01 junho 2026

A VIDA MENTIDA DE MARIA INOCÊNCIA

 

A VIDA MENTIDA

DE MARIA INOCÊNCIA



Maria Inocência é uma mulher magra, alta e conhecida por todos na terra.

Com apenas a 3.ª classe, sabia assinar o seu nome, ler e escrever embora com alguns erros, mas o marido era analfabeto ao ponto de no seu Bilhete de Identidade no lugar da sua assinatura aparecia a frase: Não sabe assinar.

Desde que a mãe morreu sempre a conheci vestida de luto, como de negro foi sempre a sua vida.

Vive com o seu Zé num barraco deixado pelos pais, com soalho de terra batida onde o frio entra por todos os lados, e a chuva sempre que cai os visita.

Maria e o seu marido, trabalham em casa do Sr. Doutor Marcos. Ela nas lides caseiras e o Zé nas tarefas agrícolas nos campos que rodeavam a moradia.

 




O meu Zé como ela o gostava de tratar, o único vício que tinha era o tabaco, sempre agarrado ao seu Kentucky no canto da boca.

Se o amor, o carinho e a amizades entre ambos era o que havia em abundância, a miséria, essa sentia-se em todo o resto e sentava-se à mesa nas horas das refeições.

O almoço da Maria e do Zé era feito na cozinha e as sobras que vinham da mesa da sala de jantar servido pela Maria Inocência ao Sr. Doutor e esposa quando estes a mandavam levantar, eram o jantar.

Na barriga da Inocência começou-se a notar um aumentar de volume, pelo que o seu patrão dr. Marcos em fala com ela lhe perguntou se queria abortar.

Nada disso, o meu menino virá ao mundo se Deus o assim quiser.

Antes dois meses de a bolha de água rebentar, Zé convence Maria que ali não há futuro para o nosso filho e o melhor seria alguém adotá-lo.




Foi então que se lembrou do seu comandante Almeida que não tinha qualquer filho e segundo constava sua esposa não lho podia dar. Logo ali ficou acordado que o menino seria registado à nascença e nunca por nunca o poderia saber quem eram seus pais verdadeiros. Assim, logo que viu a luz do dia ficou a chamar-se Dinis. Cresceu e matricularam-no no Colégio Militar em Lisboa não apenas para estudar, mas sim para seguir a carreira militar como seu pai.

Muitos anos Inocência e Zé deixaram de o ver.

Entretanto Maria volta a engravidar e desta vez o Sr. Doutor Marcos combina com eles que caso seja menina ele a adotaria.

- E se for um rapaz! - Deixa isso comigo.

Assim aconteceu e mais um filho do sexo masculino nasceu. Foi então que o sr. Albino dono de uma grande fábrica de confecções e a dona Esperança o adotou pois não tinham nenhum herdeiro. Sempre com a promessa que seus pais biológicos não mais se aproximavam dele e este segredo tinha que permanecer até à morte. O menino foi levado à Pia Baptismal com o nome de Jesus.

A vida lá foi andando e com dádivas de roupa do sr. Alípio e da Esperancinha, aos domingos tanto Maria Inocência como o Zéquita iam à missa muito mais janotas, mas ela sempre trajando de negro. Aí o boato apareceu que os filhos tinham sido vendidos por bom dinheiro, para aparecerem daquela maneira vestidos. Embora não fosse verdade entristeceu e muito o pobre casal.

Com as noites longas, o amor estava sempre na ordem do dia, ou melhor da noite, e como diz o povo que não há duas sem três, a Inocência engravidou de novo.

Desta vez foi menina e o Dr. Marcos cumpriu e aperfilhou-a e registou-a com o nome de Maria da Anunciação por ter nascido a 25 de Março dia em que se comemora a anunciação do Arcanjo Gabriel à Virgem Maria de que ela seria a mãe de Jesus Cristo, concebido pelo Espírito Santo.

Com a sua amabilidade Inocência tudo fazia para atender os pedidos de Anunciação. Embalou-a no berço, viu-a crescer, a ir para a faculdade e a doutorar-se, tendo nesse dia servido um grande almoço com gente graúda cá do burgo.




Quando tudo parecia correr bem, o Zé adoeceu com a tuberculose, e o sr. Dr. Marcos internou-o no Sanatório de Louredo da Serra, local especializado para o tratamento dessa malvada doença. Apesar de todo o apoio e tratamentos aplicados, o Zé acabou por dar a alma ao Criador.

Perante este cenário, o Dr. Marcos ofereceu o quarto dos fundos para a viúva Inocência viver. Os seus haveres foram trazidos numa mala para o seu quarto, assim como um caderno onde Inocência registava todos os acontecimentos da sua vida, como se de um diário se tratasse.



Entretanto começa a Guerra Colonial, e dois batalhões são mobilizados para Angola. Despedem-se da cidade desfilando pelas ruas, onde nos passeios e das janelas apinhadas de gente acenam aos soldados com lenços brancos. À frente de um batalhão lá ia o Major Dinis e mais atrás o Jesus ambos filhos de Inocência que lhes acena com o lenço enquanto as lágrimas escorrem pelas faces ósseas da cara. Os seus meninos iam para a guerra. 

 


 

A vida na santa terrinha corria ao sabor do tempo, quando foi abalada pela morte de Jesus que pisou uma mina numa picada de terra barrenta.

No dia do seu funeral, o comércio encerrou as suas portas, as entidades municipais fecharam e todo o mundo se dirigiu ao cemitério a fim de se despedir deste herói que morreu a combater os terroristas em África. Houve salva de tiros quando o caixão desceu à terra.




No 10 de Junho, Dia da Raça, Dona Esperança deslocou-se a Lisboa, mais propriamente ao Terreiro do Paço, para receber a medalha de Cruz de Guerra de Valor Militar de ouro. O locutor lia os louvores das condecorações que eram atribuídas aos militares ou às suas famílias, quando concedidas a título póstumo.




Quando ouviu o seu nome, subiu à tribuna de honra montada para o efeito, onde estavam os mais altos dirigentes do regime. Foi condecorada pelo Presidente da República Américo Tomás, de uniforme branco de Almirante. No final da cerimónia, o clarim tocou a sentido, entoou-se o Hino Nacional, e as forças em parada desfilaram perante as altas entidades e os condecorados alinhados na tribuna.

Dinis fez comissão, atrás de comissão e de cada vez que ia e vinha da guerra colonial, subia um posto na sua carreira militar.




25 de Abril de 1974, o golpe militar que derrubou um regime e acabou com a guerra. O seu Dinis, fazia parte dos capitães de Abril, e o povo desceu à rua a dar vivas à Liberdade! Liberdade!

Mas Inocência, sabia que para si, ainda não tinha chegado a Liberdade para contar a sua vida mentida aos próprios filhos, mas essa, está toda escrita no seu caderninho, no quarto dos fundos.


Fernando Oliveira – Furriel de Junho