiu que ali não foi sepultada qualquer criança, mas sim uma pessoa adulta. E nada melhor que uma aposta para resolver o caso. O Leal foi à mala do carro, tirou uma vassoura e começou a varrer e a limpar uma daquelas sepulturas. No final deitou-se nela. Agora já posso dizer que já vi um homem aqui deitado, afirmou o fala barato.




Nunca o vi tão zangado quando trocaram o busto do Egas Moniz, pela Serpe.




Aí foi uma enxurrada de impropérios, apelidando os autores desta façanha de não serem portugueses de gema. Como que a dar-lhe razão lá mandaram a Serpe para Magikland em Marecos, mas no seu lugar apareceu o Quim dos Ralis, o que foi uma decepção, para o Leal que no seu entender corrigiram um erro com outro erro. E com aquele ar de gozo lá foi dizendo que quem assim procede com tanto bota-abaixo ainda vai a deputado da oposição, ou até quem sabe, mais tarde a algum governo deste país.




Falando sobre o que fizeram ao jardim que rodeia o Santuário de Nossa Senhora da Piedade e Santos Passos, cortando a meio aquele espelho de água daquele Lago onde durante muitos anos se dançou nos Segundos Sábados de Setembro, na famosa Festa do Lago, com conjuntos na berra a tocarem ao vivo.  

 






Como se isso não bastasse, agora taparam com terra as campas que estavam a descoberto no local onde existiu a capela de S. Bartolomeu. Mas a lata desta gente é tal, que colocaram em letras garrafais “EU AMO PENAFIEL” em que o amo é feito com um coração, aderindo a esta moda que atravessa o mundo, mas sem qualquer sentimento de amor à terra.





Outra bandeira é a do ambiente. 

 


Lá anda o Leal a apregoar o aquecimento global, que vai desaguar em cheias, que é necessário plantar mais árvores para segurar com as suas raízes as terras para que não haja desabamentos e purificar o ar, que devemos preferir os transportes públicos como o comboio em vez do carro para diminuir a poluição. Ninguém ouve os recados do amigo Leal, e depois ligamos a televisão e é o ai Jesus.




Qual não é o meu espanto ao ver na Procissão do Enterro do Senhor, realizada na Sexta-Feira Santa o meu amigo Leal de vela na mão junto aos homens das matracas que assinalam o aproximar da procissão.




Depois vim a saber que faz parte do grupo coral da paróquia que anima as celebrações litúrgicas, particularmente a missa dominical. Por vezes sob ao púlpito e faz a leitura do Evangelho durante a missa.

Ontem entrei no café e lá estava o amigo Leal, sentado numa mesa a fazer as palavras cruzadas do jornal. Sentei-me à sua beira e lá falamos das coisas da vida.


O Leal é um homem desencantado, pois depois de tanta luta, vemos que os corruptos é que se safam neste mundo, que os medíocres é que nos governam, e mentem-nos com quantos dentes têm para levarem a água ao seu moinho.




Por isso cheguei à conclusão que o único revolucionário foi Jesus Cristo.


Nasceu pobre e morreu pobre como nós.


Falou a verdade e foi perseguido, torturado e morto, como os homens com carácter de agora.


Foi traído (como eu fui até pelo meu próprio partido), e vendido por Judas, que tem muitos seguidores neste rectângulo à beira-mar plantado.





Em jeito de despedida e de aviso, lá me foi alertando que não há nenhum partido que nos salve por mais Salazares que tenha nos seus quadros como nos fazem crer, porque isto está tão mal que só um milagre é que nos salva.


Depois de uma bacalhoada, lá fomos à vida com o Fado, Futebol e Fátima do antigamente, a massacrar-nos a mente.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho